(c) 2023 am|dev

(A) :: Chega dividido sobre absorver ou afastar Reconquista: discurso extremista assusta, mas há quem desvalorize

Chega dividido sobre absorver ou afastar Reconquista: discurso extremista assusta, mas há quem desvalorize

Afonso Gonçalves diz que há "muitos elementos" da Reconquista e acusa partido de "cobardia política" devido à posição sobre remigração. No partido, o crescimento do movimento divide opiniões.

Inês André Figueiredo
text

A presença cada vez mais forte de elementos ligados ao grupo de extrema-direita Reconquista no Chega motiva diferentes reações nos mais altos dirigentes do partido. Se há quem desvalorize, também há quem prefira que estejam no partido para não haver perdas eleitorais e quem os queira o mais longe possível exatamente pelos mesmos motivos. Dentro da cúpula existem visões contraditórias, mas uma certeza: há jovens mais radicais do que o líder a serem promovidos e a ganhar poder nas mais diversas estruturas.

O Chega sempre teve de lidar com ligações a grupos extremistas — desde afinidades a pessoas do grupo 1143 até à mais recente aproximação de simpatizantes da Reconquista — e estas são questões que não deixam ninguém indiferente no partido. Ainda assim, apesar de o fenómeno já ter mais tempo, as eleições distritais do partido expuseram uma nova realidade e há preocupações acrescidas ao mais alto nível.

Entre os dirigentes do Chega ouvidos pelo Observador são traçados cenários bastante distintos. Há quem assuma que “mais vale tê-los dentro do partido do que haver um partido mais à direita”. A teoria assemelha-se à ambição, entretanto destruída, de Paulo Portas, que durante anos repetiu: “À direita do CDS, só há uma parede.” Essa parede ruiu exatamente com o Chega e, agora, nos corredores do partido liderado por André Ventura discute-se sobre se essa não seria a melhor opção.

Neste caso, o Chega continuaria a navegar entre o discurso mais radical da Assembleia da República e as tentativas de demonstrar que é um partido com pretensões de chegar ao poder e capaz de governar — à imagem do que fez Giorgia Meloni em Itália, que surgiu com um discurso bem mais agressivo do que aquele que a acabou por levar a primeira-ministra.

Tendo em conta que a grande bandeira do movimento Reconquista é a imigração, com publicações constantes a apelar à remigração, há dirigentes nacionais do Chega a teorizarem sobre a possibilidade de o partido perder votos para esta extrema-direita. “A radicalização na imigração facilmente se converteria numa coisa positiva para a Reconquista, já que há sempre uma franja do extremismo que acha o André Ventura demasiado brando e que poderia votar num Afonso Gonçalves”, explica um alto dirigente do Chega, acrescentando que, neste momento, há um “eleitorado racista e xenófobo que acredita que votar no Chega é um mal menor, mas preferia votar num movimento mais radical”.

“Resta saber qual é a franja do eleitorado consolidado do Chega que tem esse tipo de ideais”, alerta um responsável, com outro a assumir que o partido “devia ter uma base de apoio o mais alargada possível”, mas preocupado que a proximidade da Reconquista possa mesmo “tornar-se um ativo tóxico”. Ainda que vários deputados descredibilizem o projeto, argumentando que “não há nenhum receio eleitoral” e que existe apenas “bluff”, a Reconquista expõe preocupações.

Outra das hipóteses ponderadas no Chega tem a ver com a hipótese de o movimento liderado por Afonso Gonçalves chegar a partido político. O estudo encomendado pela Reconquista, inicialmente divulgado no Expresso e que já está no depósito da ERC, concluiu que o partido conseguiria 5,2% de intenções de voto direto e que esse resultado seria conquistado principalmente à custa do Chega.

Na bancada parlamentar, há deputados e dirigentes que acreditam que seria “mais proveitoso” que a Reconquista “entrasse” na discussão política mais afincadamente, nomeadamente com a possibilidade de se sentar na Assembleia da República, porque “o Chega deixaria finalmente de ser o radical”.

O argumento é o seguinte: há muito que Ventura procura mostrar que o Chega é um partido capaz de governar e que espera “uma oportunidade”, mas o radicalismo está-lhe colado à pele, desde o primeiro dia, em determinados temas — o que é ainda mais notório por ser o partido mais à direita do Parlamento. Assim, se a Reconquista chegasse à Assembleia da República levaria um discurso “muito mais radical” que “permitiria mostrar ao Chega um lado mais moderado e governável”.

Ainda que esta opção seja considerada viável, também há avisos de que o Chega poderia ter dificuldade em lidar com a situação: existe o risco de se “perder o norte”. “Se o Chega perder o radicalismo que o caracteriza pode não ser capaz de se distinguir de PS e PSD e essa é a razão do crescimento dos últimos anos. Há pessoas no Chega que fariam oposição aos extremismos da Reconquista e isso pode transformar-se numa armadilha”, equaciona-se no núcleo duro.

“Há madrinhas que valem por muito”

O assunto é discutido nos corredores do Chega e as preocupações multiplicam-se, mas em público nota-se uma necessidade de desvalorizar. Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, Cristina Rodrigues, questionada sobre se há lugar no partido para discursos mais radicais como o da Reconquista, garantiu que “no Chega não existe a censura que existe nos outros” partidos e “as pessoas têm a liberdade de pensar, de fazer parte dos movimentos que entenderem”.

Para a vice-presidente do Conselho de Jurisdição, o que está em causa é apenas o “cumprimento” do regulamento disciplinar e dos estatutos do partido — se isso não estiver em causa, “o Chega não vai andar a expulsar pessoas por causa de coisas que elas pensam ou não pensam”.

