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(A) :: E se os nossos segredos dessem as melhores piadas? Nas noites Secret Stuff, os mistérios privados servem gargalhadas públicas

E se os nossos segredos dessem as melhores piadas? Nas noites Secret Stuff, os mistérios privados servem gargalhadas públicas

Nas sessões Secret Stuff faz-se comédia intriguista. É stand-up "com um twist" em que as confidências do público são matéria-prima para risadas, mais ou menos confrangedoras.

Mariana Carvalho
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Inês Lacerda
photography

“É a vossa primeira vez?”, pergunta uma assistente de sala, enquanto estende dois retângulos de papel e canetas a um par de senhoras que entra no Teatro da Comuna, em Lisboa. Elas confirmam que sim, são espectadoras do Secret Stuff pela primeira vez e ouvem atentamente como funciona esta noite de comédia, onde a vida confidencial do público adquire um papel central: devem escrever um segredo na folha, dobrá-lo e depositá-lo numa urna pousada no balcão do bar, uns metros adiante. Dentro de minutos, essas confidências serão transformadas em piadas.

Para quem tem um catálogo extenso de segredos, ou, pelo contrário, um passado livre de arrependimentos, umas quantas mesas com cadeiras à volta oferecem um espaço de reflexão bastante decente, apesar de uma noite de fim de setembro bastante quente. As janelas da sala estão escancaradas, mas o ar estagnado não dá tréguas — cortinados de veludo vermelho repousam imperturbados, sem o vestígio de uma brisa, enquanto uma bola de espelhos preguiçosa resiste a rodar sobre o próprio eixo. De quando em quando, ouve-se o zumbido de um avião em trajetória de aterragem, sobre o burburinho do público que vai chegando e tomando as cadeiras da sala.

Papel a papel, a urna transparente fica forrada de segredos, que, em breve, serão tornados públicos — pior do que isso, vão ser alvo de chacota nas mãos dos comediantes em palco.

A agência Tuff organiza as sessões de comédia Secret Stuff desde março de 2025 — primeiro aconteciam no Bar Ferroviário, perto de Santa Apolónia; desde maio estão no Comuna Teatro da Pesquisa. Pedro Sousa é a cara do evento, mestre de cerimónias (MC) e o único comediante residente, já que o restante alinhamento é secreto e apenas revelado ao longo do espectáculo. A ideia de enriquecer uma noite clássica de stand-up com os segredos do público surgiu durante um “almoço de brainstorming” entre João Moura de Paiva, fundador da Tuff, e o humorista, que agencia desde 2018. “Era uma coisa que não havia em Portugal”, recorda João, “foi por isso que adicionámos esse twist“.

Entretanto, já lá vão 25 edições de espectáculo (a contar com esta), uma mão-cheia de segredos insólitos e interações caricatas com o público. Em conversa com os humoristas convidados, que se refrescam nos bastidores, Pedro Sousa recorda as confidências que mais o surpreenderam no decurso do projeto.

“Na última sessão, houve um rapaz que voltou da Alemanha para Portugal e não disse nada à família durante vários meses.” O segredo em questão foi votado o melhor da noite pelo público, o redator acusou-se e a recompensa veio atrás: recebeu uma entrada gratuita para o próximo evento e uma rodada de minis por conta da casa.

“O mais comum são histórias familiares“, continua o humorista, que já escreveu para o programa da RTP, 5 Para a Meia-noite, e fundou o grupo cómico Roda Bota Fora — “e, por acaso, hoje temos uma família gigante” no público. João Moura de Paiva acrescenta que, apesar da diversidade de espectadores, a faixa etária mais comum está “na casa dos 20/30” anos.

Na parede dos camarins, um saco de papel rasgado (a asa denuncia a sua função original) mostra uma lista de seis nomes escritos em letras atabalhoadas a caneta de feltro. Além do MC, Miguel Sousa, André Pinheiro, João Pinto, Tiago Almeida e Joana Miranda compõem o alinhamento da noite.

A sessão de 23 de setembro do Secret Stuff, de regresso após dois meses de férias, conta com novas adições, numa tentativa de levar mais longe o formato já original das noites de comédia. Além dos segredos escritos em pedaços de papel, agora é possível deixar uma confissão gravada, com recurso a uma tecnologia com aspeto francamente anacrónico: um telefone de disco vermelho berrante, cujo auscultador capta e armazena as confidências daqueles que o usam. Para tal, basta encostar o recetor à cara, esperar pelo sinal e soltar a língua.

As gravações em causa devem enriquecer a presença online do projeto, que vai estrear um novo talk show protagonizado por Pedro Sousa, nas redes sociais. Os segredos do público servem de matéria-prima para novas piadas, interação com os fãs de comédia e divulgação dos eventos, que acontecem quinzenalmente em Lisboa e uma vez por mês no Porto, no Estúdio Latino do Teatro Sá da Bandeira. Afinal, o meio digital é indispensável à atividade dos comediantes — através dele, alcançam novos públicos e monetizam o conteúdo humorístico, sobretudo por via da publicidade.

