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Indisciplina dos alunos, falta de professores e pouca satisfação: o relatório da OCDE sobre Educação em cinco pontos

Novo relatório da OCDE assinala que a falta de professores é um desafio transversal aos países. Salários "competitivos" e "reconhecimento público" tornam profissão mais atrativa.

Leonor Riso
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Portugal é um dos países onde os professores mais assinalam problemas de indisciplina na sala de aula, fator que, a par do excessivo trabalho administrativo, é apontado como uma das causas do crescente stress entre docentes. Esta é uma das conclusões do relatório Education at a Glance 2026, desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e que, este ano, dá especial atenção à falta de professores.

Portugal volta a colocar-se como um dos países onde os professores são mais velhos, problema que partilha com a Estónia, Itália, Lituânia e Letónia — mas o envelhecimento é um problema transversal. Por isso, é necessário fixar docentes na carreira.

“Salários competitivos e cargas de trabalho geríveis podem ajudar a aliviar a falta de professores, ao tornarem a profissão mais atrativa, mas não são suficientes. Autonomia profissional, liderança solidária, relações laborais positivas, desenvolvimento de carreira e reconhecimento público também dão forma à atratividade do ensino”, aponta o documento. Contudo, os países também devem adaptar-se a um futuro em que ainda menos docentes estarão disponíveis, o que terá de levar a um uso mais produtivo e especializado do tempo dos professores. “O maior uso de ferramentas digitais e de Inteligência Artificial, um planeamento melhorado da mão de obra, e estruturas escolares redesenhadas podem ajudar a reduzir os fardos administrativos e permitir aos professores trabalhar com mais eficácia.”

Atrair professores no início de carreira é “desafio” na OCDE

Em Portugal, 38% dos professores do ensino secundário têm 55 anos ou mais. É a quinta percentagem mais elevada no quadro da OCDE, segundo este relatório, onde também fica claro que esse universo de professores mais velhos subiu entre 20% (na educação primária) e 23% (no secundário) entre 2015 e 2024.

Os dados deste último ano salientam que pressões idênticas no corpo de docentes nas escolas se fazem sentir em países como a Estónia, Itália, Lituânia e Letónia. A média da OCDE situa-se nos 25% de docentes com 55 anos ou mais.

A OCDE considera ainda que a saída de professores que estão no início da carreira continua a ser “um importante desafio de mão de obra em vários sistemas educativos”: “Os professores com menos de cinco anos de experiência compõem um terço das demissões no ensino primário e secundário em média, ao considerar os países e economias da OCDE, chegando aos 77% em Israel, 69% na Áustria, 66% na Comunidade Francesa da Bélgica e 64% no Luxemburgo.” Contudo, não há dados sobre Portugal.

https://observador.pt/2026/09/28/universidades-abrem-mais-de-mil-vagas-para-profissionalizacao-em-servico-de-professores/

Indisciplina preocupa docentes, que também pedem mais preparação para alunos com NEE

Os professores destacam ainda que os comportamentos desadequados em sala de aula e a indisciplina dos alunos se tornaram mais desafiantes — uma realidade que atravessa os vários países visados no estudo. “Em média, nos países e economias da OCDE, a percentagem de professores que relatam precisar de acalmar alunos disruptivos na aula ‘frequentemente’ ou ‘sempre’ aumentou de 64% em 2018 para 72% em 2024”, lê-se no relatório. Os países onde mais se sentiu esse aumento foram a Letónia (36%), Japão (14%) e Noruega (14%).

Contudo, “proporções muito elevadas de professores relatam lidar regularmente com comportamentos perturbadores, incluindo a Arábia Saudita (93%), Portugal (91%) e Chile (91%)”. Em Portugal, registou-se um aumento de seis pontos percentuais entre 2018 e 2024.

Perante esta realidade, a que se junta o “trabalho administrativo excessivo”, já são 19% os professores que garantem estar sob “muito stress” no seu trabalho diário, na média da OCDE. “Estes resultados sugerem que dar resposta à escassez de professores não é apenas uma questão de recrutamento, mas também de ajudar os professores a lidar com ambientes de sala de aula cada vez mais complexos. Políticas que disponibilizem pessoal de apoio especializado, reforcem a integração e mentoria, ampliem a formação para a educação inclusiva e reduzam tarefas administrativas desnecessárias podem, portanto, desempenhar um papel importante na melhoria da retenção de professores e na sustentabilidade a longo prazo da profissão”, sugerem os peritos.

Outra preocupação dos docentes é o aumento dos alunos com necessidades educativas especiais (NEE) nas escolas, valores cuja evolução, ressalva a OCDE, deve ser interpretada com cautela seja devido às denominações diferentes usadas pelos países, seja pela falta de resposta de alguns.

