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Rita Cabaço e a história de uma mentira que se repete 

No São Luiz, a atriz estreia-se na encenação com "Caminho do Céu", de Juan Mayorga. Uma história baseada na cidade de fechada que os nazis criaram no campo de concentração de Terezín.

Ricardo Ramos Gonçalves
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Num dos últimos ensaios, a escassos dias da estreia, Rita Cabaço vai dando indicações ao elenco: “diverte-te”, “projeta a voz”, “ocupem o espaço e não tenham receio de remexer no cenário”. Diante da atriz e encenadora estão oito dos catorze não atores selecionados através de uma open call para o seu espetáculo de estreia na encenação, Caminho do Céu. Há crianças, jovens e adultos, reunidos num mesmo palco e ainda a descobrir como ocupar um espaço que, em breve, será também o seu. Entre as últimas afinações, preparam-se para dar corpo e voz a uma história sobre a violência e a construção da mentira, a partir de um texto escrito em 2003 pelo dramaturgo espanhol Juan Mayorga, inspirado num acontecimento histórico macabro. O espetáculo sobe ao palco da Sala Mário Viegas, no Teatro São Luiz, a partir desta quarta-feira, 30 de setembro.

Para este grupo de não atores, ao qual se juntam três atores profissionais, o desafio é substancial. Trata-se de dar vida a um texto que exige confrontar uma matéria histórica particularmente difícil e recriar uma violência que habita nas entrelinhas, sem nunca se expor de forma óbvia. Foi precisamente essa a linha de força traçada por Rita Cabaço: expor essas camadas sem as domesticar, aproveitando a espontaneidade de intérpretes afastados de gestos e convenções teatrais. “No trabalho, na família, quem é que nunca teve de fingir?”, escuta-se a certa altura numa das cenas. A provocação é inusitada: nesta história real, também as pessoas tiveram de fingir, tal como no teatro.

A partir dessa ausência de códigos teatrais, Rita Cabaço procurou traduzir a violência e a opressão sem cair num discurso moralista. “Somos, todos nós, uma coisa e o seu contrário. Somos capazes do maior gesto de bondade, como das maiores barbaridades”, reflete. A presença de não atores permite-lhe preservar uma verdade crua nas reações, nos corpos e nas vozes. “Interessa-me que sejam corpos não trabalhados, com dúvidas e sem o tal à-vontade em cena, tal como as pessoas reais, que foram colocadas naquela situação sem saber representar. É uma linguagem genuína que ajuda muito a construir a narrativa”, sustenta. Num espetáculo assente no fabrico da realidade e na manipulação de quem nela é envolvido, essa autenticidade ganha uma relevância particular.

Um engenho teatral

Para compreender verdadeiramente a engrenagem de Caminho do Céu, é preciso recuar a 1944 e à cidade checa de Terezín. Transformada pelos nazis num gueto e campo de concentração, conhecido pelo nome de Theresienstadt, destinado à população judaica, Terezín foi também convertida numa espécie de cidade de fachada. Em junho desse ano, perante a visita de uma delegação da Cruz Vermelha vinda da Dinamarca, os nazis orquestraram uma aparência de normalidade e bem-estar, camuflando a sobrelotação, a fome e a doença que marcavam o quotidiano dos prisioneiros.

Nas palavras de Eric Nash, um dos sobreviventes de Terezín, encontram-se os detalhes dessa transformação: “Este sítio miserável, faminto, fétido, assolado pela praga e disenteria, foi transformado do dia para a noite numa bonita cidade”, recordou. A fachada incluía um parque com um coreto, uma rua com um café, um banco, lojas, um parque infantil e até um campo de futebol. “Nós percebemos do que se tratava, porque nos disseram que vinha uma equipa de cinema filmar, para que o mundo inteiro pudesse ver o maravilhoso presente que Hitler dera aos judeus: uma cidade.”

