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(A) :: Quando o ruído vale mais do que a obra

Quando o ruído vale mais do que a obra

Questionem-se os 175 mil euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de Cascais.

Sandra Damas
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Há uma dificuldade cada vez maior em encontrar seriedade naquilo que se publica, comenta e partilha. Não necessariamente porque os factos sejam falsos, mas porque, demasiadas vezes, são apresentados pela metade — e uma verdade pela metade pode ser uma extraordinária ferramenta de manipulação.

Curiosamente, entre tudo o que poderia ser notícia, foram os 175 mil euros associados à inauguração da nova Escola Secundária de Cascais que conquistaram títulos, indignação e partilhas. Afinal, é sempre mais simples fazer manchete com um número isolado do que perder tempo com esse incómodo chamado contexto.

E o contexto, aparentemente menos interessante, é este: mais de 32 milhões de euros de investimento, com cofinanciamento do PRR; o fim de 50 anos de uma escola provisória; e um novo equipamento com capacidade para 1.320 alunos.

Mas, entre 32 milhões, 50 anos e 1.320 alunos, o número verdadeiramente irresistível para alguns foi mesmo o dos 175 mil euros.

O PRR exige, para investimentos desta dimensão, uma comunicação com relevante impacto mediático. E, nisso, convenhamos, o objetivo foi largamente cumprido — talvez até para lá das expectativas. Só há um pequeno detalhe: esse impacto deveria dar visibilidade ao investimento e à escola. Mas conseguiu-se algo bastante mais criativo: 32 milhões transformaram-se em 175 mil, uma escola transformou-se numa festa e 1.320 alunos praticamente desapareceram da notícia.

Impacto mediático? Missão cumprida.

O escrutínio do dinheiro público não está em causa — é indispensável, sobretudo na Capital Europeia da Democracia. Seria, aliás, uma contradição curiosa defender o contrário. O problema começa quando escrutinar deixa de significar esclarecer e passa a significar escolher números, retirar-lhes o contexto e esperar que as letras gordas façam o resto. Fiscalizar é democracia; transformar informação em conveniência política é apenas ruído disfarçado de escrutínio.

É legítimo questionar custos, prioridades e opções. Aliás, é desejável. Mas questionar exige de quem pergunta a mesma seriedade que se exige de quem responde. Reduzir dois momentos de comunicação associados a um investimento desta dimensão à expressão “175 mil euros gastos numa festa” é escolher o que se conta, o que se omite e, sobretudo, aquilo que se espera que o leitor não tenha tempo — ou vontade — de ir descobrir.

Por isso, talvez a pergunta seja muito simples: qual deveria ser, afinal, a notícia?

Que Cascais concretizou um investimento superior a 32 milhões de euros e pôs fim a 50 anos de uma escola provisória? Ou que, na inauguração dessa escola, havia um DJ, ecrãs e uma passadeira?

Realmente, escolhas difíceis.

A crítica política é legítima e a oposição é indispensável à democracia. Nenhuma delas deveria dispensar seriedade, contexto ou bom senso — embora, pelos vistos, estes três tenham menos capacidade de gerar cliques.

Porque havia uma alternativa: não aproveitar o financiamento, não construir a escola e deixar mais uma geração estudar numa solução “provisória” há meio século.

Provavelmente, daria menos títulos.

Questionem-se os 175 mil euros, naturalmente. Mas reconheça-se também a dimensão do investimento, a capacidade de concretização e, sobretudo, aquilo que ficou para os alunos de Cascais.

E custa acreditar que quem se apresenta como culto, informado e conhecedor da realidade pública não consiga reconhecer a importância deste feito. Talvez fosse mais útil desejar que esta capacidade de investimento e este compromisso com a educação se multiplicassem pelo país, para que melhores condições de ensino deixassem de ser notícia e passassem, simplesmente, a ser a regra.

Porque, retirado todo o ruído político, é apenas disto que estamos a falar: de uma escola, de educação e de dignidade.

Mas admito: “dignidade”, “educação” e “sucesso” são palavras terrivelmente pouco convenientes quando há 175 mil euros para pôr no título – e uns cliques para obter.