Contudo, são pedidas “preparação inicial suficiente, pessoal de apoio especializado, formação ou oportunidades de desenvolvimento profissional para dar resposta” a estes alunos. “Os inquéritos TALIS têm sublinhado repetidamente que os professores relatam frequentemente sentir-se insuficientemente preparados para ensinar alunos com necessidades educativas especiais ou alunos de origens linguísticas e culturais diversas, particularmente no início da sua carreira.”

https://observador.pt/2025/10/06/professores-em-portugal-enfrentam-mais-indisciplina-e-stress-ocde-alerta-para-distribuicao-desigual-de-turmas-problematicas/

Impacto das faltas na aprendizagem dos alunos está acima da média da OCDE

O relatório da OCDE também não dispõe de valores de Portugal relativamente às faltas de professores durante dois meses ou mais, em que se destacam países como Áustria (10,8%), Coreia do Sul (8,8%) ou Irlanda (8%).

Porém, o país ficou ligeiramente acima (26,7%) da média da OCDE (26,5%) quanto à perceção, por parte dos diretores, de que as faltas dos professores limitam a aprendizagem dos alunos com 15 anos. Os maiores valores verificaram-se na Bélgica (60%), Alemanha (55%) e Estónia (52%), ao passo que esse impacto é tido como menos preocupante na Lituânia (1%), Coreia do Sul (3%), e Japão (6%).

Os alunos do ensino público também são mais prejudicados pelas faltas dos professores do que os do ensino privado, com 24% maior probabilidade de um estudante do ensino público sentir esses efeitos do que um de uma escola privada. “Estes números sugerem que o setor público enfrenta dificuldades maiores em substituir os professores ausentes ou assegurar a continuidade pedagógica”, explica o relatório. Os maiores desequilíbrios entre os dois tipos de ensino verificam-se no Chile (43%), Estónia (41%) e Nova Zelândia e Eslovénia (ambas com 39%).

Sem professores, países procuram várias alternativas

O crescente recurso a professores que ainda não completaram a sua profissionalização “ilustra como os sistemas educativos se adaptam às dificuldades de recrutamento e mantêm a continuidade da instrução, apesar das faltas de professores totalmente qualificados”, adianta o relatório. Apesar de não apresentar dados sobre Portugal, estes docentes compõem 9,1% dos existentes nos ciclos básico e secundário na OCDE, chegando a mais de 18% no Chile, Dinamarca, Estónia e Alemanha.

Entre 2017/18 e 2024/25, dois terços dos países analisados sentiram aumentos nestas percentagens, o que reflete que os sistemas educativos tiveram que arranjar alternativas, e é no ensino secundário que se nota maior presença destes profissionais. “Este padrão provavelmente reflete maiores dificuldades de recrutamento em níveis mais elevados de educação, onde os requisitos de especialização da disciplina são mais exigentes. A competição com outros setores também pode ser mais forte, particularmente em campos relacionados com as STEM [Science, Technology, Engineering and Mathematics ou Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática].”

O relatório analisa ainda os chamados “professores de segunda carreira”, designação aplicável aos docentes para quem ensinar não foi a primeira escolha de emprego e que obtiveram pelo menos dez anos de experiência profissional em funções diversas das educativas.

Em média, na OCDE, 8,4% dos professores do 3.º ciclo do ensino básico incluem-se nessa definição; em Portugal, são 3,1% de todos os professores. O valor mais elevado — considerando o 3.º ciclo — verifica-se na Islândia (20,9%).

Salários dos professores em início de carreira não acompanharam países da OCDE

O relatório é claro: “A satisfação com as condições laborais e os salários dos professores em Portugal é baixa quando comparada com a dos restantes países da OCDE.” Tal acontece porque se no geral 68,4% dos professores do 3.º ciclo dizem estar satisfeitos com as condições e 38,7% com os seus salários, em Portugal os valores baixam para 39,1% e 13,4%, respetivamente.

Em Portugal, os salários dos professores do 3.º ciclo são 25% mais elevados do que os dos outros trabalhadores que estudaram além do ensino obrigatório. Contudo, ao verificar a evolução dos vencimentos atribuídos aos professores em início de carreira da educação básica e secundária, o país andou em sentido contrário à OCDE. Em média, subiram entre 18 e 20% nos países; em Portugal, baixaram 10%.

Segundo a OCDE, “a perceção do estatuto da profissão de professor influencia as intenções de carreira dos docentes independentemente de outros importantes fatores que afetam a retenção” na carreira. Contudo, só 22% sentem que hoje em dia, o ensino é valorizado pela sociedade.