No início da semana, a discussão começava com uma imagem: a Inteligência Artificial é um “comboio de alta velocidade, um TGV” e as empresas estão a tentar correr suficientemente depressa para conseguir entrar. Sete dias depois, encerrada a segunda edição da Lisbon AI Week, talvez seja precisamente a velocidade da mudança uma das conclusões mais evidentes. Entre 21 e 27 de setembro, cerca de cinquenta eventos espalharam-se por diferentes espaços da capital, ultrapassando o número de iniciativas da primeira edição. A organização estima que terão participado aproximadamente 2.500 pessoas, acima das cerca de duas mil contabilizadas no ano passado.
Ao longo da semana, a Inteligência Artificial foi discutida e experimentada em áreas tão diferentes como jornalismo, recrutamento, saúde, sustentabilidade, marketing, arte ou defesa. E se há um ano grande parte da conversa ainda passava por perceber aquilo que a tecnologia conseguiria fazer, nesta edição multiplicaram-se os exemplos de aplicações concretas e, com eles, novas perguntas sobre as consequências da sua utilização.
Foi isso que começou por acontecer logo no primeiro dia. Nas instalações da agência de comunicação The Square, Rudolf Gruner, diretor-geral do Observador, e Pedro Morais Leitão, administrador-delegado da Media Capital, discutiram o impacto da IA nos media, no jornalismo e nas democracias.

A conversa passou pela utilização que as duas empresas já fazem da tecnologia, mas também por duas questões que deverão ganhar peso à medida que o tempo passa: quanto vai custar esta transformação e o que acontecerá ao trabalho humano.
Pedro Morais Leitão antecipou uma “escalada de custos” e comparou a transformação a uma revolução industrial, num momento em que ainda não é claro quem acabará por suportar o enorme investimento realizado pelas empresas tecnológicas. Rudolf Gruner lembrou que as estimativas de investimento dos principais grupos ligados à IA atingem centenas de milhares de milhões de dólares e deixou uma certeza: “Alguém vai ter que pagar isto”.
O lugar dos juniores
Também o emprego entrou na discussão, sobretudo o futuro das posições de entrada. Pedro Morais Leitão admitiu que uma pessoa com pouca experiência poderá ter cada vez mais dificuldade em acrescentar valor a tarefas que a Inteligência Artificial já consegue realizar, enquanto profissionais mais experientes poderão assumir um papel crescente na validação do trabalho produzido pelas máquinas.
Rudolf Gruner reconheceu que a transformação já é visível na tecnologia, onde o Observador praticamente deixou de precisar de programadores juniores para tarefas de código de baixo nível, mas afastou, para já, o mesmo cenário da redação.
Pouco depois, noutro ponto da cidade, uma iniciativa da The Epic Talent Society mostrava outra perspetiva sobre exatamente o mesmo problema.
Em vez de começar o processo de recrutamento com uma entrevista convencional, vários jovens receberam desafios e foram observados enquanto procuravam resolvê-los com recurso, também, a ferramentas de Inteligência Artificial. A ideia era perceber não apenas se chegavam a uma resposta, mas como estruturavam o pensamento, que perguntas faziam, que ferramentas escolhiam e como as utilizavam.
Tiago Forjaz, fundador e managing partner da The Epic Talent Society, rejeitou a ideia de que a disponibilidade destas ferramentas significa que os jovens deixaram de saber pensar. Durante o exercício, houve quem começasse por preencher duas folhas com hipóteses antes de recorrer ao ChatGPT e quem colocasse o mesmo problema a diferentes ferramentas para comparar os resultados.
A LTPlabs, que forneceu os desafios, procurava precisamente avaliar competências como estruturação do pensamento, criatividade e literacia em IA. Alguns dos participantes ficaram sinalizados para possíveis entrevistas e propostas de trabalho.
Quando já não basta aparecer no Google
No dia seguinte, o ângulo mudou novamente. Na sessão “Reverse-Engineering the AI Answer”, José Pedro Nunes, cofundador e CTO da Reach, colocou em cima da mesa uma transformação que começa a preocupar marcas e equipas de marketing: o que acontece quando o consumidor deixa de procurar apenas no Google e começa a perguntar diretamente a um assistente de Inteligência Artificial?
