(c) 2023 am|dev

(A) :: "Quando eles me viram, correram". Agricultora que ligou para a polícia conta como evitou ataque contra base aérea britânica

"Quando eles me viram, correram". Agricultora que ligou para a polícia conta como evitou ataque contra base aérea britânica

Tentativa de ataque com explosivos a base aérea britânica usada pelos EUA para atacar Irão foi frustrada por telefonema de agricultora local, que fala em "pura sorte" por ter avistado as carrinhas.

João Francisco Gomes
text

Foi “pura sorte”. Ao chegar a casa, na aldeia de Whelford, no Reino Unido, por volta da uma da manhã da noite de sábado para domingo, a agricultora que alertou a polícia e evitou um ataque a uma base aérea usada pelos EUA deparou-se com um cenário suspeito. Numa entrevista à BBC, conta que viu um grupo de homens encapuzados e mascarados a rondar a zona, acompanhados de três grandes carrinhas brancas.

A agricultora ficou alarmada. Mesmo ali ao lado, fica a base aérea de Fairford, instalação militar britânica usada pela Força Aérea dos Estados Unidos — e que foi recentemente utilizada no contexto dos ataques contra o Irão. Os habitantes da região sabem-no bem: no verão deste ano, o Irão já tinha avisado que qualquer base usada para atacar o seu território se transformava num alvo militar legítimo.

“Quando eles me viram, correram, alguns para os campos e outros para uma aldeia vizinha”, contou a agricultora à BBC. “Percebi que algo de altamente invulgar estava a acontecer.”

https://observador.pt/2026/09/27/policia-britanica-evacua-casas-perto-de-base-aerea-usada-por-eua-suspeitos-detidos-por-crimes-com-explosivos/

Temendo estar a testemunhar algum ataque, a agricultora telefonou de imediato para o Ministério da Defesa do Reino Unido. Àquela hora da noite, num fim de semana, ninguém atendeu. Em alternativa, telefonou para o 999, o número de emergência britânico. “Em dez minutos, a aldeia estava cheia de polícia armada”, contou à BBC a mulher, que preferiu manter-se sob anonimato.

A situação precipitou-se rapidamente durante a madrugada de domingo: a aldeia foi evacuada, uma operação de larga escala foi montada na zona, a polícia encontrou explosivos nas carrinhas e cinco pessoas — todas elas de nacionalidade britânica e entre os 23 e os 25 anos de idade — foram detidas por suspeitas de estarem a levar a cabo um atentado contra a base aérea. O caso ganhou proporções internacionais, o primeiro-ministro britânico cancelou os planos de domingo para acompanhar a situação e o Presidente dos EUA, Donald Trump, elogiou as forças de segurança britânicas por terem impedido um atentado que tinha como objetivo “causar grandes danos” na base aérea, mas que já estava a ser investigado “há muito tempo”.

A realidade, contudo, parece desmentir Trump: foi a polícia local, e não os serviços de segurança nacionais, que acorreu inicialmente ao local, apenas depois do telefonema daquela agricultora.

“Penso que foi pura sorte eu ter chegado à aldeia por volta da mesma hora que as carrinhas”, disse a mulher à BBC. “Estou absolutamente perplexa por caber a um cidadão comum como eu ter de ver e denunciar aquilo. Acredito que o meu telefonema para o 999 frustrou quaisquer planos que eles tivessem.”

“Alguém baixou a guarda” no que toca à segurança da base aérea, acredita a mulher que denunciou o caso. “Temos de poder confiar que as autoridades vão tomar as medidas adequadas para monitorizar e gerir ameaças às comunidades que vivem e trabalham tão perto desta base.”

“Não devia ser preciso que alguém como eu alertasse a base aérea de Fairford sobre a presença de três grandes veículos suspeitos e de um grupo de homens mascarados”, acrescentou ainda, lamentando ter a perceção de que as autoridades estavam “hiperfocadas” na defesa da base aérea, ao passo que ignoravam a proteção da aldeia vizinha.

Ministro da Defesa agradeceu à agricultora

Já esta segunda-feira, o ministro da Defesa do Reino Unido, Wes Streeting, agradeceu à cidadã que alertou as autoridades. “Quero homenagear a cidadã pela sua vigilância, ela fez exatamente aquilo que esperamos que um cidadão faça na situação em que ela se encontrava”, disse Streeting à BBC, recusando avançar detalhes sobre a operação em curso.

Na mesma entrevista, Streeting foi questionado sobre possíveis ligações do Irão a este ataque, mas garantiu que o Governo divulgará informações sobre o caso “assim que possível”, pedindo “paciência” ao público enquanto a polícia e os serviços de informações “fazem o seu trabalho”.

A unidade de contraterrorismo da polícia britânica está, neste momento, a comandar a operação, que foi iniciada pela polícia local. De acordo com o The Guardian, as autoridades estão a investigar, entre outras possibilidades, a hipótese de o Irão ter estado por trás do ataque.

De acordo com a BBC, na manhã desta segunda-feira as carrinhas suspeitas continuavam no local onde foram encontradas, uma grande operação policial continuava a decorrer no local, mas a atividade na base aérea de Fairford não parou. Mais de 80 casas foram evacuadas e um perímetro de segurança foi estabelecido num raio de 400 metros das carrinhas.