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150 mil euros roubados, o ex-namorado do traficante sob suspeita e a noite no motel: PJ investigou rapto e descobriu rede de tráfico

Um traficante é roubado por homens de cara tapada. Algemam-no e levam 150 mil euros do cofre. Ex-namorado que conheceu no Grindr torna-se principal suspeito e encomenda o seu rapto. Acabaram com TIR.

Mariana Furtado
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Miguel Feraso Cabral
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Na manhã seguinte a ter sido raptado por três homens — um deles com um crachá de polícia ao peito —, o homem regressa a casa pelo próprio pé. Quando chega à porta, depara-se com uma equipa de inspetores da equipa de prevenção da Polícia Judiciária (PJ). Tinham sido chamados para investigar o rapto, na sequência de um alerta recebido quase 24 horas antes. E, agora, a vítima do crime que se preparavam para começar a investigar está ali, à frente deles. Naquele momento, os inspetores estavam longe de imaginar que a denúncia de um rapto levaria à descoberta de uma rede de tráfico de droga espalhada por vários pontos do país.

Desde as 14h do dia anterior que ninguém sabia dele, mas a investigação viria a apurar que o homem raptado passou a noite num motel da Margem Sul na companhia da namorada do mentor do seu rapto e, ainda, de outro homem. Antes, tinha sido levado para a casa do traficante de droga que encomendou o seu rapto. Sentado num sofá, foi agredido e ameaçado com uma faca durante “várias horas” por um grupo contratado para lhe extrair a verdade: tinha orquestrado um assalto violento à casa de um traficante de droga e roubado cerca de 150 mil euros de um cofre? E não era um traficante desconhecido. O mentor do rapto — ao mesmo tempo vítima do assalto — era o seu antigo patrão. Tinham-se conhecido no Grindr e mantiveram uma “relação íntima”.

“Rodízio” foi o nome dado pela PJ a esta operação, que durou quase dois anos. “’Rodízio’ porque isto é uma mixórdia. Estas pessoas dedicam-se a toda uma mixórdia de temáticas criminais. Tudo o que possa ser crime ligado à noite, ao tráfico de droga e ao banditismo”, explica fonte conhecedora do caso. O Observador conta-lhe a história “rocambolesca” de “traições” e “muita droga” em três momentos: o assalto violento a casa de um traficante, o rapto do seu ex-namorado, em dezembro de 2024, e os meses de vigilâncias até ao dia em que 50 inspetores participaram em buscas em 10 casas — algumas delas casas de recuo com “compartimentos secretos”.

Entraram "disfarçados", com a "cara tapada" e com armas. Algemaram todos os que se encontravam em casa do traficante brasileiro, na Graça. "Espalharam o terror na casa", explica ao Observador fonte conhecedora do processo

Os quatro suspeitos do rapto acabaram detidos na passada terça-feira, antes que o mandante do rapto conseguisse fugir. Doente e sob os cuidados da mãe que o vinha visitar a Portugal, o traficante já tinha comprado um bilhete só de ida para regressar a casa, no Brasil. Presentes a juiz, ficaram todos sujeitos à mais leve medida de coação: Termo de Identidade e Residência.

Do assalto “violento” em casa do traficante ao rapto encomendado à “máfia da noite”

Entraram “disfarçados”, de “cara tapada” e com armas. Algemaram todos os que se encontravam em casa do traficante brasileiro, na zona da Graça, na zona histórica de Lisboa. “Espalharam o terror na casa”, explica ao Observador fonte conhecedora do processo. O principal alvo da violência foi o traficante — e por uma razão simples: era ele quem sabia o código do cofre onde estavam guardados cerca de 150 mil euros em dinheiro.

Além dos milhares de euros em notas, os três homens atrás das máscaras levaram ainda droga. Mas “obviamente que tudo isto não foi participado à polícia”, conta a mesma fonte: “Isto só se saberá depois do rapto.”

Há um nome que ocorre imediatamente ao traficante, depois do assalto “violento” que deixou a sua casa “destruída”. E é o nome de alguém de quem, até pouco tempo antes, tinha sido bastante próximo: o seu ex-namorado que conhecera no Grindr (uma aplicação de encontros gay). Depois de se conhecerem, desenvolveram uma “relação próxima e de intimidade”. Não tardou até que o traficante o recrutasse para trabalhar para ele na distribuição de droga.

Ameaçam-no, pegam nele e atiram-no para dentro do carro. Mas há alguém dentro da casa que assiste a tudo e que, assim que os homens saírem dali, vai à esquadra da polícia mais próxima contar tudo

Estavam separados há pouco tempo, mas dias antes do assalto o traficante sabia que tinha sido o ex-companheiro a levar-lhe uma pequena bolsa da Prada da sua própria casa. Sabia-o porque tinha câmaras de vigilância em casa e uma delas captou o momento. “Ligou-lhe, deu-lhe uma reprimenda e a vítima foi devolver-lhe a bolsa a casa. Pediu-lhe muitas desculpas”, refere a fonte.

