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(A) :: "Não vamos jogar com Israel, vamos jogar contra o genocídio." Como dois jogos da Liga das Nações se tornaram o palco do que se passa em Gaza

"Não vamos jogar com Israel, vamos jogar contra o genocídio." Como dois jogos da Liga das Nações se tornaram o palco do que se passa em Gaza

Irlanda e Israel vão jogar na Hungria e na Sérvia, mas assunto continua sem ser pacífico entre irlandeses. Transmissão não terá narrador nem comentário e selecionador falou abertamente em "genocídio".

Mariana Fernandes
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Era só uma simples dupla jornada da Liga das Nações — mas depressa se tornou num assunto de Estado, uma questão geopolítica e um debate sobre até que ponto as decisões e convicções políticas devem entrar e ter influência no desporto. De repente, o facto de a Irlanda ter de jogar com Israel na Liga das Nações tornou-se o assunto da semana.

Contudo, na verdade, tudo começou ainda em fevereiro. Na altura em que o sorteio da Liga das Nações decretou que Irlanda e Israel ficariam ambos no Grupo G da competição, assim como Áustria e Kosovo, a Federação Irlandesa de Futebol foi desde logo pressionada a boicotar as jornadas contra os israelitas devido à ação militar do país em Gaza. Em maio, a contestação dos próprios adeptos irlandeses subiu de tom quando um jogo particular contra o Qatar, em Dublin, foi interrompido duas vezes com o lançamento de bolas de ténis com a bandeira da Palestina para dentro do relvado.

https://twitter.com/dw_sports/status/2102370065169461488

Tendo em conta o caráter claramente divisivo do assunto, a Federação optou pela democracia e levou o caso a uma votação: em julho, 75 dos delegados do organismo votaram a favor da realização dos jogos, enquanto que os restantes 32 defenderam a decisão de boicotar. No fundo, tal como explicou no comunicado em que anunciou o resultado da votação interna, a Federação optava pelo caminho que parecia causar menos danos ao futebol irlandês a longo prazo, escapando a eventuais sanções da UEFA e à perda de milhões de euros em receita.

Ainda assim, a ideia de receber Israel em Dublin ou de jogar em território israelita estava fora de questão. Os dois países acabaram por concordar com a realização do primeiro jogo, no próximo domingo e correspondente ao que seria em casa de Israel, em Debrecen, na Hungria, com o segundo, a 4 de outubro e correspondente ao que seria em casa da Irlanda, a acontecer em Backa Topola, na Sérvia.

Os adeptos irlandeses não tiveram acesso a quaisquer bilhetes para nenhum dos jogos, enquanto que os israelitas poderão ocupar uma pequena parte das bancadas da partida de Debrecen, no domingo. Além disso, a RTE, a estação de televisão pública da Irlanda, anunciou que vai somente “cumprir a obrigação contratual” de transmitir os jogos, mas apenas com as imagens — sem narrador, comentador, qualquer análise da partida antes, ao intervalo e depois, rejeitando ainda todas as eventuais receitas de publicidade ou patrocínios das duas transmissões.

https://observador.pt/2025/01/08/medio-oriente-irlanda-junta-se-oficialmente-a-acusacao-de-genocidio-contra-israel/

A decisão de não boicotar os jogos, porém, continua longe de ser pacífica. Adeptos de vários clubes irlandeses mostraram tarjas e entoaram cânticos contra Israel nas últimas semanas, enquanto que, na segunda-feira, 160 atletas do país assinaram uma carta aberta da Irish Sport for Palestine a exigir o boicote, incluindo Tyrone McKenna, conhecido pugilista, e Ciara Mageean, campeã europeia dos 1.500 metros.

Entretanto, a Federação Irlandesa de Futebol anunciou que a UEFA rejeitou um pedido para que os países não voltassem a poder ficar emparelhados em sorteios futuros, com o diretor de futebol do organismo a descrever os jogos como “uma situação muito desconfortável para toda a gente”. Já Heimer Hallgrimsson, o selecionador nacional irlandês, foi mais longe e disse que o facto de a Irlanda ter aceitado disputar os jogos não significa que esteja a legitimar um “genocídio”.

https://observador.pt/2026/07/01/irlanda-pede-a-ue-que-aja-agora-para-mudar-comportamento-israelita/

“Não vamos jogar com o genocídio, vamos jogar contra o genocídio. Vamos jogar contra Israel, não com Israel”, acrescentou o treinador islandês. Em resposta, a Federação Israelita de Futebol lamentou o facto de ainda não ter sido encontrada “uma cura para a estupidez, a ignorância e a hipocrisia”. Pelo meio, a ministra dos Negócios Estrangeiros da Irlanda lembrou que a visão do país é “clara” e defende que a “lei internacional está a ser violada” através de “uma tentativa de apagar uma população”.

Na verdade, a Irlanda tem sido um dos países europeus a condenar a ação militar de Israel em Gaza de forma mais vocal. Em maio de 2024, em conjunto com Espanha e Noruega, reconheceu o Estado da Palestina, juntando-se depois à ação interposta pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça que acusa diretamente os israelitas de genocídio. Os irlandeses têm ainda boicotado a Eurovisão devido à participação de Israel, enquanto que, no futebol, a Bélgica também recusou receber os israelitas em 2024, jogando também em Debrecen, e tanto a Noruega como a Turquia já defenderam a suspensão das seleções nacionais e dos clubes do país de todas as competições europeias.