Os agentes de Inteligência Artificial da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, acederam a informações dos sites da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos e dos Censos dos EUA durante atividades de investigação e treino. A informação é avançada pelo jornal norte-americano The New York Times, que explica como estes bots da OpenAI “agiram de forma descontrolada” e “interferiram” com os sites durante este verão, sem o conhecimento do próprio laboratório de IA.
Incidentes no Departamento do Comércio e na SEC foram confirmados pela OpenAI, que indicou estar a investigar o caso relativo ao Departamento da Educação. A empresa com sede em São Francisco revelou ter notificado as agências governamentais nas últimas semanas de que os seus “agentes” de IA — robôs capazes de atuar de forma autónoma — interagiram com os sites do Governo norte-americano.
No caso do Departamento da Educação, a tecnologia da OpenAI tentou piratear o site para recolher dados do gabinete de direitos civis da instituição, mas sem sucesso, revelam investigadores da empresa de investigação Transluce, citados pelo mesmo jornal. Conseguiu também extrair dados da página do Census Bureau (o gabinete de estatísticas dos EUA), integrado no Departamento do Comércio, recorrendo a credenciais de acesso encontradas na internet. Em paralelo, os agentes da OpenAI partilharam num fórum online dados públicos retirados do site da SEC.
A OpenAI garante que nenhum dos incidentes configurou uma intrusão ilícita com fuga de dados, classificando-os antes como exemplos de comportamentos inesperados e preocupantes da sua tecnologia. A empresa diz ter descoberto estes episódios recentemente, durante uma auditoria a intromissões levadas a cabo pelos seus sistemas, entre as quais um ataque ao site do governo australiano em junho e à start-up de IA Hugging Face em julho.
A revelação destes incidentes em sites governamentais norte-americanos junta-se a uma lista crescente de episódios em que agentes de IA da OpenAI, Anthropic, Meta e Google se descontrolaram e piratearam ou tentaram invadir empresas, universidades e organismos públicos. Em alguns casos, os ataques tiveram sucesso, noutros, a tecnologia falhou. Em todas as situações, os criadores dos sistemas só souberam das ações da IA a posteriori.
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Nenhuma empresa do setor esteve envolvida em tantos casos de descontrolo público como a OpenAI, recorda o NYT. Uma investigação interna ao ataque contra a Hugging Face revelou a intromissão no site do sistema público de saúde australiano, além de pelo menos outras seis tentativas de invasão e situações em que a IA ocultou erros, inventou dados e transferiu ficheiros para a internet sem autorização.
Em declarações citadas pelo The New York Times, um porta-voz da OpenAI afirmou que a auditoria em curso é “abrangente” e que a empresa continuará a notificar as organizações afetadas. “A maior parte da atividade analisada até agora envolveu tarefas de investigação de rotina, como aceder a conteúdos públicos na web para responder a perguntas”, justificou. “Algumas envolveram sites governamentais porque os nossos modelos recorrem frequentemente a eles como fontes de informação pública fidedignas.”
Sam Altman, fundador e líder da OpenAI, admitiu numa publicação na rede social X (antigo Twitter) que a empresa não foi “tão rápida quanto gostaria” a divulgar os incidentes. “Estamos a priorizar da melhor forma com base na gravidade”, afirmou, acrescentando que a intrusão na Hugging Face continua a ser “o evento mais grave” identificado.
Ao New York Times, a Casa Branca remeteu qualquer esclarecimento para o Departamento do Comércio e para a SEC. Um porta-voz da SEC confirmou estar em contacto com a OpenAI, assegurando não ter conhecimento de qualquer acesso não autorizado a informação confidencial. Por seu lado, o Departamento do Comércio esclareceu que a OpenAI acedeu apenas a dados públicos e acessíveis a qualquer cidadão no site do Census Bureau, descartando qualquer acesso a informações privadas. O Departamento da Educação indicou que as auditorias internas “não encontraram qualquer evidência de impacto no site ou nas bases de dados”. O gabinete do presidente da câmara de Chicago também confirmou ter sido notificado pela OpenAI de que a tecnologia da empresa obteve informação pública de um site municipal, descartando o acesso a dados sensíveis.