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Crónica: Jorge, já fazes falta, pá

As canções de Jorge Palma acompanharam-nos quando ainda não sabíamos que precisávamos delas. Agora, sobram as palavras, as músicas, as memórias e a estrada.

João Tibério
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Um príncipe na Dinamarca, um errante em Paris, uma voz de Lisboa, o homem do mundo. Cada álbum é sobre o artista e é sobre nós. Como ser um Jeremias, um ladrão de histórias, enquanto aprendíamos a nacionalizar os versos de amor. Artífice dos momentos que sentimos e que ainda temos de viver.

Talvez seja a mais humilde das obras: deixar-nos palavras antes de sabermos que precisamos delas. Transformar solidão em rima, paixão em verso, noites desgraçadas em histórias de embalar. Até as nossas pequenas derrotas soavam a melodia quando acontecia aquela quebra ao piano.

As palavras ainda ecoam naquele Discman velho que ficou guardado lá atrás, entre umas desfeitas amorosas e umas noitadas no Frágil. Cantámos tantas vezes, muitas delas entredentes, meio envergonhados. Havia canções que não se cantavam em voz alta. Pelo menos eu achava que não. Talvez porque algumas coisas só conseguimos dizer quando fingimos que estamos a cantar as palavras dos outros. Aprendi, aprendemos todos, que há músicas que ouvimos aos quinze anos e aos quarenta (e mais) permanecem.

Jorge, omnipresente, qual escala musical de uma aula do 5.º ano. A flauta, o reco-reco, o caderno e o medo de não conhecer outros artistas. Diapasão de mil memórias, com versos para tudo o que sentíamos. E acordes. E melodias. E frases tão sinceras que até em wallpapers manhosos e pindéricos continuam a ficar bem.

Toda a gente tem um Jorge Palma particular. Há quem o tenha encontrado numa cassete. Há quem a ele tenha chegado num CD. Há quem o tenha descoberto num concerto, num bar, num carro, numa noite qualquer. Há quem tenha chorado sem sequer saber quem ele era, de novo. Há quem tenha amado ao som daquelas canções. E há quem tenha sobrevivido a um desamor graças a elas. Há quem tenha uma música que não consegue ouvir sem voltar àquela pessoa, àquele tempo. É a eternidade.

“O sistema é antigo e não poupa ninguém” e está feito para espremer a dor alheia, em forma de chuva de elogios, nos dias da morte. Acabamos por ser escravos do que sentimos e do que devemos dizer. Fica bem dizer bem. Mas quando não é só mais um, é preciso medir as palavras, com régua, esquadro e piano. Devemos-lhe isso, todos precisamos de alguém para nos darmos com toda a gente.

E há qualquer coisa de profundamente injusto neste tempo e neste modo. Porque a morte transforma imediatamente alguém numa coleção de frases bonitas — ou prompts preguiçosos —, fotografias antigas e vídeos partilhados. De repente, toda a gente se lembra. Toda a gente sabe. Toda a gente tem uma história muito própria, mas igual a tantas outras. Mesmo que seja tudo verdade.

Jorge também era nome de silêncios entre as canções. As noites compridas. Os copos. Os amigos. Os erros. As gargalhadas. A tristeza que não precisava de ser explicada. Aquele estranho talento para fazer parecer que a vida podia ser simultaneamente uma tragédia e uma coisa infinitamente hilariante.

Jorge, uma espécie de amigo que não conhecíamos pessoalmente. E todos temos amigos assim. Pessoas que entram na nossa vida sem bater à porta e ficam. Que se quedam, mesmo quando não sabemos bem quando chegaram. Só lhes percebemos a importância quando, de repente, deixamos de as ouvir. O privilégio de o ter conhecido é coisa que serve de pouco agora.

Há estudos — há sempre estudos — que provam que a música é uma linguagem universal, que só ela consegue juntar pessoas num bar, num auditório, numa praia ou numa capital gentrificada. Mas não precisamos de cientistas para fazer disto uma lei universal ou um dogma redondo. O Jorge das palavras que inundaram as vidas de quem estava sozinho.

Neste aparente fim, releio palavras cantadas sobre os tempos em que não tínhamos quase nada. E o Jorge, que parecia ter sempre tudo, teve também o dom singular de aproximar pessoas. Como um truque de magia: Jorge, sentado ao nosso lado, a cantar o amor.

Já fazes falta, pá.