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(A) :: Pacífico a arder. De um lado, um megafuracão com ventos de 300 km/h assusta o México; do outro, um tufão com 300 mm de chuva inunda o Japão

Pacífico a arder. De um lado, um megafuracão com ventos de 300 km/h assusta o México; do outro, um tufão com 300 mm de chuva inunda o Japão

O furacão Polo chegou à categoria 5 quase de um dia para o outro. Como ganhou força tão depressa junto ao México, com ventos de 300 km/h. E o tufão Dujuan, que causou chuvas de 300 mm no Japão?

Filomena Martins
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Ao meio-dia desta segunda-feira, o Polo transformou-se num furacão de categoria 1. Ultrapassara a linha dos 119 km/h e os ventos aproximavam-se dos 130 km/h. Menos de 24 horas depois, na manhã de terça, sofreu uma intensificação brutal e extremamente rápida. Ao largo da costa mexicana do Pacífico já era um monstro de categoria 5, com ventos superiores a 250 km/h. Nessa tarde, esses ventos acabariam por chegar aos 287 km/h.

O Polo pode entrar para a história dos furacões que mais rapidamente ganharam intensidade. Passou de tempestade tropical, com ventos de 65 km/h, a um furacão de categoria 5, com ventos de 250 km/h, em apenas 33 horas. Os ventos aumentaram cerca de 167 km/h apenas num dia. A intensificação foi tão rápida que o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC) a descreveu como “verdadeiramente extraordinária”.

Há mais um dado que pode tornar o Polo histórico. A pressão no centro do furacão caiu até cerca de 892 hectopascais, um valor muito raro e excecionalmente baixo. E quanto mais baixa é a pressão atmosférica no centro de um furacão (ou de uma tempestade) em relação ao que o rodeia, maior a sua intensidade. Como o Polo está no Pacífico — desloca-se lentamente, a 3 km/h, junto à costa mexicana (Acapulco, Zihuatanejo, Guerrero e Michoacán) — e a pressão normal ao nível do mar é de cerca de 1013 hectopascais, há uma diferença enorme em relação à pressão do seu centro: 12% inferior. É isso que causa a sua enorme intensidade.

Mas pressão baixa não significa automaticamente ventos fortes. O que os produz é a rapidez com que a pressão varia entre o centro e o que rodeia o furacão. A receita para a velocidade desta intensificação foram as águas extremamente aquecidas do Pacífico, por influência do El Niño, a muita humidade na atmosfera e os ventos favoráveis em altitude — sem wind shear, que os coloca a soprar em direções contrárias e impede a organização de uma tempestade intensa. O Polo conseguiu assim organizar muito rapidamente as tempestades em torno do centro, com ventos muito fortes numa área relativamente pequena.

O Polo reúne, assim, três características para se tornar um furacão histórico. A intensificação explosiva, os ventos de quase 300 km/h e a pressão central extraordinariamente baixa. O Patricia, em 2015, continua para já a deter o recorde e a ser a referência. Os seus ventos aumentaram cerca de 194 km/h em 24 horas e atingiram os 345 km/h. A pressão desceu até 872 hectopascais, o valor mais baixo registado num furacão do hemisfério ocidental. Depois o Otis, em 2023, passou de tempestade tropical a furacão de categoria 5 em apenas 24 horas, antes de atingir Acapulco, no México. Os ventos aumentaram cerca de 167 km/h num dia, sem qualquer indicação das previsões e, por isso, sem possibilidade de avisar a população.

Esta quarta-feira o Polo perdeu alguma intensidade, mas não a grande capacidade destruidora. Continua a ser uma ameaça para a costa sudoeste do México. Segundo o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC), os ventos sustentados diminuíram para cerca de 240/250 quilómetros por hora, o que o baixa para um furacão de categoria 4. Está a sul da costa mexicana e continua a deslocar-se muito lentamente. O centro permanece sobre o oceano, mas a chuva intensa deve causar inundações e deslizamentos de terras nos estados mexicanos de Guerrero e Michoacán. As previsões apontam para precipitação na ordem dos 200 mm (litros por m2) e há alertas para inundações repentinas, deslizamentos de terras e agitação marítima perigosa (ondas de 14 metros). Quando uma tempestade fica estacionária consegue despejar centenas de litros de água sempre no mesmo sítio.

Um furacão pode perder força e continuar extremamente perigoso. O Polo está a passar por isso. Há uma substituição da parede do olho do furacão que faz diminuir a velocidade do vento. Mas isso não é equivalente à redução do perigo. Nos furacões muito intensos, não é raro formar-se um segundo aro de tempestades à volta do primeiro. À medida que o segundo se intensifica, o primeiro enfraquece e depois desaparece. É uma espécie de reorganização do furacão: os ventos máximos podem diminuir, mas a área afetada por ventos ainda muito violentos pode até aumentar.