Depois desse pequeno furto, o ex-namorado do traficante tornara-se o principal suspeito de ter planeado o assalto ao traficante, que começa a fazer contactos. O primeiro foi para o companheiro de uma mulher que, no momento em que a casa é assaltada, se encontrava por ali. Seria ele o organizador da operação que pretendia identificar o autor do assalto e, acima de tudo, recuperar os 150 mil euros. Para isso, são recrutados dois portugueses, “mais batidos” na vida do crime e com cadastro, para serem os executores do rapto encomendado. “Malta conhecida no meio do banditismo, ligada à máfia da noite. Pede-lhes para irem buscar um gajo que o roubou.” Devido à relação entre o traficante roubado e o principal suspeito, aquela não seria, à partida, uma operação complicada. “Eles sabiam de tudo, onde morava, com quem e onde o podiam encontrar.”

O mentor do rapto dá boleia aos dois portugueses no seu Tesla com o vidro do passageiro partido. Seguem diretos para Oeiras: local da casa onde sabiam que vivia o ex-namorado do traficante. Batem à porta pelas 14h. Um deles empunhava uma arma, outro levava um crachá de polícia “martelado” — ao estilo dos usados por detetives em séries norte-americanas. “O crachá foi usado para lhe causar mais pânico. Era para dar aquela ideia: tenho um amigo polícia que até faz aqui uns trabalhos…”.

Ameaçam-no, pegam nele e atiram-no para dentro do carro. Mas há alguém dentro da casa que assiste a tudo e que, assim que os homens abandonam o local, vai à esquadra da polícia mais próxima contar tudo.

A PJ iria assistir a toda a cena meses mais tarde. As câmaras de videovigilância da casa, que serviram para o traficante descobrir quem lhe tinha levado a bolsa Prada, nunca tinham sido desligadas. Nem as imagens foram mais tarde apagadas. "O desgraçado negou, negou, negou até à última"

“Estava cheio de medo”: o interrogatório gravado do “gajo errado”

Enquanto a testemunha do rapto conta o que acabara de ver à PSP, o Tesla dirige-se à Graça — morada do traficante assaltado. O ex-namorado, acabado de ser raptado, é “metido numa sala” e cercado por quatro homens. Durante várias horas, é agredido e ameaçado com uma faca. “Cheio de medo”, permanece o tempo todo “sentado no sofá”. “Não foi sequer preciso algemá-lo nem prendê-lo, porque estavam lá quatro homens a participar”, explica a fonte próxima do processo.

A PJ iria assistir a toda a cena meses mais tarde. As câmaras de videovigilância da casa, que serviram para o traficante descobrir quem lhe tinha levado a bolsa Prada, nunca tinham sido desligadas. Nem as imagens foram mais tarde apagadas. “O desgraçado negou, negou, negou até à última.”

Com o passar das horas, e sem a confissão esperada, o grupo começou a perceber que o homem aterrorizado não era “o gajo certo”. Decidiram parar as agressões e levá-lo para um motel na Margem Sul para “descansar e relaxar um pouco”.

Mais estranho: o homem que acabara de ser raptado "não quer colaborar". "O testemunho foi muito vago, muito disperso. Disse apenas que o tinham ido buscar e falou no crachá da polícia

“Os três passam a noite no motel, juntos o tempo todo. Mas, a partir daí, já só podemos especular: se lhe estiveram a dar droga de borla, se fizeram uma orgia… Estamos a falar de pessoas que estão sempre a consumir, sempre em altas, com relações sexuais altamente promíscuas. É ‘bar aberto'”, sublinha a fonte ao Observador. A vítima do rapto nunca irá contar aos inspetores o que se passou dentro do quarto do motel para onde foi levado a seguir às agressões, e do qual apenas sairá ao final da manhã do dia seguinte.

Nesse dia, já não serão os dois raptores portugueses a acompanhá-lo de volta a casa, mas sim a namorada do mentor do rapto e um sócio do traficante.

Pelas 12h, o homem é deixado em casa — no exato momento em que a equipa da PJ ali chegava. Os inspetores ainda o veem aparecer acompanhado. “Ele não estava a ser empurrado pelos outros, parecia que já estava tudo bem”, descreve a fonte que refere ainda que a vítima não tinha ferimentos visíveis. Algo “estranho” para alguém que tinha sido raptado.

Mais estranho: o homem que acabara de ser raptado “não quer colaborar”. “O testemunho foi muito vago, muito disperso. Disse apenas que o tinham ido buscar e falou no crachá da polícia. Depois estivemos muito tempo para tentar perceber efetivamente o que é que se passou e identificar as pessoas. Dele, foi tudo tirado a ferros. Por isso é que a investigação demorou este tempo.”

