O exterior em borracha esconde um conteúdo precioso. A pulseira preta do alemão Otto Künzli é uma criação aparentemente tão despretensiosa no seu design como imponente na sua leitura: o seu recheio é de ouro, relembrando-nos que o que conta é o interior, tantas vezes invisível aos olhos ou esquecido pela vista desarmada. Multiplicam-se as camadas de interpelação enquanto serpenteamos pelas estruturas transparentes, entre acrílico e acetato de poliuretano, que vão sendo recheadas. Desmaterializado o suporte, as joias apresentam-se como que a flutuar no espaço, num design expositivo de Fernando Brízio, apoiado por Diogo Dias João; e com o design gráfico de Paula Guimarães.
A partir desta sexta-feira, e até 31 de janeiro de 2027, o piso 2 do MUDE, em Lisboa, acolhe a mostra “Coleção Tereza Seabra”, que coloca em diálogo mais de meio século de joalharia contemporânea reunida pela artista, galerista e professora, um dos nomes mais marcantes do setor, e que aos 82 anos continua ativa e a apoiar novos joalheiros. Com 346 obras de 196 autores (84 nacionais e 112 estrangeiros), trata-se de uma das mais extensas apresentações do género alguma vez realizadas em Portugal e é uma das âncoras da terceira edição da Bienal de Joalharia de Lisboa, que arrancou dia 17 e se prolonga até dia 27.




“A coleção vai ficar no núcleo de joalharia contemporânea, que constituímos em 2019, mas que desde 2010 tem vindo a ser olhada com atenção enquanto expressão do grande campo que é o design. Fizemos coincidir a exposição com esta incorporação. Traz para dentro do museu uma pioneira da joalharia contemporânea em Portugal, também formadora, galerista, colecionadora, que traz para aqui o resultado de 40 anos de uma rede de cumplicidades, com diferentes gerações de autores”, enquadra Bárbara Coutinho, diretora do museu e uma das anfitriãs nesta manhã de montagens na Baixa de Lisboa, sublinhando esse repensar da joia a partir da década de 60, para uma viragem nas técnicas, materiais, mas sobretudo da noção de valor, em linha com os desenvolvimentos nas artes plásticas e design. “Daí fazer sentido constituir uma coleção pública de joalharia contemporânea. Aqui, não é o valor do material que aqui interessa, é o valor do conceito, a ideia, o desafio de reflexão proposto”.

Tudo em redor espelha a faceta de colecionadora de Tereza Seabra e relembra o visitante de que a sua relação com a joalharia é uma das mais primordiais na cronologia do ser humano. As criações exibidas recuperam esse vínculo primitivo, numa afinidade que se revela através do uso de materiais tão humildes e corriqueiros como cascas de cebola (numa gola gigante tão visualmente forte quanto efémera), lamelas de comprimidos, madeira, película de ovo, laranja desidratada, pêlos, ou velhas carcaças de telemóveis — todos eles, claro, aplicados a intricadas criações, explorando dimensões corporais, sociais, culturais. “Chama a atenção de que podemos encontrar o belo nas coisas mais comuns, que requerem o nosso reconhecimento. É importante passar isso”, frisa a diretora.
Do adorno e expressão do corpo e carnalidade até à vertente de amuleto, talismânica, a joia manifesta-se aqui nas suas diferentes expressões, incluindo na sua relação com a arte têxtil, entre dedais, alfinetes de dama e uma peça em agulhas de Manuela Sousa. As peças mais antigas expostas remontam a 1968, apesar de a exposição não estar organizada de forma cronológica, antes por tipologia, escala e relação com o corpo. Começamos com pins e anéis; seguimos com pulseiras e colares pequenos; e ainda colares maiores, numa dimensão mais relacionada com a materialidade.


“Apontamos para esta nova dimensão de joalharia de refletir sobre o tempo presente, o mundo à nossa volta. A joalharia é a primeira expressão artística, humana, simbólica; encontramos conchas furadas em Marrocos com milhares de anos. Transformamos o nosso corpo com o corpo do mundo. Não sabemos o que os nossos antepassados queriam dizer com isso, mas continuamos a usar as joias para contar as nossas histórias.”, explica Marta Costa Reis, diretora da PIN – Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea, que divide a curadoria com Manuel Castro Caldas e Tereza Seabra. “O sentido que atribuímos torna as peças mágicas e sagradas”, complementa. De Mariko Kusumoto a Leonor Hipólito, de Tamia Dellinger a Susana Beirão, de Benedikt Fischer a Ana Jotta, sem esquecer Carla Castiajo e o seu trabalho com os pelos humanos, ou ainda as luvas presas de Isabela Perillo, numa reflexão sobre o lugar da mão, há muito para descobrir.