Pedro Sousa recorda um antigo patrocinador do Secret Stuff com particular carinho: os clássicos rebuçados para a tosse Dr. Bayard, que atirava aos espectadores presentes na sala durante a parceria com a marca. “Uma vez acertei com um rebuçado no dente de uma pessoa do público. Ninguém se magoou, mas ouvi aquele clique quando lhe bateu” na dentadura, lembra, entre risos.

A rir se dizem as verdades?

Uma voz grossa e distorcida inunda a sala quase cheia. “Os vossos segredos serão recolhidos em breve”, anuncia, enquanto o elemento da equipa da Tuff que acolheu os espectadores sonda o público para identificar segredos em falta. Nas mãos da jovem, a urna atravessa o espaço que separa os dois corredores de cadeiras metálicas, como uma caixa de esmolas que circula entre os bancos da igreja. Mas se a segunda pressupõe uma atitude alinhada com os princípios cristãos, a caixa da Secret Stuff esconde a intenção daqueles que preferem rir dos seus pecados a obter o perdão divino.

As luzes baixam e a voz arrastada volta a atacar, em antecipação do mestre de cerimónias, Pedro Sousa, que sobe a palco cheio de ânimo, com a caixa de segredos debaixo do braço e um microfone vermelho na mão. “Estão 45 graus, hein?”, comenta, enquanto observa as senhoras de abanico em riste. “Estás de leque?”, pergunta, sem poupar quem no público se tenta refrescar com as ferramentas que tem ao dispor, sejam elas as próprias mãos ou pedaços de papel encontrados no fundo da mala.

Há uma ventoinha em cima do palco só para ele, explica, mas que abnegadamente virou para um casal na primeira fila. O público reage timidamente às investidas do humorista, enquanto ele explora a caixa de Pandora que entretanto pousou numa mesa preta.

“Já me fizeram uma declaração de amor no Preço Certo“, lê o comediante, empenhado em descobrir a origem da confissão. “Por palmas, quem aqui tem mais de 50 anos?” O público aplaude acanhado, mas o redator continua anónimo. “Já contracenei num videoclipe com um egípcio careca” ou “Quando era criança tinha um hiperfoco no Jerónimo de Sousa” são outros exemplos que se seguem e com os quais o mestre de cerimónias brinca até encontrar uma nota encriptada entre aquelas que foram depositadas na urna. Com a ajuda de uma espectadora tenta decifrar a caligrafia incompreensível do bilhete, sem grande sucesso.

As próximas confidências vão além dos limites impostos pelo politicamente correto e inspiram gargalhadas mais unânimes, como costuma acontecer quando as piadas envolvem sexo e escatologia. Apesar disso, a audiência custa a quebrar ou talvez os risos se dissipem através das janelas abertas. Entretanto, Pedro Sousa vai esvaziando a caixa, apesar da frase que repete vezes sem conta: “Tenho de me ir embora, tenho mesmo de me ir embora.”

Miguel Sousa é o primeiro convidado a tomar o palco a seguir ao mestre de cerimónias. O humorista, que organiza as noites do Desatino Stand-up Comedy, na capital, assume o mesmo espírito confessional daqueles que assistem. “Não bebo álcool há dois anos”, admite, atirando logo a seguir a punch-line de que o álcool estava a interferir com o seu consumo de droga. Se no início não é levado a sério, depressa Miguel esclarece que há um fundo de verdade na história — evidência disso é um episódio que mistura brownies mágicos e o filme para crianças da Patrulha Pata. O desfecho é previsivelmente embaraçoso, a audiência ri.

Pelo meio, Miguel lê uns quantos segredos do público, entre risos e interações com os espectadores, mas o pasmo é generalizado quando revela confissões socialmente pouco ortodoxas, ainda que não sejam tão incomuns quanto isso, de acordo com o veterano do Secret Stuff, Pedro Sousa, que em 25 edições de espectáculo admite já se ter cruzado com múltiplos bilhetes que remetem para relações questionáveis, por exemplo (se são ou não verdadeiras, essa é outra questão). No campo dos comportamentos desviantes, também se repetem as pessoas que confessam pequenos furtos, “Roubei isto, roubei aquilo” são alegações frequentes, segundo o mestre de cerimónias.

Se algumas confissões são mais íntimas do que outras, e chegam mesmo a ser escandalosas, reina um clima de pouca seriedade — não fosse este um espectáculo de comédia. O conteúdo de alguns bilhetes pode ser preocupante quando retirado deste contexto muito particular, mas recebe um tratamento pouco inquisitivo em palco, aliado à sensação dominante de que, se calhar, aquilo que vem escrito foi inventado para apelar às emoções. No Secret Stuff não há como saber se a rir se dizem as verdades, mas certo é que dá para gozar, com boa disposição, com os aspetos mais baixos da experiência humana, sejam eles artificiais ou não.

