O caso remonta a 2017 e ficou conhecido como o “Putney Pusher” (ou o “Empurrador de Putney”). Por volta das 7h40 da manhã de 5 de maio, um homem que corria ao longo da ponte de Putney, no sudoeste de Londres, empurrou uma mulher de 33 anos que se aproximava na direção oposta para faixa de rodagem. Por uma unha negra, o motorista do autocarro 430, Olivier Salbris, conseguiu desviar-se e impedir o pior. “Teria esmagado a sua cabeça”, chegou a contar ao The Times. Cerca de 15 minutos depois, segundo a polícia, o corredor voltava para o outro lado da ponte. A vítima, que havia sofrido pequenos ferimentos na queda, tentou falar com ele, mas foi ignorada. O vídeo do momento chocou o mundo mas o thriller estava apenas a começar.
À época, o Observador noticiou o episódio, que quase uma década depois haveria de continuar por resolver – agora com novos, e sensíveis, capítulos pelo meio: o principal suspeito do célebre caso britânico foi encontrado morto em casa na passada terça-feira, dia 15.
A imprensa tem acompanhado amplamente o desfecho de Nicholas Brandram, de 44 anos, banqueiro e ex-militar do exército britânico (serviu no Iraque, Bósnia e Afeganistão), que segundo a família terá tirado a própria vida depois da “intensa pressão” de um processo que nunca foi concluído. O caso adquiriu mediatismo extra tendo em conta os laços que o unem a vários clãs reais. Neto da princesa Katherine da Grécia (irmã de Constantino da Grécia, que morreu em 2007); afilhado do príncipe Filipe, duque de Edimburgo; e ainda sobrinho neto da rainha Sofia de Espanha.
Três meses depois do sucedido em Putney em 2017, a polícia lançou imagens dramáticas do incidente, um vídeo que viralizou a partir das imagens recolhidas pela CCTV. Nos meses seguintes, foram entrevistados 50 homens e detidos três suspeitos. Todos os três foram libertados sem qualquer acusação e o Met haveria de encerrar a sua investigação em 2018. Mas o mistério sobre a identidade do autor do empurrão naquela manhã permaneceu, inscrito na memória e cultura popular. De tal forma que anos mais tarde, em 2024, chegou mesmo a ser escrita uma peça, “Once Upon a Bridge”, de Sonya Kelly, inspirada no incidente. No texto, a autora sugeria que o jogger era um analista financeiro. A polícia acreditava que o espectáculo podia incentivar o público a partilhar informação de relevo sobre o caso.
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Em junho deste ano, nove anos depois do ataque, Brandram foi detido pela polícia – Brandram foi ligado ao incidente em Putney em abril, quando uma pessoa contactou os oficiais com informações que abriram novas linhas de investigação, de acordo com o Met.
Segundo o The Times, Brandram terá dito a amigos que “um familiar da sua segunda ex-mulher tinha ido para o Met”, após “um divórcio litigioso” e uma batalha pela custódia. A somar a estes dados, as buscas na casa de Nicholas encontraram pequenas quantidades de drogas de Classe A e Classe B, sendo detido adicionalmente pela suspeita de posse.
Brandram era gestor sénior do serviço bancário privado do HSBC, função do qual fora afastado depois de ser detido. Em 2013, declarou-se culpado de dirigir sem o devido cuidado e atenção após derrubar uma ciclista no Hyde Park, quando circulava numa Harley-Davidson. Nicholas, que abandonou o local sem verificar se a pessoa estava ferida, disse em tribunal que não se apercebera de ter batido na ciclista.

Após a sua detenção neste verão, Brandram foi inicialmente libertado sob fiança. No início deste mês de setembro, o Met anunciou que tinha sido libertado sob investigação sem quaisquer condições, “sugerindo que o caso não estava a progredir com urgência”, explicou o The Telegraph. Nunca foi acusado ou julgado, mas a suspeita continuou a pairar.
A família de Brandram disse ontem à BBC que ele “tomou sua própria vida após meses de imensa pressão causada por uma investigação da Polícia Metropolitana”. A família também acrescentou que não havia “nenhuma evidência colocando-o em Putney Bridge naquele momento, e nenhuma evidência credível de que ele era o homem mostrado na filmagem” e “a evidência provou o contrário.”
No rescaldo da sua morte, a família continua a defender a inocência de Nicholas, acreditando que não havia “nenhuma evidência colocando-o em Putney Bridge naquele momento, e nenhuma evidência credível de que ele era o homem mostrado na filmagem”. À BBC, as irmãs, Sophie Voelcker e Alexia Hicks, apontam mesmo que Nick “tirou a sua própria vida após meses de imensa pressão causada por uma investigação da Polícia Metropolitana (…) Foi deixado durante meses com o estigma de uma terrível alegação que a própria polícia reconheceu claramente que não era apoiada pelas provas. Ele viveu com a vergonha, ansiedade, humilhação e pressão extraordinária criada por uma investigação totalmente desnecessária.”
A família acusa ainda as autoridades policiais de falta de urgência em analisar os testes de DNA, que poderiam ilibar o irmão. Nicholas terá fornecido uma amostra há dois meses mas nunca chegou a receber os resultados.
Nicholas foi encontrado sem vida na sua residência em Chiswick por um dos cunhados, depois de ter faltado a um almoço de família, apurou a investigação sobre a sua morte, descartando a tese de crime, explica a BBC esta terça-feira.
Ao programa Today da BBC Radio 4, Alexia Hicks e Sophie Voelcker elencaram ainda uma lista de razões pelas quais acreditam que o seu irmão não poderia ter sido o agressor, acusando a Polícia Metropolitana de ser “negligente e imprudente”. Acreditam que Richard não corresponde ao perfil do agressor já que tinha uma atrofiada devido a uma lesão antiga do Exército e uma tatuagem militar proeminente em seu antebraço. Acrescentam que o irmão morava em Notting Hill, que não tinha nenhuma conexão com Putney, que tinham provas de que havia enviado um e-mail de seu escritório de Bond Street na hora do ataque ataque. Alegam ainda que a vítima relatou que o agressor tinha olhos castanhos, mas o irmão tinha olhos azuis.
As irmãs dizem que a saúde mental de Nicholas se foi deteriorando desde que foi detido de forma “hostil” em junho. “O meu irmão acordou com um grupo de polícias armados com coletes e com uma equipe de TV à porta de casa”, acusa Hicks.
A polícia Metropolitana não reagiu às declarações da família e indica que a investigação sobre o caso de Putney continua em aberto.