A Academia Goncourt, que atribui o prémio Goncourt, anunciou esta sexta-feira que o romance do autor haitiano-canadiano Thelyson Orelien seria retirado da lista de nomeados ao mais importante prémio francês, depois de acusações de que o escritor teria usado inteligência artificial (IA) para o escrever. C’était ça ou mourir, de Thélyson Orélien, foi publicado em março pelas Éditions du Boréal, no Quebeque, no Canadá, e pelas Éditions Grasset, em França, no passado mês de agosto.
Foi uma decisão “motivada pela vontade de preservar a integridade do Prémio Goncourt e da própria Academia, cujo papel central é promover e distinguir a literatura escrita por mulheres e homens”, consta no comunicado da Academia, que espera que a decisão mostre que é totalmente contra a “criação de textos gerados com a ajuda da IA”, acrescentando que não fará mais comentários até 6 de outubro, aquando do anúncio da lista de finalistas ao galardão.
As suspeitas de utilização de inteligência artificial surgiram na segunda-feira, 21 de setembro, no mesmo dia em que o escritor recebeu o Prémio Fnac de melhor romance. Uma conta anónima na rede social X, designada “Balance ton Claude”, acusou o autor de ter escrito um romance “quase integralmente por inteligência artificial”, garantindo ter testado várias passagens do “manuscrito” e obtido “quase sempre o mesmo resultado: 100% IA”.
Segundo a mesma conta, a ferramenta norte-americana Pangram é “de longe o detetor de IA mais fiável”, com uma “taxa de falsos positivos de 0,0041%”. A conta, sabe-se agora, é na verdade um coletivo do qual faz parte o ensaísta e cronista do jornal Le Figaro, Samuel Fitoussi.
Logo na terça-feira, a editora Grasset (pertencente ao grupo Vivendi) desvalorizou os “rumores”. “Estamos no domínio das fake news. (…) Estas ferramentas supostamente capazes de reconhecer a IA são elas próprias IAs que inventam que a Bíblia foi escrita artificialmente”, declararam ao canal francês BFMTV. Mas nessa noite a editora acabaria por enviar um comunicado à imprensa com declarações do autor.
Thélyson Orélien explicava que as “repetições” que lhe eram apontadas como características de um texto gerado por IA decorrem de “uma tradição literária haitiana e caribenha”, com a sua própria poética. “Podemos discutir o meu estilo, mas transformar esses procedimentos em provas de inteligência artificial não tem nada a ver com a crítica literária”, afirmou.
“Sempre gostei da criação e da escrita, não vejo por que razão recorreria a uma máquina”, ripostou o autor, esta quarta-feira, no jornal francês Libération. Thélyson Orélien desmente categoricamente as acusações e diz estar “a constituir um dossiê”, juntamente com os seus editores, “para provar” que é o autor da obra. “Desde a minha chegada a França, sofri inúmeros ataques racistas, que não vêm de leitores, mas de pessoas exteriores que tentam fazer-me mal”, disse ainda ao diário francês.
Atribuído desde 1903, o Prémio Goncourt é o mais importante prémio literário em França. A Academia Goncourt, ou “Les Dix” como é frequentemente apelidada, é composta por dez escritores que todos os anos elegem o melhor romance em língua francesa. O prémio já distinguiu grandes nomes da literatura francesa, tais como Marcel Proust, Marguerite Duras, Simone de Beauvoir, Amin Maalouf ou Pierre Lemaitre. O valor pecuniário é simbólico (10 euros), mas a distinção pode representar milhões de exemplares vendidos e traduções para dezenas de línguas.
O facto de o júri original ser composto exclusivamente por homens foi fonte de muita controvérsia e, como resposta, surgiu, em 1904, o Prémio Femina, cujo júri é composto exclusivamente por mulheres.