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"Gaza vai rebentar na vossa cara". Revelações de avisos deixados a Netanyahu sobre 7 de Outubro pairam sobre as eleições

Quatro investigações revelaram que Netanyahu terá sido informado de um ataque iminente do Hamas. Inação do PM ameaça a sua reeleição, já que o 7 de Outubro é um fator crucial para os eleitores.

Madalena Moreira
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Nos últimos dias de setembro de 2023, um representante da embaixada dos Emirados Árabes Unidos (EAU) em Israel entrou no gabinete do primeiro-ministro com um telefone encriptado. Do outro lado da linha estava o Presidente emirati Mohamed bin Zayed. O procedimento para os telefonemas era habitual. O conteúdo da mensagem que Bin Zayed transmitiu a Benjamin Netanyahu não tanto. O xeque terá avisado o líder israelita de um ataque iminente em larga escala do Hamas contra Israel. Netanyahu reagiu com “relativa calma” e não terá informado ninguém na chefia militar israelita do alerta. Uma semana e meia depois, no dia 7 de Outubro, o Hamas lançou um ataque contra o festival Nova e kibbutzim no sul de Israel, matando 1.195 pessoas e raptando outras 251.

Quase três anos depois, as ações de Benjamin Netanyahu nas vésperas do maior ataque de sempre contra solo israelita assombram a reta final da sua campanha eleitoral. No dia 27 de outubro, cumprem-se as primeiras eleições legislativas no país desde o 7 de Outubro, em que Netanyahu procura um inédito sétimo mandato à frente do Governo de Telavive. As sondagens colocam o atual primeiro-ministro numa corrida renhida com Gadi Eisenkot, um ex-general que perdeu o filho na longa ofensiva israelita contra a Faixa de Gaza que se seguiu aos ataques do Hamas.

https://observador.pt/especiais/o-ex-general-que-perdeu-o-filho-em-gaza-gadi-eisenkot-o-novo-rival-de-netanyahu-que-quer-curar-as-divisoes-em-israel/

Foi neste contexto político que surgiram as informações relativas ao aviso de Bin Zayed a Netanyahu, noticiadas no dia 8 de setembro pelo Haaretz. A longa reportagem resultou de conversas com responsáveis séniores israelitas e internacionais, conselheiros dos líderes dos Emirados e do Qatar e revisão de documentos e comunicações internas. O gabinete de Netanyahu classificou a investigação como “uma mentira absoluta”, mas, passadas duas semanas, a maior parte das informações reveladas pelo jornal israelita foi confirmada por uma investigação do New York Times, que teve acesso às atas das reuniões de Netanyahu com as chefias militares nas vésperas do 7 de Outubro.

Ainda antes das publicações destas investigações, já a questão das falhas de segurança que levaram ao 7 de Outubro imperava — segundo um inquérito do Israel Democracy Institute (IDI) realizado entre 31 de agosto e 3 de setembro, cerca de um terço dos israelitas considera que o 7 de Outubro tem um peso “muito central” na direção do seu voto. As novas informações apenas alimentaram as críticas dos líderes da oposição israelita que, em conjunto, as utilizam para declarar que Netanyahu não tem “condições para continuar no cargo”. “Os eventos do 7 de Outubro pairam sem dúvida sobre estas eleições“, resumiu Tamar Hermann, analista sénior do IDI ao Wall Street Journal.

Os avisos do Egito, as ameaças de Sinwar e as reuniões em Telavive

Tinham passado poucos dias do 7 de Outubro de 2023 quando a notícia surgiu no jornal israelita Yediot Ahronot: os serviços secretos egípcios teriam avisado Telavive da possibilidade de um ataque de larga dimensão do Hamas. Quase três anos depois, a The Atlantic corroborou a informação, detalhando o contexto deste aviso. No dia 26 de setembro de 2023, Abbas Kamel, chefe dos serviços de informações do Egito, aterrou no aeroporto Ben Gurion, em Telavive, durante 67 minutos e transmitiu uma informação a Telavive: “Se não mudarem de rumo, Gaza vai rebentar na vossa cara“, escreveu a revista norte-americana na passada sexta-feira, citando um responsável israelita que foi informado da visita.

