A noite de segunda-feira trouxe a notícia da morte inesperada de Jorge Palma e, com ela, as primeiras reações de choque e tristeza. Nos primeiros minutos, as reações surgiram sobretudo do poder político, com mensagens que recordam as canções e “o carisma” do artista. Nas redes sociais, milhares de fãs e artistas multiplicaram-se em reações à morte do cantautor.
Presidente da República evoca “um dos grandes poetas da nossa música e da nossa sensibilidade”
O Presidente da República, António José Seguro, publicou uma longa nota de condolências no site da Presidência, dizendo ter recebido a notícia da morte de Jorge Palma como “um dos seus ícones e de um dos grandes poetas da nossa música e da nossa sensibilidade”.
“As suas canções hão de ficar como uma recordação intensa e profunda da nossa melancolia; elas marcaram a vida portuguesa durante décadas e, por muito tempo, hão de iluminar a memória de várias gerações”, escreve o chefe de Estado, lembrando alguns dos “temas inesquecíveis” de Palma, que “recordarão o seu lirismo imprevisível e nunca de efeito fácil ou efémero”.
“Além de criador e intérprete de exceção, Jorge Palma foi também um artista que colaborou e trabalhou com muitos outros companheiros, mostrando sempre uma rara versatilidade e ecletismo, o que fez dele uma referência da nossa história musical ao longo dos últimos cinquenta anos. Para todos eles, trabalhar com Jorge Palma constituiu um momento raro e irrepetível das suas vidas”, assinalou Seguro.
Recordando que Palma era “herdeiro de tradições musicais e literárias muito diversas e complexas, por vezes inesperadas ou improváveis”, Seguro salientou ainda que o músico “emprestou à música portuguesa um caráter único e uma busca incessante da beleza que construiu uma utopia da amizade, do amor, da generosidade — e do riso”.
“De certa maneira, todos habitámos o seu bairro do amor, todos nos rimos com os seus versos, todos nos sentimos frágeis, todos prometemos continuar a ser aqueles que fomos quando cantámos as suas canções pela primeira vez ou quando elas deram sentido às nossas vidas”, lê-se ainda na nota, que recorda também o “talento raro e precioso que nos contagiou a todos com o seu vírus de harmonia, beleza e rebeldia”.
A nota de António José Seguro lembra que “estava previsto que este ano Jorge Palma participasse no programa da recente Festa do Livro em Belém”, mas, “infelizmente, já não pôde juntar-se a nós devido ao seu estado de saúde”.
“Por isso são ainda mais intensos o choque e a tristeza vividos hoje, com a notícia da sua morte”, destacou. “Aos seus filhos Vicente e Francisco, à sua mulher Rita, bem como à sua família e colaboradores, e a todos os artistas que estiveram ligados à sua música e à sua carreira, o Presidente da República apresenta as suas condolências.”
Entretanto, em comunicado, o Palácio de Belém anunciou na manhã desta terça-feira a realização de uma homenagem a Jorge Palma na residência do chefe de Estado, nomeadamente através da transmissão de músicas de Jorge Palma no exterior. “Na sequência da morte de Jorge Palma, ouvem-se junto ao Palácio de Belém, ao longo do dia, algumas das canções que marcaram o seu percurso, entre as quais ‘Bairro do Amor’, ‘Frágil’, ‘Estrela do Mar’ e ‘Deixa-me rir’. As melodias, que ecoam na rua, constituem uma homenagem musical ao legado do cantor e compositor, cuja obra ocupa um lugar próprio na cultura portuguesa.”
Aguiar-Branco realça uma das figuras mais marcantes da música portuguesa
O Presidente da Assembleia da República manifestou profundo pesar pela morte de Jorge Palma, realçando que foi uma das figuras mais marcantes da música portuguesa e que deixa uma marca indelével na cultura nacional.
