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Verão de maio a setembro (ou outubro). Calor extremo chega cada vez mais cedo e parte cada vez mais tarde: em Portugal e metade do mundo

As ondas de calor com mais de 40ºC começam logo em maio e vão até outubro. Agosto perdeu a exclusividade do mês do calor. Um estudo da NASA confirma que é assim em metade do mundo: o verão estende-se.

Filomena Martins
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Julho e agosto eram os meses do calor extremo. Eram sinónimos de verão. Eram. Já não são. Pelo menos na meteorologia. Não é que julho e agosto já não sejam quentes. Ainda o são. Mas as ondas de calor surgem cada vez mais cedo — este ano tivemos um recorde de calor em maio, com 40,3ºC em Mora. E estendem-se até cada vez mais tarde — setembro já chegou aos 44,3ºC. Um novo estudo da NASA mostra que a estação do calor extremo se alargou para além do período histórico em pelo menos metade do planeta — e que é na Europa Ocidental, Portugal incluído, claro, que começa mais cedo. O AEMET, instituto de meteorologia espanhol, resumia assim a estação numa publicação desta segunda-feira: “Verão de quatro meses”.

O estudo da NASA tem a conclusão no título. “Extreme Dry and Humid Heat Seasons Are Changing Asymmetrically”, à letra, “As estações de calor extremo, seco e húmido, estão a mudar — de forma assimétrica”. É nesta assimetria que a NASA coloca Portugal do lado em que o verão começa cada vez mais cedo. Se formos à conclusão global, é bastante alarmante, mas que estamos a ver acontecer: “As épocas de calor extremo, tanto seco como húmido, tornaram-se significativamente mais longas.”

Por cá, 2026 veio exatamente confirmar as conclusões gerais da NASA, que analisou o período 1980-2024. Portugal continental teve sete ondas de calor até final de julho. Atualmente estaremos a passar pela oitava, já a meio de setembro, mas ainda não há confirmação oficial. A primeira dessas ondas de calor aconteceu logo no final de fevereiro, após o ‘comboio de tempestades’. Depois houve duas em março, uma em abril, a do final de maio, outra entre o final de junho e meio de julho, que o IPMA considerou “um dos episódios mais relevantes” desde 1981, e ainda uma outra em julho. Em agosto não só não houve qualquer onda de calor, como a temperatura só esteve 0,16ºC acima da média. Também foi o quinto agosto mais chuvoso desde 1931.

Estudos anteriores sobre o nosso país já mostravam esta tendência. A de que o verão está a sair do verão. O calor extremo está a começar em maio, a acentuar-se em junho e a sobreviver até setembro e mesmo outubro. E estamos a viver mais ondas de calor todos os meses.

O que diz o novo estudo da NASA

Primeira e principal conclusão do novo estudo da NASA. Cerca de metade do planeta já apresenta uma expansão muito significativa da época de calor extremo. Ou, citando em concreto, “as épocas de calor extremo, seco e húmido, expandiram-se significativamente em 50% e 48% da superfície terrestre global, respetivamente.” O estudo, Extreme Dry and Humid Heat Seasons Are Changing Asymmetrically, foi publicado no dia 10 de setembro pela AGU Advances. Juntou especialistas da NASA GISS (Goddard Institute for Space Studies, laboratório de investigação em Nova Iorque) que colabora estreitamente com instituições académicas, como a Universidade de Columbia (incluindo o seu Lamont-Doherty Earth Observatory — LDEO) e a Universidade de Nova Iorque (NYU), no estudo das ciências climáticas e do sistema da Terra. No período analisado, 1980-2024, os investigadores deixam ainda duas outras importantes conclusões. Que “a duração média da estação quente está a aumentar significativamente”; e que “está a emergir um risco de calor extremo em novas alturas do ano, por todo o mundo.”

O estudo não cita diretamente Portugal. Mas Portugal está lá. Dependendo da região, o calor extremo está a avançar sobretudo para uma das pontas da estação quente. Na Europa Ocidental, onde se inclui o nosso país, o calor está a chegar mais cedo. “As alterações nos extremos anteriores à época [tradicional de calor] dominam as mudanças assimétricas na ocorrência de calor em regiões que incluem a Europa Ocidental.” A onda de calor deste final de maio e a de junho foram assim a confirmação portuguesa das conclusões do estudo. Mas também as anomalias de temperatura média diária superiores a 10ºC em partes de França, Inglaterra e País de Gales. Bem como os recordes absolutos de temperaturas máximas em Portugal, Reino Unido, França e Irlanda.