A exposição percorre um acervo que inclui criações próprias de Seabra, criadora formada em finais de 60 em Nova Iorque com Thomas Gentille e em Hamburgo com Almir Mavignier, e que regressou a Lisboa em 1978 para fundar o Departamento de Joalharia do Ar.Co, que dirigiu durante mais de duas décadas e que se tornaria a principal escola de formação nesta área em Portugal. Em 1984, abriu aquela que foi a primeira galeria de joalharia contemporânea do país — inicialmente Artefacto3, mais tarde Galeria Tereza Seabra – Joias de Autor, com a sua morada no Bairro Alto. O acervo que agora se expõe é o resultado direto das escolhas pessoais, curatoriais, e pedagógicas acumuladas ao longo de décadas de prática e de relação próxima com artistas portugueses e estrangeiros. É também fruto da doação da coleção de joalharia contemporânea de Tereza Seabra ao Município de Lisboa para integrar, de forma permanente, o acervo do MUDE. “Tereza foi uma mulher muito atenta e continua a criar com clareza extraordinária. Ela tinha estas peças guardadas. Fez o trabalho de catalogação e acompanhou o resto da inventariação. Tereza fez uma coleção antológica mas não de carácter temático.”, define Marta.

No piso menos 1, os cofres do MUDE, vai ser ainda possível ver uma peça especial, coletiva, o colar tributo feito para Tereza Seabra com coordenação de Cristina Filipe, que funciona como uma instalação.
Paredes meias com a exposição do espólio de Tereza Seabra há outro ponto expositivo para descobrir no piso 2 do MUDE. “Coexistências – A Joalharia e a Beleza do Mundo”, mostra principal da 3.ª Bienal de Joalharia Contemporânea de Lisboa, é uma coletiva que reúne 156 peças de 70 autores, apoiada pelo museu, com curadoria de Marta Costa Reis e de Patrícia Domingues. O design do espaço muda de feição, acusando a densidade visual do conceito, para um mergulho profundo em tons de terracota, com assinatura de Miguel Vieira Baptista, com o design gráfico a cargo do Studio on Pluto. Qual gabinete de curiosidades saído do período iluminista, a correnteza de estantes convida a uma classificação de cada peça de joalharia com atenção ao detalhe, ouvido atento a cada história e, antes de mais, às propostas reflexivas que cada peça encerra. Por aqui, encontram-se três criações do acervo do museu, como a corrente de Manuel Vilhena, ou um colar-garra de Tereza Seabra.




“Nestes tempos em que temos IA a tornar-se a inteligência predominante, com todas as reservas, leva-nos a questionar sobre outras inteligências que existem no mundo e com as quais nunca nos relacionamos. O que nos diz uma pedra, um pau, uma pinha, os animais? Temos dificuldade em comunicar.”, descreve Marta, notando que esta é uma mostra “otimista”, focada na utopia. De beleza a empatia, de testemunho a resistência, do cuidado ao reconhecimento de padrões, o que nos diz a joalharia atual?
Conhecido pela icónica gun bag, de Ted Noten mostra-se no MUDE mais uma mala transparente, onde cavalos marinhos fazem amor lá dentro. Já o norueguês Singurd Bronger cria mecanismos de transporte para objetos naturais, reduzindo ao mínimo a necessidade de intervenção humana, perante a perfeição da natureza. O que encontramos no interior de um anel? Água. É com uma série de escaravelhos pintados que a joalheira Martha Mattson combate um pavor patológico, enquanto Irma Földényi propõe uma reflexão sobre uma praia artificial na Bélgica com uma peça efémera, um colar de areia. Pequenos grãos de arroz perguntam como é possível haver fome num mundo em superabundância; pedras são trabalhadas como controlos remotos, e conchas feitas com boias de flutuação. Há ainda peças feitas em colaboração com o inevitável algoritmo. “Tudo nos leva a pensar como podemos coexistir com todas as espécies, num exercício realmente holístico”, defende Bárbara Coutinho.

Até dia 23, a Bienal promove masterclasses no Ar.Co. Entre os dias 25 e 27 de setembro, justifica-se a visita ao Convento dos Cardaes, no Príncipe Real, onde funcionará o Jewellery Room, com a presença de várias marcas de joalharia. É também entre os dias 25 e 26 que se realiza um colóquio internacional e programa paralelo. Em paralelo, um pouco por toda a cidade, conte com mais de 20 exposições, conversas com artistas e visitas guiadas distribuídas por galerias, igrejas e monumentos da cidade (como a Galeria Reverso, Sociedade Nacional de Belas-Artes e Brotéria) até novembro de 2026.
“A joalharia contemporânea ganha um lugar no piso 2 do MUDE mas tem sempre uma presença nos diferentes núcleos de exposição permanente, exatamente para que se façam relações entre o gráfico, produto, vestuário, e entendam o zeitgeist de cada momento.”, frisa Bárbara, adiantando ainda que a loja do museu vai receber um reforço de joalharia contemporânea com alguns nomes de designers nacionais. Já agora, quando as mostras terminarem, tanto os acetatos como as estantes serão reutilizados, servindo tanto para capas de livros como para armazenamento interno.
MUDE – Museu do Design, Rua Augusta, 24 · 1100-053 Lisboa. 25 de setembro de 2026 a 31 de janeiro de 2027.