A revista não detalha com quem é que Kamel se encontrou, mas a mensagem não foi recebida com a urgência que o Cairo esperava. Cerca de uma semana mais tarde, o líder das secretas egípcias insistiu e telefonou diretamente a Benjamin Netanyahu, renovando o alerta. A existência deste telefonema foi revelada pela primeira vez no passado domingo pelo Wall Street Journal, que cita responsáveis do Governo egípcio para caracterizar o estado de “crescente ansiedade” no Cairo face à inação de Telavive. Na verdade, por altura do telefonema de Kamel — que seria o terceiro alerta deixado pelo Egito —, já Netanyahu recebera o telefonema de Mohamed bin Zayed anteriormente referido.

Todavia, os contactos diretos com o gabinete do primeiro-ministro israelita foram só o culminar de uma série de alertas que já tinham sido dirigidos à estrutura de segurança israelita. Para perceber a origem destes alertas é preciso recuar ao início de 2023, quando o Hamas e o Shin Bet (os serviços de segurança israelitas), por intermédio de um mediador da Fatah, o partido que controla a Autoridade Palestiniana (AP), iniciaram negociações relativamente aos bloqueios israelitas na Faixa de Gaza e a uma possível troca de prisioneiros entre Telavive e o Hamas. As negociações decorreram de forma normal até setembro de 2023, quando Yahya Sinwar, o líder do Hamas em Gaza, se retirou subitamente das conversas.

Ao Haaretz, uma fonte do grupo palestiniano disse que a paciência de Sinwar com Israel se tinha “esgotado”. Foi nesse contexto que o líder palestiniano contactou o mediador da Fatah para transmitir uma mensagem ao lado israelita: “Se não fizerem progressos [nas negociações], tenho uma grande surpresa para eles”. Em meados de setembro, Sinwar reforça a mensagem e insiste que deve ser transmitida a Telavive. O mediador acede e informa, a 15 de setembro, o Shin Bet. O alerta também é transmitido a um conselheiro palestiniano do xeque emirati. Convencidas da veracidade da ameaça, as autoridades dos EAU reforçam os alertas em diálogos com os homólogos israelitas.

No passado domingo, em entrevista à Radio Army, o então ministro da Defesa, Yoav Gallant, confirmou que as autoridades de segurança receberam estes avisos e que estes foram analisados. Segundo Gallant, Netanyahu nunca informou as chefias militares de que recebera alertas diretos de pelo menos dois países — algo que, no seu entendimento, teria mudado a interpretação que foi feita dos alertas. Numa dessas reuniões, a 1 de outubro, o líder do Shin Bet, Ronen Bar, recomendou um ataque contra a liderança do Hamas. As autoridades israelitas acreditavam que a ameaça de Sinwar era um instrumento para testar a prontidão das Forças Armadas israelitas, detalhou um responsável ouvido pelo Haaretz. Segundo as atas da reunião, consultadas pelo New York Times, Netanyahu recusou qualquer ação em Gaza, afirmando temer que essa ação minasse o processo de normalização das relações diplomáticas que estava em curso com a Arábia Saudita. Seis dias depois, Sinwar deu luz verde ao ataque do 7 de Outubro.

Como Netanyahu mobilizou a “narrativa do ‘não me acordaram'”

Falta um minuto para as 6h30 da manhã do dia 7 de Outubro quando o Hamas dispara a primeira vaga de mísseis contra Israel. Só mais de três horas depois, às 9h55, é que o primeiro-ministro recebe a primeira atualização por parte do chefe do Estado-Maior do Exército israelita, Herzi Halevi. Ronen Bar, à altura diretor do Shin Bet, fora informado de uma possível ameaça ainda às 5h15, mais de uma hora antes de o ataque começar. As datas estão discriminadas na cronologia daquela manhã, reconstituída pelo gabinete do primeiro-ministro.

Foi esta cronologia que, ao longo dos últimos dois meses de campanha, sustentou a acusação de Benjamin Netanyahu contra as chefias militares, que responsabiliza pela falha de segurança do 7 de Outubro — nem Halevi nem Bar continuam nos cargos. “Porque é que eles não me acordaram? Porque sabiam que eu, enquanto primeiro-ministro de Israel, teria colocado imediatamente o Exército todo em alerta, teria acordado as localidades todas [na fronteira com Gaza]”, afirmou Netanyahu num direto nas redes sociais no início de setembro. “É tão óbvio que tudo isso podia ter sido feito. E isso foi escondido do público”, acusou ainda.