E um tufão do outro lado do Pacífico

Um furacão, um tufão, um ciclone tropical ou um medicane são essencialmente a mesma coisa. O nome é que depende da região em que se formam. O mecanismo é em tudo semelhante. Trata-se de uma enorme máquina que é alimentada pelo calor do oceano. Só precisam de ter as condições certas ao mesmo tempo para funcionarem. A água muito quente fornece a energia e a humidade; depois, a atmosfera húmida reduz a entrada de ar seco; e a existência de pouco wind shear — pouca diferença de velocidade e direção dos ventos entre diferentes altitudes — permitem-lhes organizarem-se e manterem-se organizados. Quando tudo isto acontece, a pressão no centro da tempestade cai rapidamente, e é assim que os ventos aceleram e o ciclo de intensificação se torna muito difícil de travar. E quanto mais depressa o ar sobe no centro, mais ar é puxado da superfície, mais aumenta a rotação e mais baixa pode ficar a pressão.

Foi o que aconteceu com o Polo. Mas também o que aconteceu com o Dujuan, do outro lado do Pacífico, junto ao Japão. De um lado um furacão, do outro um tufão. O caso japonês mostra como a enorme quantidade de humidade transportada pela tempestade, combinada com a chuva persistente e o relevo do país, pode levar a uma precipitação acumulada extraordinária: mais de 300 mm (300 litros por m2). Aconteceu nas ilhas Izu, devido à formação de bandas lineares de precipitação, que são capazes de concentrar chuva torrencial durante horas na mesma zona.

O tufão Dujuan já se afastou da costa oriental japonesa. Já é apenas uma depressão extratropical. Mas as suas consequências ficaram bem visíveis nas regiões de Chiba e Kanagawa, perto de Tóquio. O balanço do Japan Times aponta para pelo menos nove mortos e quatro desaparecidos, danos em perto de 500 casas e 45 mil habitações sem luz. Não faltaram inundações e deslizamentos de terras que atingiram zonas residenciais. Total de chuva: mais de 800 milímetros de precipitação em 48 horas em algumas regiões.

E o que significam mesmo 800 mm de chuva em 48 horas? A explicação está dada, mas é bom relembrá-la. Um mm de precipitação é igual a um litro de água por metro quadrado. 800 mm são 800 litros de água despejados sobre cada metro quadrado de terreno. Numa superfície de apenas 100 metros quadrados, são 80 mil litros de água. Ultrapassa qualquer capacidade de escoamento dos terrenos, rios ou sistemas de drenagem. Sobretudo porque a chuva cai intensamente num curto espaço de tempo.

Há um grande fenómeno que liga estas duas tempestades monstruosas: o El Niño. A temperatura da água à superfície no Pacífico já ultrapassa os três graus acima da média em algumas regiões. A NOAA define uma probabilidade superior a 90% de o fenómeno atingir uma intensidade muito forte durante o outono e o inverno. No caso do Polo, a influência é mais direta. O El Niño favorece a formação e intensificação de furacões no Pacífico oriental, através do aquecimento das águas e de alterações na circulação atmosférica. No Pacífico ocidental, onde se formou o Dujuan, a influência do El Niño já é diferente. A tendência é que a região de formação dos tufões seja desviada mais para leste e que os seus percursos e duração também mudem. Podem percorrer maiores distâncias antes de se aproximarem de terra. Mas as chuvas do Dujuan resultaram sobretudo da enorme quantidade de humidade transportada pelo tufão, da organização das bandas de precipitação e da interação com as condições atmosféricas e o relevo japonês.

O Polo e o Dujuan representam, por isso, duas formas diferentes de perigo. O furacão junto ao México ganha destaque pela rapidez com que os ventos atingiram uma intensidade extrema. O tufão Dujuan pela capacidade de produzir precipitação excecional para causar inundações e deslizamentos de terras. O El Niño favorece a atividade ciclónica e modifica o percurso das tempestades, mas não determina a intensidade (nem as consequências) de cada uma.

[Dois meses após o desaparecimento, e já depois de o genro, Raymond Quendoz, lhes ter anunciado que ia divorciar-se dela, os Silva Pais recebem finalmente notícias da filha. Annie está bem. Recusa dar detalhes sobre o seu paradeiro mas há cada vez mais evidências de que fugiu do marido para se juntar à revolução cubana. E, se isso aconteceu, uma coisa é certa: Annie tem de ter tido a ajuda e o aval do próprio Fidel Castro. Resta apenas saber porquê. Já pode ouvir o segundo episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]