(c) 2023 am|dev

(A) :: O dia em que Brad Pitt cortou o trânsito no País Basco

O dia em que Brad Pitt cortou o trânsito no País Basco

O motivo foi “Heart of the Beast — Heróis Inseparáveis”, de David Ayer, filme que também se estreou esta semana em Portugal. À imprensa, Pitt falou do filme, do cão e do estado atual do cinema.

Francisco Ferreira
text

Na noite de quarta-feira, não foi possível passar em frente ao Kursaal em San Sebastián. A circulação à volta do centro de congressos foi cortada pela polícia. Estava a chegar Brad Pitt, produtor e intérprete de Heart of The Beast — Heróis Inseparáveis, de David Ayer, que chegou hoje às salas portuguesas. Brad Pitt contracena com um pastor alemão perneta que tem pesadelos e dentes de titânio, pois perdeu os verdadeiros em combate. Homem e animal (chamam-se James e Odín), traumatizados pela guerra (mostrada a conta-gotas em flashbacks), tornaram-se inseparáveis desde que serviram as Forças Especiais americanas. Estamos num Alasca montanhoso e verdejante que David Ayer garantiu ser tal e qual como a Nova Zelândia em que o filme foi rodado.

https://www.youtube.com/watch?v=9b8nU3QT908

As letras garrafais do título do filme que abriram o genérico em castelhano nos ecrãs de San Sebastián – En el corazón de la bestia – levam a pensar que a “bestia” é porventura a Natureza contra a qual as personagens se vão bater, num “filme de sobrevivência” que se quer convincente e realista. Infelizmente, Heart of The Beast é o oposto disso desde que a avioneta de James se despenha num lago: o filme está mais interessado em provar que a personagem de Pitt é uma espécie de Rambo sempre-em-pé e que, embora acompanhado de cão, tem mais vidas que um gato, chegando a disparatada inverosimilhança a um ponto extremo quando os heróis têm que fazer face a um urso e lutar com lobos desenhados por computador em CGI. Afinal, estará a “bestia” do título a dirigir-se à audiência? David Ayer já fez bem melhor.

Heart of The Beast é tão indigente na sua patética exaltação militarista cruzada com sentimentalismo animal colado a cuspo que não vale sequer uma estrela. Caramba: é que nem o cão é bom actor! É coisa rara para um pastor alemão. O deste filme nada “aprendeu” com os gloriosos Rin Tin Tin da sua raça. É de uma emotividade açucarada, com um ostensivo “faz-me festas”, como se já não bastasse a prótese que o bicho tem no lugar da pata.

Pouco importado com o “stress pós-traumático” da personagem, Pitt lá foi cantando e rindo enquanto apresentava o filme e falava de um “trabalho de amor” com paixão canina. Antes, na conferência de imprensa, falara da “comovente experiência de trabalhar com Uber”, assim se chama na vida real o intérprete de quatro patas.

“Tentámos que cada dia fosse um dia diferente de brincadeira para ele. Às vezes, fazia coisas espantosas que não estavam no guião e que se vêem no filme: as suas expressões, os seus grandes planos… Quando as abelhas zumbiam (…), o Uber encontrava mil coisas muito mais interessantes do que aquilo que estava no guião e que guardámos na montagem.” Pelo menos, improvisava.

Pitt também elogiou o streaming e o “cinema independente”, que “está mais forte hoje do que nos anos 90”: “Houve mudanças enormes e transformações radicais na indústria. O streaming trouxe muito mais oportunidades para actores, argumentistas, realizadores e equipas técnicas. E, graças a isso, temos visto uma maior variedade de histórias e talentos realmente interessantes. Depois da Covid, as pessoas voltaram ao cinema e os filmes de grande orçamento recuperaram as grandes receitas. Tanto as grandes produções como os filmes independentes de baixo orçamento conseguiram avançar. Mas isso não aconteceu com as produções de orçamento médio, que têm tido dificuldades. Confio que a redução dos custos de pós-produção a que estamos a assistir agora nos ajude nesta nova etapa, porque é neste segmento intermédio que eu quero estar.”

O autor escreve segundo a antiga ortografia