A questão já não é apenas saber se uma empresa aparece nos resultados de uma pesquisa. Passa também por perceber se é mencionada por um modelo, que fontes são utilizadas para sustentar a resposta, qual o sentimento associado à marca e, sobretudo, se esta acaba ou não recomendada.
Um exemplo apresentado durante a sessão mostrou precisamente que uma marca pode ser citada, receber uma avaliação positiva e, ainda assim, não ser a escolha recomendada pelo assistente.

A resposta passa por começar a medir um território que há pouco tempo praticamente não existia: monitorizar diariamente perguntas em diferentes modelos, identificar padrões nas respostas e utilizar essa informação para perceber o que pode ser melhorado na informação disponibilizada pelas empresas.
Na mesma terça-feira, o evento “AI with Purpose”, organizado pela Unicorn Factory Lisboa no AIhub, levou a Inteligência Artificial para outros terrenos: cidades, sustentabilidade e saúde.
No Urban Track, Pedro Fernandes, Machine Learning Lead da TEKEVER, abordou aplicações da tecnologia perante desafios como o combate a incêndios, operações de busca e salvamento no mar ou a distribuição de recursos em zonas afetadas por conflitos. Francisco Pais de Sousa, managing partner e cofundador da L.ai, levou a discussão para a gestão de resíduos e para a cadeia de valor associada.
No Health Track, a discussão centrou-se na possibilidade de utilizar IA para tornar os cuidados de saúde mais preventivos e acessíveis. O programa incluiu ainda demonstrações de soluções desenvolvidas por diferentes startups e terminou com Rodrigo Fernandes, cofundador da Augusta Labs, a colocar a discussão num horizonte mais longo: que impacto terá esta tecnologia na forma como trabalhamos, vivemos e tomamos decisões?
Da saúde à defesa
A diversidade continuou nos dias seguintes. Entre as iniciativas realizadas durante a semana houve também espaço para discutir a utilização da Inteligência Artificial na indústria da defesa, num contexto em que sistemas autónomos, drones e análise de informação estão a ganhar peso.
Para Leo Xavier, coorganizador da Lisbon AI Week, é precisamente a comparação com a primeira edição que permite perceber a velocidade a que o ecossistema está a evoluir. “Passado um ano, muita coisa mudou, o que justifica realmente estar muito atento a tudo o que está a acontecer”, considera Leo Xavier, Chief Technology & Innovation Officer do Observador.
O coorganizador destaca uma aceleração em várias frentes: no interesse do público, na vontade das organizações em participar e nas próprias temáticas levadas aos eventos. Da defesa à arte ou ao recrutamento, as aplicações estão a chegar a áreas muito diferentes e a evoluir rapidamente.
É também por isso que a Lisbon AI Week mantém um modelo pouco habitual para um evento tecnológico. Não existe um recinto único nem uma organização central responsável por construir toda a agenda. Empresas, startups, universidades, comunidades e outras entidades propõem e organizam as próprias iniciativas, que passam a integrar um programa comum espalhado pela cidade.
Depois de duas edições, Leo Xavier acredita que o formato voltou a ser compreendido e acolhido pelos participantes e encontra precisamente aí uma das razões para a variedade alcançada durante os sete dias. “Só abrindo o evento à sociedade, só deixando que a própria sociedade organize eventos, é que conseguimos, de facto, chegar às áreas de toda a sociedade”, diz Leo Xavier.
A alternativa seria a organização decidir previamente quais os temas que mereciam entrar no programa. E isso, defende, produziria necessariamente uma semana diferente. “Fazer uma coisa em que nós é que decretamos ‘vamos ser um evento sobre A, B, C e D’ nunca nos permitiria ter esta diversidade de temáticas e audiências.”
Foi essa diversidade que permitiu que, em sete dias, a mesma semana acolhesse uma discussão sobre a sobrevivência económica dos media perante a IA, jovens a demonstrarem como usam a tecnologia para resolver problemas, startups a apresentarem soluções para a saúde, especialistas a analisarem a forma como as marcas começam a aparecer nas respostas dos modelos ou empresas a discutirem aplicações na defesa.