As investigações que se seguiram a esse direto contrariam diretamente aquilo que a imprensa e os adversários políticos de Netanyahu classificam como “a narrativa do ‘não me acordaram’“. “Neste cenário, ao ter falhado em transmitir os avisos aos líderes do sistema de segurança, foi Netanyahu que falhou em agarrá-los pelos colarinhos — e não o contrário”, argumenta o especialista em análise militar Amir Bar Shalom numa coluna de opinião no Times of Israel.

Benjamin Netanyahu negou firmemente ter sequer falado ao telefone com Mohamed bin Zayed naqueles últimos dias de setembro. Porém, este domingo, o primeiro-ministro israelita terá empreendido uma viagem secreta aos Emirados com um único propósito: pedir ao xeque que negue igualmente os relatos da imprensa. A suposta viagem de Netanyahu foi noticiada novamente pelo Haaretz, que cita uma fonte com conhecimento da deslocação.

Questionado pelo jornal israelita, Bin Zayed nunca respondeu aos pedidos de contacto. À imprensa emirati, um responsável do Governo afirmou que “os detalhes de questões de segurança não são discutidos entre líderes nacionais”. Porém, de forma oficial ou através de fontes, os Emirados nunca negaram inequivocamente o relato do Haaretz, tal como fez Netanyahu — ou como fez Antony Blinken, o antigo secretário de Estado norte-americano que classificou o seu envolvimento no caso, noticiado pelo Haaretz, como “uma ficção completa”.

A busca por responsabilidades a caminho das eleições

“Isto foi escondido do público”. A frase foi dita por Benjamin Netanyahu na sua acusação contra os líderes militares. Porém, a busca por transparência relativamente às falhas de segurança que levaram ao 7 de Outubro é partilhada pela maioria dos eleitores israelitas. Segundo um estudo do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Telavive, 75% dos israelitas apoiam a criação de uma comissão de inquérito ao 7 de Outubro.

A divergência surge quanto ao formato que deve ter esta comissão. A coligação de direita e extrema-direita que sustenta o Governo de Netanyahu defende a criação de uma comissão parlamentar, onde estas forças políticas teriam maioria. Já a oposição defende a criação de uma comissão independente, sob a jurisdição dos tribunais israelitas — em cuja imparcialidade o primeiro-ministro não confia.

A promessa da criação de uma comissão de inquérito já era um dos temas mais acesos da campanha, dada a relevância que os eleitores dão ao 7 de Outubro. O estudo do IDI anteriormente mencionado revela que 32,5% dos eleitores consideram o tema “muito central” na sua decisão nas urnas, enquanto 29,5% dizem que é “relativamente central”. A questão é mais relevante para os eleitores de esquerda e de centro do que para os eleitores de direita, detalha ainda o inquérito.

Amos Harel, jornalista do Haaretz, argumenta que Netanyahu deverá continuar a insistir na “sua mistura familiar de negações, teorias da conspiração e esforços para mudar a culpa para os responsáveis de segurança”. “Até agora, a estratégia resultou relativamente bem, pelo menos entre uma parte significativa dos seus eleitores“, mais à direita no espectro. Contudo, numa coluna de análise, Harel considera que a sucessão de investigações internacionais, que revelam diferentes ângulos, pode funcionar contra Netanyahu. “Netanyahu ou ignorou ou desvalorizou a importância [dos avisos]. Agora nega qualquer sugestão de que tem culpa ou responsabilidade. A eleição é sobre isto”, remata.

Ciente deste contexto e da posição da sociedade israelita, a oposição a Netanyahu tem insistido neste tema. “O público israelita tem o direito de saber: o que Netanyahu sabia, quando soube, porque não informou as chefias do sistema de segurança e porque não agiu para proteger os cidadãos de Israel”, lê-se num comunicado do dia 8 de setembro, assinado por Gadi Eisenkot e também por Naftali Bennet (antigo primeiro-ministro), Avigdor Lieberman e Yair Golan. As sondagens indicam que, juntos, estes quatro partidos da direita e centro-direita devem conquistar 53 lugares dos 120 no Knesset, o Parlamento israelita, mais dois deputados do que o bloco mais à direita liderado pelo Likud de Netanyahu.