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Fact Check. Carros à sombra produzem níveis excessivos de toxinas que causam cancro?

Publicações alegam que uma substância, denominada benzeno, é libertada para o interior dos veículos, o que pode causar cancro. Contudo, a evidência científica disponível contraria essa ideia.

Tiago Caeiro
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A frase

De acordo com estudo realizado, o ar refrescante, antes de sair frio, envia todo o ar do plástico quente, o qual liberta Benzeno, que causa cancro.

— Utilizador do Facebook, 11 de setembro de 2026

Várias publicações que começaram a circular nas redes sociais sugerem que, mesmo à sombra, os carros produzem uma substância cancerígena, denominada benzeno, que entra no habitáculo dos veículos quando os passageiros ligam o ar condicionado sem terem aberto primeiro as janelas. “Um carro estacionado à sombra, durante um dia, com as janelas fechadas, pode conter 400 a 800 mg de Benzeno”, lê-se numa das publicações, citando um estudo que terá recomendado aos passageiros que aguardem dois minutos com as janelas abertas antes de ligarem o ar condicionado.

“De acordo com estudo realizado, o ar refrescante, antes de sair frio, envia todo o ar do plástico quente, o qual liberta Benzeno, que causa cancro (leva-se algum tempo para se dar conta do odor do plástico quente no carro)”, sublinha a publicação, acrescentando: “Por favor, não ligue o ar condicionado ou simplesmente o ar, logo após entrar no carro. Deve primeiro abrir as janelas e só após cerca de 2 minutos poderá ligar o ar, mantendo as janelas abertas durante um pouco de tempo”.

O benzeno é uma substância química líquida, incolor e tóxica, segundo o National Cancer Institute (Instituto Nacional de Cancro dos EUA). É utilizado como solvente nas indústrias química e farmacêutica e na produção de combustíveis e materiais.

Todas as pessoas estão expostas diariamente a quantidades pequenas de benzeno. Uma das principais fontes de exposição é o fumo do tabaco e, em menor quantidade, os gases do tubo de escape dos automóveis, gases industriais e alguns produtos químicos (como colas ou tintas). A exposição a esta substância aumenta o risco de desenvolvimento de leucemia e outras doenças sanguíneas, de acordo com o National Cancer Institute, e pode afetar a medula óssea e a produção das células sanguíneas, levando ao desenvolvimento de quadros de anemia, por exemplo.

É verdade que o benzeno está presente em diversos tipos de materiais utilizados no interior dos carros, como plásticos, borrachas, tecidos e adesivos, que — quando expostos a elevadas temperaturas — podem, em teoria, libertar esta substância. Contudo, as concentrações de benzeno dentro dos automóveis são muito baixas em comparação com níveis considerados perigosos para a saúde humana, indicam vários estudos realizados nos últimos anos.

Um estudo realizado na Coreia do Sul em 2002 concluiu que, dentro de um carro, as pessoas têm uma maior exposição ao benzeno do que fora, mas as concentrações desta substância provêm do combustível utilizado, e não dos componentes internos, como o sistema de ar condicionado. Um outro estudo, de 2007, analisou os efeitos na saúde humana do ar condicionado de um carro novo e de outro com três anos de utilização, estacionados ao sol, e não detetou riscos na utilização do ar condicionado em nenhum dos dois.

Mais recentemente, em 2017, o professor de química Joseph Schwarcz, que trabalha na Universidade McGill, no Canadá, sublinhava, num artigo, que dentro de um carro a concentração de benzeno pode, de facto, atingir 560 mg por metro cúbico. Mas ressalvava que esse valor é, ainda assim, “100 vezes menor que a exposição mínima associada à leucemia”. “Basicamente, a suposta toxicidade do benzeno num carro não é um problema”, defendeu o especialista.

Conclusão

O interior dos automóveis contém materiais que podem libertar benzeno, uma substância química incolor e tóxica. Contudo, e de acordo com os especialistas, a exposição a que as pessoas podem estar sujeitas dentro dos veículos é muito inferior à exposição mínima necessária para causar cancro, nomeadamente leucemia. De acordo com os estudos disponíveis sobre o tema, não foi detetada qualquer relação entre o uso do ar condicionado e os níveis de benzeno, mesmo em carros estacionados ao sol.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.