
A frase
Sandra Felgueiras acusou o Banco de Portugal e o Millennium BCP de esconderem uma forma de gerar rendimentos que permite às pessoas comuns aumentar os seus ganhos financeiros.
— Utilizador de Facebook, 30 de maio de 2026
A discussão centrava-se nas dificuldades financeiras das famílias portuguesas “enquanto os bancos apresentam lucros históricos”. Num alegado painel televisivo na SIC, moderado pelo jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho, estariam opostos o CEO do Millennium BCP e a jornalista Sandra Felgueiras. Esta discussão em direto — que terá sido alegadamente cortada e editada pelo canal televisivo — foi descrita ao pormenor por utilizadores nas redes sociais, que mostram a jornalista da TVI a confrontar o economista Luís Mira Amaral.
O ex-ministro de Cavaco Silva — que é, erradamente, retratado como o diretor executivo daquele banco —, segundo a transcrição apresentada nas publicações, acusou Sandra Felgueiras de “marketing irresponsável”, após a jornalista de investigação ter contestado que o “crédito continua a ser uma ferramenta importante para o crescimento económico”. No seguimento desta intervenção, a jornalista terá acusado Mira Amaral e o setor bancário “tradicional” de “perder o controlo”, defendendo que surgiram alternativas: um “algoritmo que aproveita automaticamente as flutuações do mercado”.

De seguida — no momento em que Sandra Felgueiras alegadamente promovia um “sistema que funciona automaticamente” e supera “tudo o que os depósitos bancários e as contas poupança conseguem oferecer” —, Luís Mira Amaral teria arrancado o microfone e abandonado a emissão em direto dizendo: “Não vou tolerar isto”.
Após uma breve consulta dos arquivos televisivos da SIC, e da programação do dia em que as publicações alegam ter acontecido dita discussão (30 de maio), é possível concluir que não existe qualquer registo deste debate entre Mira Amaral e Sandra Felgueiras. O caso é, aliás, mencionado numa peça publicada pelo mesmo órgão de comunicação social em julho deste ano, advertindo para um esquema de fraude. “Estas publicações que usurpam imagem e grafismo da SIC são burlas”, lê-se no título da notícia.
No exemplo utilizado pela SIC, a publicação citada refere que Sandra Felgueiras foi “detida por dizer a verdade”. A “verdade”, neste caso, seria a promoção de uma plataforma de investimento online, que promete retornos financeiros extraordinários que, à semelhança do post analisado pelo Observador, é censurada pelos “bancos tradicionais”. Trata-se de plataformas cujo modus operandi de marketing passa por utilizar imagens geradas por inteligência artificial de figuras públicas, jornalistas ou outras personalidades relevantes para atrair pessoas mais vulneráveis a introduzirem os seus dados pessoais e financeiros nestas plataformas.
Na altura, a jornalista Sandra Felgueiras recorreu ao Instagram para denunciar a utilização da sua imagem na promoção destes esquemas. “Se não fosse muito grave, não viria aqui. Mas chega! Há um ano que vários criminosos usam abusivamente a minha imagem para os mais diversos fins. Até bitcoins andaram a vender usando a minha imagem e voz com recurso à inteligência artificial. Aos autores, aviso que já apresentei queixa à Polícia Judiciária. Aos possíveis leitores que vejam e acreditem, deixo o alerta: não sou eu!”, escreveu.
https://observador.pt/factchecks/fact-check-dirigente-do-santander-abandona-estudio-de-televisao-furioso-apos-debate-sobre-creditos-e-inflacao/
Este tipo de conteúdos não é, de facto, novo. O Observador tem vindo a publicar fact checks sobre posts que falam de supostas entrevistas que teriam sido interrompidas no momento em que o entrevistado começa a mencionar a informação crítica — a existência de plataformas de investimento altamente lucrativas que os bancos tradicionais estariam a tentar esconder dos portugueses.
Conclusão
Não há registos de qualquer painel televisivo da SIC que tenha colocado a jornalista Sandra Felgueiras frente ao antigo ministro Luís Mira Amaral, a discutir os custos de vida dos portugueses. Trata-se, como já denunciado pela própria jornalista de investigação da TVI, de uma campanha de promoção de um esquema financeiro, que utilizou a imagem de Mira Amaral e de Sandra Felgueiras com recurso a inteligência artificial. A jornalista apresentou queixa na Polícia Judiciária e desmentiu o ocorrido em sede própria.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.