O Governo assume que partiu do Estado a iniciativa de contactar a empresa de Amancio Ortega, dono da Zara, para comprar a sua participação na REN. A Parpública comprou 13,7% da REN à Pontegadea por 389,8 milhões de euros.
“Fomos nós que tomámos a iniciativa de adquirir 20% da REN e fomos nós que contactámos o grupo espanhol, porque é o único, com exceção da State Grid, que tem mais de 10%. Não podendo ir a bolsa, contactámos e perguntámos se estava disponível para negociar, em função da avaliação que ambas as partes fizessem”, garantiu Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças no parlamento, após o PS questionar sobre de quem foi o primeiro contacto e quando.
Se a resposta tivesse sido negativa, o Governo tinha “de encontrar outras alternativas junto de outros acionistas e seria mais difícil chegar aos 20%. Passados uns dias responderam positivamente”.
“Cada parte tinha uma avaliação e a Parpública negociou com este grupo. A segunda parte tem um dever de reserva pelas leis de mercado”, acrescentou para não divulgar quaisquer avanços em novas compras que permitam atingir os 20%, como pretendido. “Uma operação desta natureza tem um dever de reserva muito grande”, assume o ministro, para que não influencie o preço da ação em mercado. Demoraria quase quatro anos a comprar 20% em mercado. Com 20% terá “uma voz diferente”, garantiu Miranda Sarmento.
Confrontado quer pelo PS — que disse ter todos os requisitos de “suspeição e de dúvida” sobre esta “turbovenda” — quer pelo Chega sobre os intermediários — com o Chega a voltar a falar em eventuais comissões — e quem saberia destas negociações, Miranda Sarmento voltou ao guião do comunicado divulgado esta semana de que no Governo apenas seis governantes conheciam o dossiê, admitindo agora que também do lado dos assessores, membros de gabinetes e pessoas na Parpública estiveram envolvidos.
Mas, reiterando o que tinha sido dito em comunicado, disse que nenhum dos seis governantes tem ou tinha ações da REN. Miranda Sarmento admitiu ter apenas 20 ações da Benfica SAD compradas em 2001 “que assumi como um donativo ao clube”. À exceção desses títulos, “eu estou de consciência tranquila, nunca tive ações de empresas portuguesas nem de estrangeiras”.
Ainda assim, acrescentou que “se alguém fora destes seis governantes que teve conhecimento da operação, obviamente que os assessores envolvidos tiveram conhecimento, algumas pessoas na Parpública e nos gabinetes, usou essa informação privilegiada para benefício próprio a CMVM e a PGR investigarão e punirão. Se alguém o fez deve ser punido”. Isto depois de André Ventura, presidente do Chega, ter dito que o negócio beneficiou algumas pessoas direta ou indiretamente ligadas ao Governo. Foi Jorge Pinto, do Livre, que lembrou estas declarações do Chega, confrontando Miranda Sarmento com as insinuações.
O prémio, reforçou Miranda Sarmento, ficou “dentro do intervalo normal” e abaixo do que o vendedor pediu e ainda abaixo da média dos price targets emitidos. O prémio foi de 15% “que resultou de uma negociação”. Para Miranda Sarmento esse valor até fica no intervalo de outras operações que dão alguma influência em empresas. Recorda que as assembleias gerais da REN têm, normalmente, cerca de 60% do capital representado, pelo que ter 20% significa garantir um terço nas reuniões magnas. Além disso, os estatutos da REN limitam os votos a 25%, ou seja, mesmo tendo mais capital só votam com 25%.
E volta a dizer que seria difícil comprar 20% em bolsa.
Confrontado com a venda da REN na sua totalidade durante o anterior governo da AD, liderado por Passos Coelho, Miranda Sarmento explicou que essa foi uma imposição da troika, inscrita no memorando de entendimento. “Estávamos obrigados a vender a REN pelo memorando de entendimento da troika” que “os senhores [PS] assinaram”, realçou. “Esse memorando previa que a venda da totalidade dessas empresas gerasse 5,5 mil milhões, o Governo consegue 9 mil milhões. Na altura a State Grid pagou um prémio de 50%”.
Miranda Sarmento foi chamado ao parlamento para falar sobre a compra da participação na REN pela Iniciativa Liberal que, pela voz de Mário Amorim Lopes, diz “levantar muitas questões”, confrontando o governante com o dinheiro que podia ser gasto noutros fins. Miranda Sarmento reiterou que a compra não tem qualquer impacto no saldo orçamental nem na dívida pública. “Não está na restrição orçamental”, diz o ministro.
https://observador.pt/2026/09/22/governo-comunicou-a-pequim-que-entrada-na-ren-nao-muda-posicao-da-state-grid-que-ate-quer-que-se-mantenha-acionista-de-referencia/
Estado português “tem excelentes relações com a China”
Foi também pela voz do deputado liberal que Miranda Sarmento foi confrontado com o facto de o Governo alegar com a soberania e com a geopolítica para adquirir uma participação e, ao mesmo tempo, dizer que tem interesse que os chineses da State Grid se mantenham com uma posição de 25%. “Se é uma questão de soberania o que está em causa é a participação de um estado estrangeiro, logo a China, na REN”, salienta o líder parlamentar da IL.
“Nós entrámos porque as mudanças geopolíticas nos últimos anos levaram a que tomássemos a decisão de voltar ao capital da REN”, dizendo Miranda Sarmento que Portugal era o único país dos 27 estados-membros que não tinha posição na gestora da rede energética.
O ministro das Finanças reforçou ainda que o Estado português “tem excelentes relações com a China”, até por relações históricas, voltando a reafirmar o interesse em que a State Grid se mantenha.