André Pinheiro entrou na sala a gritar e tenta contagiar o público com a mesma energia, enquanto reflete sobre despedidas de solteiro. O conceito do Secret Stuff vai além da comédia de improviso e crowd work inspirado nos segredos — também pretende, como qualquer noite de stand-up comedy, oferecer espaço a humoristas que querem pôr à prova texto cómico já escrito.

A semanas de começar a primeira digressão a solo, o comediante que se popularizou como side-kick de Pedro Teixeira da Mota no videocast watch.tm, aproveita os dez minutos de que dispõe para alinhavar e polir o seu repertório de piadas. O espectáculo de André Pinheiro, Mono, estreia-se em Braga no próximo dia 2 de outubro, com passagem pelo Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e o Cinema São Jorge, em Lisboa — sendo que 12 das 15 datas disponíveis já estão esgotadas.

João Pinto vem logo a seguir, um veterano da comédia que também se destaca no comentariado futebolístico: além de humorista e professor de stand-up, o benfiquista é uma voz recorrente na Rádio Observador em dias de jogo.

“Até aos 20 anos, achava que bacalhau era uma raia, não sabia que era peixe” é o primeiro segredo que lhe calha na rifa — e a piada está feita. “Eu não sabia até agora que raia não era peixe”, avança João, com a postura vagamente atrevida e impertinente que, entretanto, percebemos, lhe é característica. Não hesita em corrigir a ortografia dos redatores (“Abaixo escreve-se junto, não é ‘a baixo'”) e carrega nos trocadilhos, que lhe surgem naturalmente e surpreendem quem ouve. “Isto vai dar raia”, diz a um espectador, “ainda te vou dar um bacalhau não tarda”.

https://observador.pt/programas/comissao-de-inquerito/joao-pinto-futebol-e-um-tema-tabu-no-humor/

Tiago Almeida tem uma abordagem diferente e protagoniza um dos momentos mais memoráveis da noite quando põe em cena uma interação que teve no balcão da Fnac. Com carantonhas e vozes exageradas imita uma funcionária da loja, tomando partido de um estereótipo reconhecível: a trabalhadora impertinente, que testa a paciência dos clientes com burocracia desnecessária.

O humorista juntou-se à equipa da LiveMode TV, canal de transmissão de jogos que acompanhou a seleção nacional de futebol no último Campeonato Mundial. A plataforma de streaming privilegia uma abordagem focada no entretenimento e mobilizou humoristas e outras figuras públicas, que entrevistaram a equipa portuguesa e fizeram a cobertura do evento internacional, além do relato e comentário dos jogos. Destaca-se o episódio em que Tiago e Luana do Bem entrevistaram o capitão da equipa e principal acionista da LiveMode, Cristiano Ronaldo, que respondeu com a frase tornada viral, “Sentido de humor. Gosto”, quando o par de comediantes lhe pediu um aumento de salário.

Cristiano é justamente o ponto de partida de Joana Miranda, a última a tomar o palco. Inspirada pelo comediante que a antecedeu no microfone, a humorista reflete sobre o caráter quase robótico do desportista português e ainda sobre a própria mãe, que toma o partido do futebolista sob qualquer circunstância.

Daí, o monólogo de stand-up centra-se na experiência de Joana com amigos homens e nas gravações que lhe enviam de ruídos escatológicos (com auto-tune à mistura). O set termina com a divulgação do segredo “Roubei a ciganos” e a punch-line instantânea, seguida de uma explosão de risos que desafia o politicamente correto: “Isto é economia circular!”

A surpresa da noite chega no fim, quando Pedro Sousa regressa para as despedidas e reconhece uma cara no público: o jovem emigrado na Alemanha que voltou a Portugal sem avisar a família — e cujo segredo foi votado o melhor da última sessão do Secret Stuff, em julho. “Posso contar o teu segredo?”, recebe uma resposta afirmativa e é assim que o público conhece a derradeira confidência da noite.

Enquanto o mestre de cerimónias se despede, a caixa transparente repousa em cima da mesa, entre papéis desdobrados, confissões tornadas livres apesar do anonimato e que troçam dos segredos por desvendar que permanecem no seu interior. Talvez vejam a luz do dia, por força da produção de conteúdo — explorada no talk-show por estrear protagonizado por Pedro Sousa.

Daí a três semanas, haverá novas confidências e comediantes novos em cima do palco. O Secret Stuff regressa ao Teatro da Comuna, em Lisboa, dia 15 de outubro, depois de uma passagem pelo Sá da Bandeira, no Porto, sexta-feira, 25 de setembro.