Cristina Rodrigues, que foi ganhando muito protagonismo dentro do Chega nos últimos anos, foi das primeiras a dar nas vistas relativamente a este tema, nomeadamente nas eleições distritais. Tal como o Observador escreveu aqui, na noite em que Luís Couraceiro derrotou o deputado Rui Afonso, no Porto, o vice-presidente Pedro Pinto Faria publicou uma foto com a deputada do Chega e uma mensagem: “Há madrinhas que valem por muito.”

Pedro Pinto Faria é conselheiro nacional do Chega, próximo do movimento de extrema-direita Reconquista e já discursou em Cimeiras da Remigração — em causa está a teoria de que deve existir uma “deportação imediata de todos os imigrantes ilegais” — onde admitiu estar a representar o Chega. Nessa publicação também assegurou que há um grupo de pessoas que tem “trabalhado para colocar esta agenda no centro do debate dentro do nosso partido”.

No mesmo sentido, também Francisco Araújo, assessor do Chega na Assembleia da República e um dos novos dirigentes locais do Porto, já discursou em eventos do grupo Reconquista e tem fotografias partilhadas com Afonso Gonçalves.

Na mesma entrevista ao Observador, Cristina Rodrigues realçou que, no conhecimento da própria, “o Pedro Faria não faz parte da Reconquista”, defendendo que ser “próximo é uma coisa que é muito relativa”. E realçou que, “no que diz respeito à remigração, é algo que o próprio partido também defende” — tal como o jovem dirigente já tinha sublinhado.

Já no programa Às Avessas, da SIC Notícias, Teresa Nogueira Pinto, ministra da Cultura do Governo Sombra do Chega, admitiu que, olhando para a Europa, “é capaz de haver mais espaço” para este tipo de movimentos porque “há um aumento da procura à direita”. Além de se ter mostrado “impressionada”, assumiu que a Reconquista iria “competir com o Chega”.

Reconquista confirma: “Há muitos elementos no Chega”

Na visão de Afonso Gonçalves, líder da Reconquista, há uma “questão natural, fruto de uma similitude ideológica“, entre o Chega e o movimento, frisando que “muitas pessoas chegaram ao Chega passando primeiro, tanto ideológica como politicamente, pela Reconquista, como o processo inverso também”. Mais do que isso, confirma que há “muitos elementos da Reconquista integram o Chega”.

Questionado pelo Observador, Afonso Gonçalves refere que há “bastantes pessoas” entre dirigentes e contratados pelo Chega que “são próximas da Reconquista e que apoiam a Reconquista”, argumentando que existe “liberdade e pluralidade” dentro do movimento e do partido que possibilitam isso mesmo.

Apesar de nunca ter sentido que o Chega tentou afastar-se da Reconquista, o líder do movimento acusa o partido liderado por André Ventura de “cobardia política” em vários dossiês, por considerar que “são incoerentes com o posicionamento de uma força política que quer reestruturar a forma como se faz política no país”. “O Chega não esteve presente no Remigratiom Summit. Enquanto a AfD, o Vox, a administração Trump e eurodeputados estiveram presentes, o Chega decidiu ignorar um evento fundamental na defesa da remigração a nível europeu, o que foi sintomático de que nos momentos que contam, o Chega irá ter o mesmo comportamento dos outros partidos do sistema seja por cobardia política seja por posicionamento ideológico ao centro”, justifica.

Porém, aos olhos de Afonso Gonçalves, “o Chega tem pegado em vários temas, ideias e propostas da Reconquista na sequência do trabalho de ativismo da Reconquista”, considerando que isso mostra que “o Chega se identifica com a Reconquista”.

Sobre a ponderação de transformar o movimento em partido político, o líder do Reconquista destaca que existe “falta de esperança”, “dificuldades sociais e económicas” e que não há “nenhum partido político a propor, em 2026, com 2 milhões de imigrantes em Portugal, a remigração”. E Afonso Gonçalves coloca este assunto no topo das prioridades, desvalorizando as “consequências políticas” que o Chega poderia ter com a entrada do movimento no Parlamento, caso se tornasse um partido.

“Isto está descontrolado”

O tema é de tal forma “complexo” que entre dirigentes não há certezas absolutas sobre o que seria mais benéfico ou problemático para o Chega, mas há um conjunto de dirigentes e deputados alinhados numa ideia: “Isto está descontrolado e as eleições distritais foram só um sinal.”

A somar a isso, considera-se que “posturas como a de Cristina Rodrigues” — cujo apoio foi público devido à referência de “madrinha” — servem para “dar fogo” a elementos do Reconquista e permitem que vão ganhando poder dentro do partido, como aconteceu com Francisco Araújo, que já chegou a assessor no Parlamento.

E, mais do que isso, começam a fazer-se contas ao próximo Congresso do Chega, que se realiza em novembro. Nas discussões internas aposta-se nas intenções de levar a cabo uma proposta que mude a forma de eleição da liderança da Juventude Chega — que neste momento é feita por nomeação direta de André Ventura, que continua a renovar a confiança em Rita Matias.

Um dos nomes que surge como possível candidato, caso houvesse eleições para esse órgão interno, é o de Ricardo Reis, o deputado do Chega que ultimamente tem sido promovido com longas horas de comentário e debate em televisões e até a sentar-se na primeira fila da bancada parlamentar do partido. Ainda no debate sobre o custo de vida teve lugar ao lado de Jorge Galveias, Cristina Rodrigues, Pedro Pinto e André Ventura.

O Chega, que cresceu exponencialmente nos últimos anos, continua a ter de lidar com dores de crescimento. E Ventura tem sido confrontado com situações que se tornam rapidamente gigantes e difíceis de controlar e gerir. O aumento de poder da Reconquista é uma delas. Agora, espera-se que no Congresso do Chega haja “amostras” de que estas pessoas “estão cá dentro e em força”.