A visita da delegação exigiu, como hoje se sabe, uma elaborada operação cénica. Além das ruas limpas e dos espaços culturais reorganizados, coube aos prisioneiros, a quem deram roupas novas, representar uma vida quotidiana aparentemente normal. Tudo deveria funcionar como uma prova de que as acusações sobre as condições dos judeus nos territórios controlados pelos nazis eram infundadas. A cidade transformava-se, assim, num cenário e os seus habitantes em intérpretes involuntários de uma realidade fabricada.

Foi esse mecanismo de ilusão que Juan Mayorga transportou para a dramaturgia. Na peça, sob as ordens de um comandante nazi, um prisioneiro judeu é coagido a desempenhar o papel de presidente da Câmara de uma cidade-fantasma perante a chegada de um delegado da Cruz Vermelha. À sua volta, toda a comunidade é instruída a encenar uma rotina pacífica. Cada gesto, palavra e olhar passam a obedecer a um guião cuidadosamente controlado.

A estrutura do espetáculo divide-se, assim, em dois momentos. Começa com a retrospetiva do próprio delegado que, como observador, relata aquilo que testemunhou — um relato que acaba por validar a aparência de normalidade construída para a visita: “Vi uma cidade normal. Eu não tinha visto nada de anormal, não podia inventar o que não tinha visto.” Num segundo momento, o dispositivo inverte-se e é o público que passa a ocupar o lugar do delegado, observando a vida daquela comunidade. “Nesse momento, somos nós que avaliamos, sentimos e tiramos conclusões a partir do que vemos”, explica Rita Cabaço. O espectador torna-se, assim, testemunha de conversas banais, de crianças a jogar ao pião ou de um casal a dançar enquanto desenha o seu horizonte de felicidade.

Instalado dentro deste jogo psicológico, o público sente essa aparente tranquilidade, dividido entre a normalidade daqueles dias e a consciência perturbadora do que está verdadeiramente em jogo. Para Rita Cabaço, esta é uma dimensão-chave da obra. “Interessa-me neste texto a forma como expõe a violência e este ato de desumanização, mas de uma forma muito bem escrita e equilibrada, sem ser moralista”, afirma. Há até uma estranha leveza no meio do horror: “Tem momentos de grande violência, mas há passagens em que somos capazes de nos rir do agressor e do seu ridículo.” Longe de atenuar a gravidade dos factos, o absurdo da farsa cria uma distância crítica, permitindo dissecar as engrenagens por detrás da mentira.

Uma história que não termina

Embora tenha lido a peça há vários anos, Rita Cabaço sentiu o texto ganhar uma urgência renovada no contexto atual. “O crescimento da extrema-direita, os conflitos que pairam sobre nós, bem como as disputas sobre o que é ou não verdade, fizeram com que este texto estivesse cada vez mais presente. Foi aí que decidi perder o medo e levantar o espetáculo”, partilha. Mais do que uma reconstituição histórica do Holocausto, realça, o projeto parte desse episódio para interrogar mecanismos que não pertencem exclusivamente ao passado.

“Podemos partir desse contexto para pensarmos no hoje. Pensar nestes mecanismos que se vão repetindo na própria ciclicidade da história”, sublinha. Não querendo ser realista ou naturalista, a abordagem escolhida é, por isso, mais abstrata, próxima do absurdo, “porque vejo como hoje em dia vemos esse absurdo em muitas das figuras políticas que nos rodeiam. É um absurdo cada vez mais normalizado e que está a conseguir contaminar o pensamento e a razão, códigos que antes dávamos como garantidos”, completa.

Sem estar interessada em passar uma mensagem de mudança, a intenção passa por mostrar como a própria encenadora se revê nesta história que é de todos. “É uma tentativa de espelho da humanidade, onde também me incluo, sem querer dar com isso algum sinal de esperança ou de condenação.” E é talvez esse o lugar de Caminho do Céu: não o de uma memória encerrada em 1944, mas o de um espelho que devolve ao presente as engrenagens que continuam a repetir-se. Sabemos onde terminou aquele caminho. A questão é reconhecer os sinais antes de voltar a percorrê-lo.