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(A) :: Mike Leigh não veio a San Sebastián, mas enviou a sua compaixão pelo fim da vida

Mike Leigh não veio a San Sebastián, mas enviou a sua compaixão pelo fim da vida

Um portentoso momento de cinema — talvez o último do veterano cineasta britânico — estremeceu o País Basco: “Tender Loving Care”. A Concha pode ficar por aqui.

Francisco Ferreira
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Quando começa, julgamos que Tender Loving Care vai fixar-se num retrato da vida a chegar ao fim. E vai. Mas não naquele em que pensamos. Primeira imagem: grande plano de um velho acamado em quarto de hospital, com cara de poucos amigos. Mal diz palavra. Só muito mais tarde saberemos tratar-se de um sem abrigo. A câmara aproxima-se até ao close-up e não há memória de um plano assim, tão cerrado sobre um rosto, em toda a filmografia de Mike Leigh, como se o cineasta de Salford quisesse tocar no rosto da personagem. Nem nunca ele foi dado a tais proximidades.

Tender Loving Care muda então de eixo e ganha outra distância. O rosto que abriu o filme é afinal o de um figurante simbólico que sai de cena. Quem passa para primeiro plano são Rosie (Alice Bailey Johnson) e Amy (Kate O’Flynn), duas amigas, ambas assistentes sociais em Ealing, subúrbios a oeste de Londres. Amy separou-se há pouco do namorado e acabou de mudar-se para casa de Rosie. Frequentam ambas os pais idosos da primeira (papéis de Marion Bailey e Paul Jesson), que terão importância determinante nesta história. E que prodigiosos actores são todos!

A câmara passa a acompanhar Rosie e Amy, entre a rotina do trabalho nas instituições sociais, as visitas de rua aos mais carenciados e o regresso a casa em que partilham uma garrafa de vinho ao fim do dia — mas nada aqui é esquematizado e a preto e branco; o filme ergue-se, como sempre em Mike Leigh, sem um guião escrito e a partir dos ensaios intensos com os actores; é desse “estaleiro” de trabalho que Trend Loving Care descobre o caminho a seguir.

Se a compaixão é “uma fraqueza da alma”, como escreveu Séneca, aquelas profissionais de saúde sabem que precisam de nervos de aço para lutar contra os seus maiores inimigos: a piedade e o sentimentalismo. Batem-se por causa nobre: uma vida digna. Mal de amores uma e outra, sem perspectivas de construir família, tentam não esquecer também que são mulheres a caminho da casa dos 40 anos e que a vida está a passar muito depressa.

No trabalho, o sofrimento dos outros não as deixa indiferentes. A passagem no tempo, reflectida no envelhecimento dos pais de Amy (e na deterioração física da personagem de Paul Jesson), tornam-nas conscientes da brevidade da vida. É com esta matéria humana, outra vez feita de “verdades difíceis”, que Mike Leigh faz bater o coração emocional deste filme.

Tender Loving Care deixa-nos com uma enigmática palavra de despedida, da mesma forma que o Charles Foster Kane de Orson Welles fechava O Mundo a Seus Pés com o seu “Rosebud”. Será o último filme de Mike Leigh? “É provável”, disse o próprio. Não veio ao País Basco, ficou em casa, mas participou por video-chamada na conferência de imprensa, com a clarividência do costume. Os problemas de locomoção agravaram-se e o realizador considera que a sua continuidade num set de cinema tornou-se impossível a partir de agora. Quem já o acompanhou nas rodagens sabe a que ponto é exigente o seu método de trabalho. Conhecendo o seu pragmatismo, a sua convicção e teimosia, Mike Leigh não disse o que disse de ânimo leve. Torcemos, evidentemente, para que o anúncio não se torne verdade. É um cineasta único e não há nada sequer perto de Tender Loving Care no concurso pela Concha de Ouro.