Já “grande parte da Europa de Leste registou alterações […] dominadas pelo aumento dos extremos no outono.” Ou seja, depois da época tradicional. A nível mundial, “a estação quente está a tornar-se mais longa nas latitudes médias dos hemisférios Norte e Sul.”

Que impactos tem este alargamento do verão quente?

O excesso de calor está ligado a um aumento de mortalidade. Não é nenhuma novidade. O problema é que quanto maiores forem os extremos de calor em duração, o número de dias em ondas de calor, mais essas mortes tendem a aumentar. E com o verão a esticar-se e a começar na primavera e a acabar no outono, as preocupações devem ser maiores para as autoridades de saúde, diz o estudo da NASA. “O calor extremo pode provocar impactos desproporcionais quando ocorre em alturas inesperadas do ano”, escrevem os investigadores. Por um lado, explicam, “as pessoas podem ainda não estar aclimatadas às temperaturas mais elevadas nem ter preparado estratégias de adaptação”, se o calor chegar demasiado cedo. Se ficar até mais tarde “pode acrescentar uma nova carga térmica à que o organismo já acumulou durante o verão”.

Até ao final de agosto, os números apontavam para 35 mil mortes devido ao excesso de calor em metade da Europa. Muitos balanços ainda são provisórios. Cada país tem uma metodologia diferente de análise. Mas o estudo da NASA deixa uma conclusão sobre este impacto fora de tempo: em Portugal, até final de julho, até quando há dados, o INSA e a DGS apontam para 680 mortes acima do esperado associadas a picos de calor. O primeiro logo a meio de junho e o maior no início de julho. França fala em mais de 6.500 mortes associadas aos dois grandes episódios de calor já avaliados, o maior de todos do meio de junho ao início de julho. A Health Security Agency do Reino Unido estima em quase 2.900 mortes associadas ao calor apenas em maio e junho, ainda sem incluir a onda de agosto. E em Espanha o sistema oficial MoMo, do Instituto de Salud Carlos III, somava no final de agosto 5.232 mortes atribuíveis às temperaturas elevadas em 2026, o maior valor desde 2015.

E depois há a agricultura, os ecossistemas, os incêndios, os furacões. Há uma alteração completa dos padrões atmosféricos. “Os extremos compostos provocam impactos socioeconómicos muito superiores à soma dos impactos de cada fenómeno isoladamente”, lê-se no estudo da NASA. Alguns são óbvios. Com mais calor há “consequências para a agricultura e os ecossistemas quando os extremos coincidem com fases críticas das culturas”. Os outros também acabam por não surpreender. “As épocas de calor extremo estão a sobrepor-se cada vez mais às épocas de incêndios florestais e furacões.” As consequências é que ainda não são mensuráveis.

Há quanto tempo se nota a tendência em Portugal?

O verão cada vez mais alargado em Portugal já vem a ser estudado há algum tempo. E dos vários estudos têm saído dados bastante expressivos. No final de agosto de 2023 foi publicada uma análise sobre as ondas de calor entre 1980 e 2021: Addressing the Spatiotemporal Patterns of Heatwaves in Portugal. Ao longo da reconstrução do que foram estes 41 anos, sobressaem três pontos: o número de ondas de calor aumentou de forma generalizada nos últimos 20 anos; há diferenças regionais, com o norte e o interior com mais episódios de máximas extremas; e Lisboa destaca-se nas ondas de calor das temperaturas mínimas, com mais noites persistentemente quentes.

Um estudo anterior, de 2018, também sobre ondas de calor, vai ao detalhe. Em “Heat waves in Portugal: Current regime, changes in future climate and impacts on extreme wildfires” há muitos números. Entre 1981 e 2010 foram identificadas 130 ondas de calor, concentradas entre maio e outubro. Julho e agosto apresentam os valores máximos de temperatura e calor extremos, mas já se nota o alargamento do verão. Num outro trabalho, este com dados observados em 23 estações portuguesas entre 1941 e 2006, já se notava um grande aumento do número e da duração das ondas de calor. E aqui incluíam-se os dias quentes e as noites tropicais, na primavera e no verão.

