Passam quase seis anos desde que publiquei o meu primeiro artigo neste jornal. Então, a 31 de Janeiro de 2021, na ressaca das eleições presidenciais, lamentava o estado da direita em Portugal, a “triste direita a que temos direito, a tal que a esquerda adora e que não nos serve de nada”, culpando, em larga medida, a presidência de Rui Rio, no PSD, e o manifesto das “linhas vermelhas” assinado, entre outros, por Adolfo Mesquita Nunes e Carlos Guimarães Pinto, a dupla que então representava o fulgor e a esperança da modernidade liberal da segunda década do Século XXI. Acabando ambos de formar, em parceria apesar de militarem em partidos distintos, o think tank Mais Liberdade, por aqueles dias em que escrevia, Mesquita Nunes atirava-se de cabeça a Rodrigues dos Santos para intentar roubar a liderança do CDS, que não conseguiu, e Guimarães Pinto corporizava o farol ideológico da IL, papel onde, a seu tempo, acabou substituído pelo agora-candidato-a-tudo, Cotrim de Figueiredo. No entanto, nos finais de 20 e inícios de 21, muita gente ainda imaginava que o futuro da direita passaria por aqueles dois.
Não passou, e estou convencido que o meu artigo de então, com antecedência, explicou bem porquê. Nele, argumentava duas ou três ideias, aparentemente polémicas ao seu tempo, mas manifestamente lógicas, simples e pertinentes vistas agora à luz do tempo. Desde logo, apontava como o célebre manifesto das linhas vermelhas publicado menos de 2 meses antes — de seu nome “A clareza que defendemos”, um título curioso na medida em que era tudo menos claro e não se percebia bem o que defendia — decretava, do alto de um pedestal de virtude, que conversas com “fenómenos iliberais” eram inadmissíveis em nome da “defesa da ordem liberal”. Considerando esse dedo indicador no ar, moralista, pejado de soberba, armados em pseudo-guardiães dos bons costumes democráticos — no fundo apenas revelando uma incoerente recusa do pluralismo, a verdadeira base da dita ordem liberal que pretendiam defender —, por todas essas razões apodei, então, o grupo de “Conselheiros Acácios” e o seu manifesto de “Manifesto Acácio”.
Tudo no Manifesto Acácio era despropositado. A altivez, a sobranceria, a arrogância, é certo, mas também a estratégia que, ao excluir Ventura, o colocava na posição privilegiada de ser o único que poderia, com verdade empírica do seu lado, a partir daí, verdadeiramente, reclamar o papel de real “oposição” ao sistema, um “sistema” que o vendo como ameaça se tinha unido todo contra ele. Em boa verdade, só não viu isto quem foi ao engano do que significava o manifesto Acácio, ou então, estando demasiado cego pela sua própria imaginada importância, se recusou a escutar e prestar atenção àquilo que de mais importante existe em democracia — o eleitorado. Em 21, este confirmou as sondagens e, sem grande surpresa, foram já 12% dos portugueses eleitores que votaram em Ventura nas eleições presidenciais, um número maior do que comunistas, bloquistas e liberais juntos.
Nem aí, no entanto, os nossos Conselheiros Acácio do regime arrepiaram caminho. Pelo contrário, afirmaram progressivamente mais a sua posição ao ponto de, quase a chicote, a cavalo de uma comunicação social que, alinhada à esquerda, visando beneficiar o PS, queria garantir que a direita se dividia (Maquiavel explica), acabar a forçar Montenegro ao famoso “não é não”. Não foi, portanto, de borla, ou apenas por méritos próprios, que Ventura se alçou à posição de alternativa de governo que ocupa hoje. Não, esse papel foi-lhe oferecido de bandeja por aqueles que se imaginando actores principais abdicaram do debate, da discussão política e de rebater as ideias, propostas e posições — tal como anseios, vontades e percepções — que Ventura trazia com ele para o debate público e político. Optando pela posição do “não falamos com esse arrivista barulhento que não é digno de nós” — o que implicitamente significava dizer que também não eram dignos todos aqueles que concordavam com muito do que Ventura dizia — aquilo que os Conselheiros Acácios agarrados às linhas encarnadas verdadeiramente conseguiram foi chutar todo esse eleitorado, e mais algum, direitinho para as mãos de André Ventura.
