Talvez não seja a confissão mais elegante, mas o homenageado também não era homem de cerimónias: as figuras que povoaram o panteão do nosso tempo vão desaparecendo e, tristeza a tristeza, luto a luto, há por vezes um estúpido consolo negativo que nos diz: “Ao menos, ainda não foi fulano”. Agarramo-nos aos que nos restam, aos que mais amamos, àqueles por cuja vida, pelo amor que lhes temos ou fragilidade em que por vezes a levaram, mais tememos. Até que, um dia, também esses vão, essa última linha da arte e da vida, os maiores, os que ficaram justamente lá atrás por se verem sempre na foto, mesmo com todos os outros diante (às vezes, em bicos de pés). Esses que nos deram as canções e os filmes e os livros pelos quais nos guiámos desde que começámos a aprender a caminhar sozinhos. “Ao menos, ainda não foi o Palma.” “Ao menos, ainda temos o Palma.” “Ao menos, o Palma ainda está cá.” “No dia em que for o Palma, nem quero imaginar.” Até que o dia chegou, justamente no fim do verão. O princípio da outono. Da queda.
Recebi a notícia (e perdoem-me escrever tão despudoradamente na primeira pessoa, mas julgo que, hoje, é assim que todos estamos a falar de Jorge Palma) com a mesma violência daquela que, numa das primeiras manhãs de 2016, nos disse que David Bowie tinha deixado esta planeta, um dia ou dois depois de lançar um novo, e como depois compreenderíamos, planeado disco-testamento. Parece que dói mais de manhã, ainda antes de sair da cama. Como nos levantaremos? Mas Jorge escolheu ir à noite, como tantas vezes por lá andou e cantou. Do lado errado e do certo – depende de quem vem de cima ou de baixo. Eu é que, por uma vez, me deitei mais cedo, noctívago envergonhado, a dever demasiadas horas de sono à cama. E assim, de manhã, a nova chegou sobre a forma de dezenas de mensagens de amigos: a certeza de que era como se um de nós tivesse partido, alguém da família, que todos conheceram e que a todos pareceu, num momento qualquer da estrada, conhecer.
Vi, ouvi, cantei mais vezes Jorge Palma do que qualquer outro músico. Escrevi algumas vezes sobre ele, aqui no Observador e noutros títulos. Custou-me sempre muito um certo paternalismo, nos tempos mais difíceis em que se esquecia das letras ou espetava um prego no piano ou, simplesmente, não estava em condições de continuar. “Toda a gente gosta do Jorge”, quis uma ver colocar como título da crónica de um concerto e o editor não deixou, certamente com mais bom senso do que o cronista. Mas essa sobranceria, essa piedade, esse carinhozinho de aplauso de golfe e muito grito barato de “és o maior” arriscou-se sempre a esconder a grandeza de Jorge Palma, o seu génio musical e poético, a exigência que um artista que nasce com tamanho dom deve ter para com ele mesmo.
Vi-o ser genial e confuso, recuperar, tropeçar, voltar. A solo, com o filho, com banda, à guitarra e ao piano, em parceria, com amigos, com orquestra. Ter de ser literalmente levantado em ombros no Camões e sair, metaforicamente, em ombros do CCB. Recebemo-lo como convidado em programas de televisão em que trabalhei; nunca me quis aproximar demasiado com aquele receio que temos de o homem não ser o artista que temos na cabeça. Mas, evidentemente, a minha grande memória pessoal, eu, que nunca arrisquei ser músico porque, ao contrário de Jorge e das personagens que cantava, fui só um daqueles muitos boémios-meninos-de-coro, tive toda a minha carreira musical quando, na primeira e única noite em que alguma vez fui ao Avante!, acabei a noite a cantar com o Jorge, do princípio ao fim, na última tasca aberta, o Essa Miúda.
Só é um dos mais importantes discos da história da música ligeira portuguesa. Mas houve tudo o mais. É curioso ver os títulos do dia e como nenhum pode ser senão redutor: “Morreu Jorge Palma, autor de Deixa-me Rir e A Gente Vai Continuar”. Ou de Frágil e o Bairro do Amor. Ou de Terra dos Sonhos e Dá-me Lume. E logo toda a herança se nos vai alinhando, enfileirando na cabeça, numa playlist caótica. Sim, tantas vezes Frágil nos levou a casa, quase de rastos, feitos vampiros nada cinematográficos, tentando escapar aos primeiros raios de luz da manhã. Tantas vezes (espero) embalámos alguém nos braços ao som do Bairro do Amor. Tantas vezes encontrámos em A Gente Vai Continuar” força para o dia e o outro e o outro e o outro (menos desta vez). Mas e no Trapézio, n’Os Passos em Volta, na Estrela do Mar, n’O Meu Amor Existe, na Minha Senhora da Solidão, em Quem És Tu, de Novo, n’O Lado Errado da Noite, em Jeremias, o Fora-da-Lei, Portugal, Portugal, Canção de Lisboa, Valsa de um Homem Carente, Boletim Meteorológico, A Escola, Junto à Ponte, Mifá, Cara de Anjo Mau? Todos, da primeira vez como agora, me parecem para sempre.
Jorge Palma foi um cantor político, mas nunca só um cantor político. Nunca, desde o primeiro disco, se deixou encurralar na música de intervenção. Nunca deixou sequer, ao contrário da maior parte dos músicos do seu tempo, encurralar-se nas exigências da palavra, ter de sacrificar a melodia à mensagem, a poesia ao panfleto, a arte à circunstância. Homem de convicções políticas, certamente, mas nunca um autor de cartazes em forma de canção. Sempre músico, sempre poeta, sempre o mágico capaz do sortilégio de extrair ritmo e melodia à língua portuguesa e de lhe dar a volta no mais exíguo espaço no limite da canção: “Ela vai arquitectando uma teia para te aconchegar”. Nunca foi só político e nunca foi só pessoal. Além de ter sido o melhor compositor e poeta da sua geração. Polémico? Paciência.
A sala vai ficando vazia e isso custa muito. Chegou o dia em que foi o Jorge. Abriu a janela e voou.