Apesar dos "descontrolos" nas "relações pessoais" entre estas pessoas, o negócio do tráfico de droga corria de forma organizada. “Ele [traficante] tinha várias pessoas a distribuir, ainda que variassem muito. E vendia de tudo: sintéticas, líquidas, comprimidos, coca... Tinha até uma tabela de preços que enviava pelo Whats'app, sacos [para transportar a droga] com logotipo e autocolantes"

Entre esconderijos à “Indiana Jones” e “facadas nas costas”: o “novelo” que a PJ teve de desenrolar

Ao longo dos meses seguintes, os inspetores da PJ vigiaram os suspeitos para “tentar perceber quais eram as relações entre eles e identificar os locais que frequentavam”. Se, por um lado, percebem rapidamente que “há pessoas que apareceram só para o rapto” — “neste caso, os portugueses” que depois “foram à sua vida” —, entre o núcleo mais próximo do traficante “era tudo facadas nas costas uns dos outros”. Mesmo entre pessoas “muito amigas, que até já tinham tido relações íntimas”.

É o caso do sócio. Sem “um papel direto na organização do rapto”, estava envolvido em “toda a parte relacionada com o tráfico”. Apesar de se ter tornado camionista no último mês, tinha o plano de “alargar o seu âmbito de atuação” e roubar o negócio ao parceiro. Chegou, por exemplo, a “pedir uma segunda via do cartão de telefone que o sócio [traficante] tinha cancelado”, para que pudesse “ficar a gerir as comunicações da casa”.

Apesar dos “descontrolos” nas “relações pessoais” entre estes elementos da rede, o negócio do tráfico de droga corria de forma organizada. “Ele [traficante] tinha várias pessoas a distribuir, ainda que variassem muito. E vendia de tudo: sintéticas, líquidas, comprimidos, coca… Tinha até uma tabela de preços que enviava pelo WhatsApp, sacos [para transportar a droga] com logotipo e autocolantes”. A PJ também descobriu que a rede de tráfico tinha vários locais que usava para esconder o produto e armas. As chamadas “casas de recuo” estavam espalhadas pelo distrito de Lisboa — na Graça, na Ajuda, Príncipe Real, Odivelas e Massamá — e havia ainda um ponto mais afastado, na zona do Alto Minho.

Quando a PJ finalmente conseguiu entrar na casa de um dos executores portugueses, deparou-se com "compartimentos secretos" que escondiam armas. "Coisas à Indiana Jones: eram os azulejos que se viravam e depois de dentro saía um revólver. Outro era um mecanismo idêntico, mas com chave e uma fechadura na parede"

Mas foi na casa deste sócio, na Graça, que a PJ apreendeu a maior parte do material ligado ao tráfico: “Produtos estupefacientes, coletes balísticos e centenas de munições” de 9 milímetros — o calibre das forças de segurança. Acabaria por ser detido com a colaboração da GNR na fronteira com Espanha.

Rastrear os portugueses revelou-se um pesadelo à parte para a investigação. A vigilância de rua, as escutas e a rede de informação foram essenciais num processo onde “foi preciso um trabalho de formiga para tentar desenrolar o novelo” em que os suspeitos estavam “sempre a mudar de casa, de telefone e de cartões”. Quando a PJ finalmente conseguiu entrar na casa de um dos executores portugueses, deparou-se com “compartimentos secretos” que escondiam armas. “Coisas à Indiana Jones: eram os azulejos que se viravam e depois de dentro saía um revólver. Outro era um mecanismo idêntico, mas com chave e uma fechadura na parede.”

“Na parte final [da investigação], o difícil era mesmo tentar identificar onde é que todos eles estavam”, explica fonte próxima do processo. Um dos executores do rapto tinha passado uma temporada fora do país e o organizador nem sequer tinha paradeiro fixo: “A casa dele ora era o carro, ora ficava na casa de um amigo, ora num Airbnb. E sempre a mudar de telefone, portanto, não foi fácil.”

"Desconfia-se que estas pessoas são todas seropositivas e uma ou duas até tem tuberculose. A saúde não abunda por ali e portanto, se calhar, acho que era a maneira da mãe de tentar fazer o filho sobreviver mais uns anos", considera a fonte conhecedora do processo

Mas, nos últimos tempos, a degradação física do traficante fez acelerar toda a operação: “Perdeu muito peso nos últimos meses. A mãe dele até veio cá [a Portugal] e disse-lhe para voltar para o Brasil — também porque ele está envolvido num outro processo como testemunha. Ela queria tirá-lo daqui e levá-lo para casa para cuidar dele.”

A doença do traficante não era caso isolado num grupo com uma série de relações pessoais e íntimas cruzadas entre os vários elementos. Numa das buscas ao organizador do rapto, os inspetores da PJ sobem a casa momentos depois de uma orgia. “Desconfia-se de que estas pessoas são todas seropositivas e uma ou duas até têm tuberculose. A saúde não abunda por ali e, portanto, se calhar, era a maneira de a mãe tentar fazer o filho sobreviver mais uns anos”, considera a fonte conhecedora do processo.

A confirmação de que o traficante já tinha um voo reservado para o Brasil, no dia 23 de setembro, e que já não voltaria a Portugal acabou por precipitar as detenções desta semana. “O traficante, no dia 23, fez uma publicação nas redes sociais a dizer: ‘Mega desapego. O meu armário vai circular e minha casa também’. Ou seja, era para as pessoas irem lá comprar tudo o que tinha.”