Na mensagem que publicou na página da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco escreve que Jorge Palma “foi uma das figuras mais marcantes da música portuguesa”.
https://twitter.com/AssembleiaRepub/status/2102300806493962447
“Cantor, compositor e pianista, deixa uma marca indelével na cultura nacional. A sua obra atravessou gerações e continuará a fazer parte da vida dos portugueses. Jorge Palma partiu, mas a sua música fica”, salienta o Presidente do Parlamento na sua mensagem.
O Presidente da Assembleia da República endereça depois sentidas condolências à família de Jorge Palma, aos amigos e a todos os que admiravam o seu trabalho.
Primeiro-ministro: “Fica nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações”
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, reagiu muito rapidamente à notícia nas redes sociais, lembrando a arte de Palma, que fica “na memória de várias gerações”. “Jorge Palma parte, mas a sua música fica”.
“Fica nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações. Fica, sobretudo, na cultura portuguesa, que ajudou a transformar com a sua voz única e músicas intemporais. Em meu nome e em nome do Governo, deixo à família e aos amigos as mais sentidas condolências”, afirmou.
https://twitter.com/LMontenegro_PT/status/2102181706711134582
Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, também se apressou a reagir, lembrando a letra da canção “Encosta-te a mim”: “O que ele já não vai viver, vamos nós agora inventar com ele”.
“Ficam a voz, os poemas e o carisma. Um dia triste — muito triste — para a música portuguesa e, claro, para todos os que o amavam”, assinalou o chefe da diplomacia portuguesa.
https://twitter.com/PauloRangel_pt/status/2102186228149842196
A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, lembrou Jorge Palma como “uma das vozes mais icónicas da música portuguesa das últimas décadas”.
“Ao cantautor extraordinário, agradecemos o legado único com vários temas inesquecíveis como Frágil, Dá-me Lume ou Bairro do Amor. À família e amigos, sentidas condolências”, escreveu a ministra.
https://twitter.com/margaridalopes/status/2102279675665908022
Já o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, recordou nas redes sociais “um dos maiores músicos e compositores” portugueses e a obra “extraordinária” que ficará na memória coletiva do país. “Homem livre, de uma criatividade singular e de uma autenticidade rara, fez da música também uma forma de celebrar a liberdade”, escreveu.
https://twitter.com/jl_carneiro/status/2102185719024308656
“Jorge Palma deixa-nos uma obra extraordinária, feita de palavras, melodias e canções que atravessaram gerações e que ficarão para sempre na memória coletiva dos portugueses”, destacou o líder socialista. “À sua família, aos seus amigos e a todos os que com ele fizeram caminho, deixo as minhas mais sentidas condolências. Obrigado por tanto, Jorge Palma. A gente vai continuar.”
Através do Instagram, a Marinha Portuguesa partilhou uma homenagem a Jorge Palma: um vídeo com imagens de marinheiros e embarcações a navegar e uma referência aos versos de Palma “enquanto houver ventos e mar / a gente não vai parar”.
Carlos Moedas homenageia Jorge Palma citando música de Sérgio Godinho
O presidente da câmara de Lisboa, Carlos Moedas, deixou uma mensagem de homenagem a Jorge Palma que gerou controvérsia nas redes sociais — já que a única citação de uma música que incluiu no seu texto não pertencia a qualquer canção de Palma, mas sim a Sérgio Godinho.
“Hoje, Lisboa acordou mais silenciosa e com o coração mais frágil. Partiu Jorge Palma, o eterno rapaz do piano, o poeta vagabundo que fez das nossas ruas o seu palco e das nossas vidas a sua grande canção”, escreveu Moedas. “Nascido em Lisboa, Jorge Palma conhecia o pulsar desta cidade como ninguém. Dedicou-lhe acordes, madrugadas e uma honestidade desarmante que nos ensinou a rir dos dias errados e a abraçar o recomeço em cada ‘Primeiro Dia’.”
“Foi o músico de rua em Paris, o mestre do Conservatório, a voz rebelde e livre que nunca se cansou de defender a cultura e a liberdade. Lisboa chora hoje um dos seus filhos mais brilhantes, mas a sua música — essa — permanece connosco, tatuada na alma de Portugal. Hoje despedimo-nos de ti, mas guardamos a certeza de que a tua música será sempre o nosso eterno recomeço”, disse ainda.
