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Glockenwise: se tudo falhar, teremos sempre os miúdos de Barcelos

“Vale Tudo para Chegar a Algum Lado” é o sexto álbum de estúdio dos Glockenwise. Ao vivo, será apresentado a 10 de outubro, no Theatro Circo, em Braga, e a 16 de dezembro, na Culturgest, em Lisboa.

Filipa Vaz Teixeira
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Há algo curioso que acontece com os Glockenwise semelhante à teimosia fofa dos pais em chamarem aos filhos de “miúdos”, mesmo quando os miúdos já são adultos com conta no portal das finanças. Por muitos anos que passem — e já são 20 de carreira — continuamos a olhar para eles como os miúdos de Barcelos.

Convém explicar que não existe nada de condescendente nisto. Estamos perante um fenómeno que se retroalimenta: se, por um lado, temos uma certa nostalgia com lágrima embevecida no canto do olho, por outro os Glockenwise mantêm-se fiéis a si mesmos desde o momento em que começaram a brincar às possibilidades na garagem da avó de Cristiano Veloso (ex-baterista da banda). Sempre que se juntam para criar novas canções, é como se fosse a primeira vez.

O salto em queda livre e o esticar da corda são, para eles, mais fortes do que a tentação de repetir uma fórmula de sucesso segura. Isso explica o porquê do seu som ser tão mutante e, ainda assim, tão marcado, ao ponto de entrarmos em Vale Tudo para Chegar a Algum Lado com a certeza absoluta de que este é mais um álbum dos Glockenwise. Ou melhor, que este é mais do que só mais um álbum dos Glockenwise.

Um comboio em movimento perpétuo

Podemos dividir a história dos Glockenwise em dois capítulos: no primeiro temos Building Waves (2011), Leaches (2013) e Heat (2015), todos eles com uma matriz indie rock dominante, cantados em inglês e lançados sob a alçada da Lovers & Lollipops. Plástico (2018), escrito em português, marcou o virar da página e a assinatura de um contrato com a Valentim de Carvalho, que lhes deu um som mais redondo e os consagrou em definitivo para lá das margens de Barcelos.

O passo seguinte foi tudo menos óbvio. Gótico Português (2023) veio com selo independente da editora Vida Vã, por eles criada, e encheu-se de pós-punk e canções às quais muito dificilmente conseguimos meter o rótulo de single, mas que em conjunto resultam num disco com estatuto de culto. Vale Tudo para Chegar a Algum Lado, o sexto-longa duração agora apresentado, é a continuação do caminho independente que iniciaram com o trabalho anterior e, ao mesmo tempo, um olhar dos Glockenwise sobre o barro que os moldou nos últimos 20 anos.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/0XhoSTZzeAqFiekIK4VrEc?si=dXK5eqACR7G6CpgFlXuSDA

“Será que qualquer dia vamos estar à vontade / com tudo o que fizemos?”, questionam na faixa título e primeira do disco, um tema de 6:28 minutos que dispensa prelúdios instrumentais longos e que nos põe logo aos 9 segundos a seguir na roda das palavras de Nuno Rodrigues, como se nunca os tivéssemos deixado de ouvir desde o último álbum.

Neste detalhe encontramos o dedo de produtor de Pedro Augusto (Ghuna X), ele que tem a mania desconcertante de nos empurrar para uma canção como se ela fosse um comboio em andamento, para depois nos largar num apeadeiro e seguir viagem (veja-se o que ele fez em 2019 com os Black Bombaim, outros miúdos bem recomendáveis made-in Barcelos). Com Pedro Augusto, a música não tem passado ou futuro, é um movimento perpétuo tão fatalista quanto libertador, algo que casa lindamente com a condição sisífica dos Glockenwise.

Entre o desencanto e a esperança

Vale Tudo para Chegar a Algum Lado é, nesse sentido, um álbum de base impressionista, feito da sonoridade inconcreta do rock psicadélico, do pós-punk e do shoegaze, à qual é aplicada um glacé de indie rock em momentos muito precisos, como em Lua, tema-desabafo sobre “as dores de ser grande” e em que a voz de Nuno Rodrigues se aventura na androginia de um Brian Molko, embora com mais suavidade, arrasto e distância.

Há uma aura de leveza no disco que contrasta com Gótico Português, mais amarrado às linhas do baixo e ao rock gótico de uns Joy Division, e que se revela para lá da interpretação. Dedilhados e melodias brilhantes insinuam-se a meio de canções, justapondo-se à tormenta de versos como os de Vai Dar: “Passei o dia a hipotecar / os futuros que restam (…) cancelada a minha vida / entrego-me à cantiga / e à macia convicção de que / vai dar”. Encontramos laivos de The Brian Jonestown Massacre e também Low, eles que em 1994 batizaram um álbum com uma expressão que se poderia aplicar a Vale Tudo para Chegar a Algum Lado: I could live in hope.

É entre o desencanto e a esperança que se escreve o novo trabalho dos Glockenwise. Às vezes consegue ser claustrofóbico, como em A Guerra do Caulino, faixa que nos atira para o absurdo de estarmos constantemente a batalhar pelas mesmas causas, sem fim à vista — o caulino de ontem, que gerou uma revolta popular em 1988, em Barcelos, é o lítio de hoje, do Barroso, ou os combustíveis fósseis que levantaram protestos estudantis em Portugal e em toda a Europa.

Mas depois também há luzes que se abrem e que nos dão consolo quando achamos já não haver solução possível, tal e qual o primeiro sol depois de longos dias de chuva. Veja-se Tudo o que eu Posso — “se este mundo é nosso / não serei refém / serei tudo o que eu posso” — ou Intenção, tema que fecha o disco numa opressão Kafkiana, mas que, graças à voz de Mafalda Matos, dos Marquise, nos mantém vivos, apesar de todo o absurdo existencialista. Se nada mais fizer sentido, teremos sempre os miúdos de Barcelos para nos deixarmos levar. Assim, vale mesmo tudo “para chegar a algum lado / para chegar a lado nenhum”.