E foi assim que aconteceu. A cada vez que alguém se farta, zanga, exaspera, com a inépcia e o estado de desgraça social, económica e política em que o país vive, lá está Ventura de braços abertos, prontinho para os receber todos — sejam eles social-democratas, liberais, conservadores, socialistas, comunistas, libertários, activistas, jovens e velhos, ricos e pobres, citadinos e rurais, tal como, claro está, liberais e “iliberais”. Parafraseando Herman José, fantástico Mike, perdão, fantástico Acácios.
Depois, tudo o resto encaixava quase como que por magia na receita para fazer de Ventura aquilo que é hoje. Desde logo, e principal factor, apontei como responsável do vazio político que Ventura vinha ocupar o PSD de Rio que, acantonado no centro, sem qualquer ideia para o país, vilipendiava “a direita”, dizia-se ainda mais de esquerda do que o PS, cantava loas à “verdadeira social-democracia” e exortava os malandros liberais e conservadores que persistiram em militar no PSD (como eu) a irem militar (e votar) para outras bandas — e a maior parte destes foram. Do CDS e da desgraça de Rodrigues dos Santos não vale sequer a pena falar, trataram de cavar literalmente a sua própria sepultura política, talvez o melhor resumo do estado da arte da direita de então foi dado pela IL, a casa do progressismo liberal português, onde, pela boca de Guimarães Pinto, se assumia publicamente — sem vergonha! — preferir um governo do PS a um eventual executivo de direita coligado com Ventura.
Sinceramente, estavam à espera do quê? Em que planeta vivia toda aquela gente? Que outro cenário, além de reforçar o Chega e entregar o poder de bandeja ao PS, é que se poderia esperar? E, de facto, assim foi. Em breve, o CDS sairia do Parlamento, Rio iria à vida dele deixando um PSD escavacado e o Governo nas mãos de uma maioria absoluta do PS, que só viria a largar o poder quando Costa, por conveniência pessoal, desistiu de o manter. No final, nos escombros das estratégias de todas essas luminárias, a seu tempo, comprovou-se a tese que as linhas vermelhas, fora das bolhas do Twitter e das conversas da “inteligência” democrática e liberal indígena, não convenciam absolutamente ninguém. Pelo contrário, foi profundamente desiludida com tudo, irritada com um unanimismo político do centro, bem como a subserviência deste a uma esquerda bafienta, démodé, que predomina nos órgãos de comunicação social, forçada a escolher entre as promessas de mudança de Ventura e o vazio político auto-congrulatório, pseudo-virtuoso, irritantemente moralista, do centro-direita acaciano, que uma crescente maioria, popular, anónima, reiteradamente, escolheu o primeiro: de 12% nas presidenciais de 2021, para 7% em legislativas em 2022, 18% em 2024 e mais de 22% em 2025. Quelle surprise!
Por estes dias, passados os tais quase 6 anos, não mudou grande coisa, salvo a posição cada vez mais relevante que Ventura ocupa no tabuleiro político. O Governo, agora da AD, continua sem entusiasmar ninguém, nem sequer à direita, ocupando-se o primeiro-ministro a navegar à vista, com olho nas próximas eleições que se imaginam a curto-prazo. De caminho, tal qual Costa, Montenegro aposta em ser o “referencial de estabilidade” (apesar de se ter deitado ao chão para causar eleições em 25), numa governação sem grandes rupturas e sempre preocupada em apontar o dedo ao papão do qual se arroga a proteger os portugueses: primeiro, Ventura que vinha destruir a democracia, depois, Passos e a recauchutada “austeridade”, mais recentemente, Sócrates e a ainda mais anciã “bancarrota”. Aquilo que Montenegro não faz é afirmar-se pela positiva, pelo caminho que propõe para o país (não há nada além de prometer ser mais competente que os adversários), ou pelas grandes melhorias que se adivinham a curto prazo. No vazio, o país suspira e desespera, não sendo, portanto, de admirar as sondagens que dão a AD já em 3.º lugar.