Mas foi em 2025 que as coisas ficaram claras. Em “Heat Waves in Portugal During the 2001–2024 Period: An Overview”, de investigadores da Universidade de Coimbra, somaram-se as ondas de calor oficialmente identificadas em Portugal continental entre 2001 e 2024. Foram 95 em 24 anos. E a distribuição mensal contém um número surpreendente. Maio surge com 16 ondas de calor neste período, junho com 13, julho com 12 e agosto com 17. Maio teve mais ondas de calor do que junho e julho e ficou praticamente empatado com agosto. Houve ondas inteiramente em maio em 2009, 2010, 2011, 2012, 2015 e 2017. Este “inteiramente em maio” é importante. Porque quando uma onda começa num mês e termina noutro, os investigadores atribuem-na ao mês em que começou. Se começou a 30 de maio e acabou a 11 de junho conta como maio. E vale a pena referir novamente a definição de onda de calor: pelo menos seis dias consecutivos em que a máxima diária supera em 5ºC a máxima média diária de referência.

Há um ano que salta à vista: 2009. Desde então, não houve um único ano sem pelo menos três ondas de calor. Entre 2001 e 2008, tinha havido sete ondas de calor em oito anos, uma média de 0,9 por ano. De 2009 a 2024 houve 88 em 16 anos, uma média de 5,5 por ano. Um salto brutal. Mais de seis vezes superior. Fazendo as contas de outra forma, das 95 ondas de calor deste período do estudo, sete aconteceram entre 2001 e 2008, e 88 de 2009 a 2024.

2009 é contudo um ano excecional. Nos números históricos do IPMA está no topo dos anos com mais dias em onda de calor: 93. Seguem-se 2017, com 83 dias, 2023, com 80, 2025, com 74. Até agora, 2026 já soma 72 dias, contabilizados só até final de agosto. Não são obviamente 72 consecutivos. É aliás aqui que está o alargamento do verão. O estudo de Oliveira, Raimundo, Gaspar e Quintela, publicado na Climate, contabiliza em 83,2% as ondas de calor que ocorreram entre a primavera e o verão; e em 16,8% as que tiveram lugar já no outono e inverno. Mais: entre 2001 e 2024, houve tantas ondas de calor iniciadas em maio e junho (16+13) como em julho e agosto (12+17): 29.

2026 confirmou completamente estes dados

O estudo da NASA termina em 2024. Mas depois vieram 2025 e 2026. Como se fossem as peças reais que faltavam para confirmar a teoria. 2025 teve a primeira onda de calor entre 24 de maio e 1 de junho; mais uma em junho; outra entre junho e julho, uma outra entre 14 e 20 de setembro e a derradeira entre 10 e 19 de outubro. Este ano já tinham ocorrido seis ondas de calor até junho (fevereiro, março – 2 -, abril, maio e junho); seguiu-se outra em julho e podemos estar a passar pela oitava em setembro. Nestes dois anos, agosto ficou a zero. O IPMA escreve que o extremo de calor “deixou de ocorrer apenas durante o verão” e que as ondas estão a tornar-se mais frequentes na primavera e, em alguns anos, também no inverno e no outono.

Cinco das ondas de calor deste ano começaram antes de começar o verão meteorológico. As mais importantes foram as do fim de maio e do fim de junho. A primeira começou a 20 de maio, primeiro no Alentejo e Vale do Tejo e depois estendendo-se para o interior Norte e Centro. Chegou-se aos 40,3ºC em Mora, um novo recorde absoluto para o mês de maio. Foi a segunda maior onda de calor de maio e uma das mais longas: cerca de 9,3–9,5 dias, contra 9,7 dias do recorde de 1964.

Depois veio junho. Foi o quarto junho mais quente desde 1931. A temperatura média ficou 2,06ºC acima do normal e a máxima média foi 2,65ºC superior. O recorde de temperatura máxima foi de 42,7ºC, no Pinhão. Com duas ondas de calor. A mais importante começou nos últimos dias do mês: foi de 29/30 de junho a 11 de julho. Durou cerca de 13 dias. O IPMA classifica-a como um dos episódios mais relevantes em Portugal desde 1981, quer na magnitude, quer na extensão: tornou-se a segunda maior em número de dias.

