Ao longo da História europeia, de tempos a tempos, surge um desejo de Oriente nas mentes e nos corações cristãos. Japonaiserie ou uma inspiração do Islão, um ar de budismo ou uma inspiração hindu, os sonhos de experimentar outras civilizações e frequentar outros templos levam os ocidentais a visitar turisticamente ou sobrenaturalmente diversos países asiáticos.
Desta feita deu-se o contrário. Um grupo hindu, do templo Bochasanwasi Akshar Purushottam Swaminarayan Sanstha (BAPS), decidiu visitar Paris, nomeadamente a famosa Torre Eiffel. Aparentemente, este facto seria corriqueiro, pois não faltarão outros grupos de outros templos que terão feito semelhante. Esse símbolo parisiense é visitado inúmeras vezes por todas as raças e credos, por gente de todos os continentes. A acreditar nos números fornecidos pelas entidades oficiais, que asseguram que é dos monumentos pagos mais procurados do mundo, chegam anualmente cerca de 6,3 milhões de visitantes. Este grupo em particular reclamou um requisito para poder fazer a visita: a ascensão à vista panorâmica da cidade-luz não podia ser interrompida pelo aparecimento de qualquer membro do sexo feminino. Por outras palavras, as mulheres, seres menstruais, deveriam ser afastadas, substituídas ou tornadas invisíveis aos olhos destes religiosos.
Não procuro identificar nem analisar os motivos para tal demanda sui generis. O mais interessante, parece-me, é a razão que levou as entidades competentes da Torre Eiffel a aceitá-la. Deve entender-se o comunicado oficial no sentido expresso de que o conjunto não interagisse de todo com mulheres, trabalhadoras ou visitantes. Assim, Algumas (trabalhadoras) foram instadas a abandonar os respetivos postos e a recolher‑se noutras zonas. Nalguns postos foram substituídas por homens. E todas as trabalhadoras receberam instruções para não passar por certas áreas enquanto a delegação estivesse presente. Segundo a Euro News, no site do monumento, no dia 31 de agosto, estava anunciado que o mesmo estaria encerrado devido a circunstâncias excecionais.
Apesar da indignação de um par de vozes vindas da política francesa, entre as quais a do maire da cidade, a verdade é que houve uma preocupação e um cuidado especiais para satisfazer a exigência do grupo do BAPS. No meio do velho continente, num dos seus maiores marcos, existiu alguém ou uma entidade que, à revelia dos valores seculares e religiosos autóctones, proibiu as mulheres de serem vistas por visitantes estrangeiros (termo usado, pleno de indignação, pelo presidente da Assembleia Nacional). Não deixa de ser curioso que foi precisamente em nome de valores seculares e religiosos, no caso, hindus, que o pedido terá sido feito.
Os responsáveis do templo não podem ser culpabilizados por fazerem esta solicitação. Perguntar, não ofende, dizem. Já a empresa concessionária que gere o monumento, Société d’Exploitation de la Tour Eiffel, deve ser chamada à atenção. Quais os motivos que levaram a esta conduta, a este consentimento? Temos de ir às profundezas. Algo que seria ofensivo em qualquer outra civilização, isto é, estranhos pedirem uma alteração e um aviltamento das suas crenças, cultura e valores é não só respeitado e considerado tolerável, como cedido sem fazer perguntas. A empresa optou por ofender as próprias trabalhadoras em vez de negar um requerimento que claramente violava os princípios por que nós nos regemos enquanto sociedade. Desqualificou todas as mulheres, colocando-as numa posição subalterna e humilhando-as. Esta imposição woke, este multiculturalismo doentio é um sinal da nossa época, uma expressão inequívoca da crise dos valores ocidentais – no caso, na pátria da Revolução Francesa. O receio de serem conotados com a extrema-direita, de serem acusados de neocolonialismo por uma parte da esquerda e pela extrema-esquerda leva a este tipo de conduta.
O movimento espiritual acabou por apresentar as suas desculpas: por qualquer dor ou incómodo causado. Não alivia a situação. Não modifica o estado atual de crise generalizada no Ocidente, esta culpa autoinfligida em nome de uma visão distorcida e politicamente orientada da História. Esta preocupação e vontade de não fragilizar ninguém – a não ser os próprios.