Face a 2020-21, aquando do meu primeiro artigo, não mudou, portanto, grande coisa no que concerne o impasse político que então se sentia. Em 21, sabia-se, por exemplo, que o PS nunca reformaria o país, nunca reformaria o Estado, nunca reformaria a Segurança Social, tal como nunca afrontaria interesses instalados dos quais, pressurosamente, sempre foi um fiel intérprete. Hoje, que o PS lidera sondagens, continua a saber-se exactamente a mesma coisa. Em 21, sabia-se, também, que Rio e Marcelo apenas apanhavam as canas da festa socialista, não apresentando qualquer entrave à governação socialista. Rio, porque nada mais almejava além de pactos com o PS para reformas estruturais que nunca o PS quereria fazer; Marcelo porque sempre preferiu cavalgar a popularidade de Costa do que arriscar-se a ficar mal-visto pela população que abraçava e osculava compulsivamente. Hoje, sabem-se coisas parecidas. Montenegro, que poderia tentar fazer, não faz grande coisa e Seguro, o novel presidente, faz poses de estado — uma vantagem face a Marcelo — apregoando o valor máximo da estabilidade. Ora, a estabilidade, sabemos nós, é o impasse, pelo que já se percebeu o que a casa gasta.
Já a novidade, Ventura, não só não tem a menor hipótese de neste actual cenário chegar ao Governo — no limite, mesmo ganhando eleições, em nome da democracia, dos valores, da lengalenga do costume, quer o PS de Carneiro, quer o PSD de Montenegro, jamais permitirão que Ventura seja primeiro-ministro —, como, mais grave, é manifestamente incapaz de apresentar um vislumbre de um programa que, primeiro, não represente uma falência quase certa do país e, depois, tenha a coragem de dizer aos eleitores exactamente ao que vem. Não diz, ou pior ainda, uma vez que diz uma coisa hoje e o seu contrário mais tarde, suspeita-se que ele próprio não sabe, ficando o eleitor da direita entalado entre o diabo que já conhece, e despreza, e o diabo que não conhece, mas que tudo promete com a leveza de um vendedor e a credibilidade de um cartomante.
Com estes intervenientes, portanto, o impasse é garantido, pelo menos até que PS ou PSD mudem de liderança, ou, do outro lado, que Ventura, sozinho, consiga uma maioria absoluta, ou, pior, PS e PSD decidam, como em 83, ressuscitar o Bloco Central para, apesar de a prazo entregar o poder a Ventura, a curto prazo salvar os interesses e posições políticas dos dirigentes dos dois partidos. Nenhum destes cenários, no entanto, se adivinha a curto prazo. Do lado do PSD, Montenegro, sendo primeiro-ministro, jamais sairá da liderança antes que perca eleições, tal como não se imagina que aceite ser n.º2 tendo sido n.º1. Por outro lado, o PS lidera sondagens, pelo que ser n.º2 para quem ambiciona a curto prazo ser n.º1 também não lhe interessa. Aliás, seja Carneiro, seja Centeno (apre!), ou ainda Medina, aconteça o que acontecer, nenhum candidato a candidato do PS entusiasma qualquer ser vivo para além dos militantes do próprio PS — e mesmo aí nem todos. Já Ventura, apesar de ir subindo, olhando os resultados da segunda volta das eleições presidenciais de 26 onde, sem oposição à direita, contra um candidato do PS, conseguiu apenas 33%, continua muito longe de um cenário onde disputando o eleitorado à direita com a AD consiga chegar sequer perto dos 40%, quanto mais de uma maioria absoluta.
A tendência, portanto, será a de as coisas ficarem como estão, até que, isolados em primeiro e segundo, PS e Chega decidam ser tempo de destronar Montenegro. Aí, se forem bem-sucedidos, a direita, terá, como teve em 22, oportunidade de mudar de vida. Como vai sendo penosamente óbvio para cada vez mais pessoas, apenas uma pessoa teria a capacidade para, em o querendo, vencer a corrida à sucessão de Montenegro e apresentar um caminho ambicioso para Portugal que seja capaz de federar a maior parte da direita num projecto credível, palpável, sério para o país — falo de Passos Coelho, como é evidente.