A canção O Primeiro Dia é uma das mais emblemáticas da obra de Sérgio Godinho. Jorge Palma cantou-a com Sérgio Godinho no projeto musical Juntos, que os dois protagonizaram em 2015.
A citação de uma canção de Sérgio Godinho não passou despercebida a muitos utilizadores das redes sociais, que criticaram Moedas por esta escolha. O autarca de Lisboa defendeu-se num comentário à publicação, garantindo saber que a música é de Sérgio Godinho.
Sei bem que o "Primeiro Dia” nasceu da escrita genial do seu eterno companheiro Sérgio Godinho. Mas quem acompanhou a vida e obra de Jorge Palma sabe que o “Primeiro Dia” foi também um território de partilha inesquecível entre os dois. No histórico projeto “Juntos” e nos palcos…
— Carlos Moedas (@Moedas) September 22, 2026
“Sei bem que o ‘Primeiro Dia’ nasceu da escrita genial do seu eterno companheiro Sérgio Godinho. Mas quem acompanhou a vida e obra de Jorge Palma sabe que o ‘Primeiro Dia’ foi também um território de partilha inesquecível entre os dois. No histórico projeto ‘Juntos’ e nos palcos que dividiram pelo país, o Jorge deu voz e corpo a este tema. Usar esta expressão na nossa despedida não é um engano: é evocar a enorme cumplicidade que os unia e assinalar que hoje, no primeiro dia da sua ausência física, o legado de Jorge Palma começa a desenhar o resto da nossa vida cultural”, disse Moedas.
Menos controverso foi o voto de pesar aprovado por unanimidade esta tarde na Assembleia Municipal de Lisboa. O texto, lido pelo presidente da AML, André Moz Caldas (PS), começa por recordar como a capital “foi sempre matéria e cenário da sua obra: das ruas aos bairros, das noites à luz do Tejo, poucos autores souberam traduzir em canção a identidade desta cidade com igual verdade”.
O voto de pesar mereceu a aprovação de todas as forças políticas representadas na AML, tendo sido depois cumprido um minuto de auscultação em silêncio da Canção de Lisboa, terminando com aplausos dos deputados municipais.
“A sua obra está intimamente entrelaçada com a malha urbana da cidade, desde a poética das suas madrugadas na mítica boémia do Bairro Alto, até à consagração perante os lisboetas nos grandes palcos da cidade”, salientou a AML, recordando que o último concerto do músico teve lugar no Teatro Tivoli, em Lisboa, “um momento de partilha e de profunda comunhão com a sua cidade que agora se reveste de um significado ainda mais comovente.”
Partidos recordam “figura maior” e “voz única” da música contemporânea
Numa publicação na rede social Instagram, o Livre lembrou que Jorge Palma foi “pianista, compositor e intérprete” e “construiu, ao longo de mais de cinco décadas, uma obra singular, livre e profundamente ligada às palavras e às histórias da vida”.
“Todos guardamos alguma música dele dentro de nós, e muitas outras nos foram acompanhando ao longo da vida. Embalou-nos na palma da sua mão com um percurso marcado por álbuns que refletiam diferentes vivências e mundos, e por canções que se tornaram parte da memória coletiva de várias gerações”, lê-se na publicação.
Recordando-o como “uma figura maior da música portuguesa contemporânea”, o Livre endereçou à família e amigos “as mais sentidas condolências”.
Já o PCP republicou uma mensagem escrita na página de Instagram da Festa do Avante!, onde o músico atuou, considerando que “Jorge Palma representa de forma insubstituível muito daquilo que é o Avante!: a amizade, o amor, o toque quente da pele no verão, o cobertor de esperança para atravessar o inverno, a vida que temos e a vida que queremos”.
Numa nota enviada à imprensa, o BE classificou Palma como “um dos maiores e mais permanentes nomes da música portuguesa” com uma vida e obra que “atravessaram países, juntaram geografias, cruzaram fronteiras”.