Não é só cá

Claro que esta tendência não é um exclusivo português. Basta olhar para Espanha para tirar conclusões semelhantes. Esta segunda-feira, o instituto de meteorologia espanhol (AEMET) publicou o balanço da estação. Título: “Um verão de quatro meses”. As ondas de calor espanholas contabilizadas começam a meio de maio e terminam a meio de setembro. De 19 de maio a 3 de junho, a temperatura média espanhola esteve cerca de 5ºC acima do normal. E de 2 a 7 de setembro uma nova onda de calor atingiu 16 províncias. Este ano Espanha esteve 61 dias em onda de calor, quando o recorde anterior era de 41 dias em 2022 (em 2025 tinham sido 36). Os espanhóis estiveram, contas feitas, dois em cada três dias do verão em onda de calor em alguma parte da Península ou das Baleares.

Na Grécia, a frequência média passou de cerca de 0,7 ondas de calor por verão para 1,1 desde 1990. Um aumento de cerca de 80% segundo um estudo do National Observatory of Athens, para o período 1950–2020. Historicamente, dos dias gregos de onda de calor, 18,5% ocorreram em junho, 41,9% em julho e 39,6% em agosto. Julho e agosto continuam dominantes, mas junho aproxima-se. As fronteiras tradicionais do verão meteorológico estão também ali a perder significado para o risco de calor extremo.

E em toda a Europa, o sinal é o mesmo. O Copernicus também acaba de fechar as contas. O verão de 2026 foi o mais quente já registado na Europa Ocidental, com uma temperatura média de 21,69ºC, 2,54 ºC acima da média 1991–2020. O anterior grande marco era 2003. Praticamente toda a Inglaterra e País de Gales, a maior parte de França, Espanha, Itália, Suíça e Áustria tiveram o verão mais quente pelo menos desde 1979. Olhando para a sequência mensal, junho foi o segundo mês mais quente da Europa, julho apenas o 11.º julho e agosto o quarto. Já não há uma dependência de agosto para o recorde de temperaturas.

O Copernicus já tinha mostrado que a vaga de calor de maio tinha tido anomalias diárias superiores a 10 ºC em partes de França, Inglaterra e País de Gales. E Portugal, Reino Unido e Irlanda atingiram máximas de maio sem precedentes.

E agosto e setembro?

Agosto continua a ser climatologicamente o mês central do verão da Europa ocidental. E de Portugal. Aquele que produz calor mais extremo. O IPMA registou como temperatura mais alta os 43,5 ºC, no Pinhão, dia 18, mesmo num agosto extremamente irregular. A temperatura esteve apenas +0,16 ºC acima da média. Foi o quinto agosto mais chuvoso desde 1931. E não teve uma única onda de calor. Mesmo assim, agosto não deixou de ser quente. Deixou foi de ter o exclusivo do calor.

Ainda assim, julho e agosto concentram as ondas de calor portuguesas. O estudo de 1981–2010 demonstra isso para Portugal. O mesmo acontece na Grécia: cerca de 82% dos dias de onda de calor ocorreram em julho e agosto. E Espanha teve este ano uma onda de calor de 24 dias entre 28 de julho e 20 de agosto. Mas já não é preciso esperar por agosto para encontrar calor de agosto. Em maio de 2026, Portugal chegou aos 40,3ºC em Mora. Em Espanha, maio e junho tiveram temperaturas médias 5ºC acima do normal.

Depois surgem as ondas de calor que atravessam setembro. Umas que vêm de agosto, outras que nascem já em setembro, algumas que chegam a outubro. Este ano, a 3 de setembro, Alcochete chegou aos 44,3ºC e 17% das estações analisadas pelo IPMA bateram os respetivos recordes de máxima para setembro. A temperatura média nacional desse dia, 27,61ºC, tornou-o o quarto dia de setembro mais quente desde 1941.

Em 2023, uma onda de calor atravessou o final de setembro e início de outubro por 19 dias. No ano passado, estivemos em onda de calor de 14 a 20 de setembro, com 40,2ºC em Portel e 40,1ºC em Reguengos. E voltámos a estar entre 10 e 19 de outubro.

Mas com 40ºC em maio e ondas de calor em setembro e outubro, continuaremos a concentrar as férias em agosto? Com mais 2ºC de aquecimento global, as condições do clima pioram no Mediterrâneo durante os meses mais quentes e melhoram no início e no final da época de verão e em partes da Europa Central e do Norte. Um estudo, publicado este ano, analisou 6.466 avaliações de turistas em Itália, Grécia, Espanha e Malta e encontrou aumento significativo das referências a calor, desconforto térmico, necessidade de sombra e água.

Poderá também este verão de extremos mudar o calendário das férias no sul da Europa?