Com “mais de meio século de canções gravadas no imaginário de várias gerações”, o BE salienta que “não é possível desligar a obra de Jorge Palma da sua leitura política e social, gravada em tantos versos de canções que acompanharam debates, conversas e lutas”.
“Assim foi também nas posições públicas que assumiu ao longo da vida, contra as guerras, pelo Serviço Nacional de Saúde, pela despenalização da eutanásia, por condições de trabalho e vida digna, sempre pela liberdade”, lê-se na mensagem, na qual os bloquistas recordam o apoio do cantor nas legislativas de 2024.
O CDS-PP escreveu na rede social X que “Jorge Palma parte, mas a sua música fica” quer “nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações”.
https://twitter.com/_CDSPP/status/2102316802592153869
“Uma voz única que deixa uma marca profunda na cultura portuguesa. À família e aos amigos, as nossas mais sentidas condolências”, lê-se na publicação.
Também o Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV) lembrou Palma como uma “referência incontornável do rock português e da canção de autor, um dos nomes maiores da música portuguesa contemporânea, erudita e popular”.
Sérgio Godinho lembra o “cúmplice”, “grande músico” e “ótimo escritor de canções”
Cinco anos mais velho que Jorge Palma, partilhando um percurso com pontos em comum e tendo colaborado em várias ocasiões ao longo da vida, Sérgio Godinho admitiu à agência Lusa que resumir uma relação com mais de 50 anos, “é sempre difícil”.
Sérgio Godinho começa por contar que Jorge Palma era “um amigo de longa data, amigo íntimo, amigo de casa”. “Ao mesmo tempo era um grande músico e um ótimo escritor de canções”, acrescentou.
A primeira vez que gravaram juntos, lembrou Sérgio Godinho, foi no tema Na terra dos sonhos, do álbum Qualquer coisa pá música, de Jorge Palma, editado em 1979. Quando se conheceram, quatro anos antes, tiveram “uma espécie de empatia logo imediata”. “Conheço o trabalho dele desde um disco já muito antigo chamado Té já [1975], onde está O Bairro do Amor, mas também outras canções importantes, e a partir daí fomos sempre acompanhando [o trabalho um do outro], até que isso culminou numa série de espetáculos que fizemos, chamados Juntos [em 2015], em que tocámos o repertório um do outro e juntámos as nossas bandas, ou pelo menos alguns elementos de cada uma das bandas, e fizemos muitos espetáculos de uma grande pujança e cumplicidade”, partilhou.
Quando alguém como Jorge Palma “se vai é uma tristeza”. “Tinha falado com ele há uma semana. É sempre uma tristeza, mas pronto, como diz a própria frase do Jorge, ‘a gente vai continuar’, não é?”, disse.
Além de um grande escritor de canções e um bom cantor, Jorge Palma era também “alguém muito disponível para os outros”, afirma. Em tantos anos de amizade, “os episódios sucediam-se”, sendo por isso para Sérgio Godinho difícil nomear um, quando lhe é pedido. “Nós éramos muito amigos, éramos cúmplices, e é esse o episódio total da nossa colaboração”, disse.
“O que hoje perdemos não é sequer do domínio do dizível”
Na página oficial de Jorge Palma no Instagram, onde a família anunciou esta madrugada a morte do cantor e compositor, multiplicaram-se centenas de reações, não só de inúmeros fãs anónimos, mas também de vários artistas e figuras públicas.
“A voz, o piano e a guitarra de Jorge Palma ainda ecoam nas nossas paredes, nas nossas memórias”, lê-se num comentário publicado pelo Coliseu do Porto. “O nosso abraço à família, amigos e a todos os profissionais que colaboravam com Jorge Palma. Será sempre um dos nomes maiores da nossa música.”
O cantor e compositor António Zambujo sublinhou a “enorme tristeza” pelo desaparecimento de Palma. Destacam-se também várias reações de figuras públicas do mundo da música, incluindo as de Gisela João, Fernando Daniel, Raquel Tavares, Selma Uamusse, Tó Trips, Áurea, Iolanda, Luís Trigacheiro e The Legendary Tigerman, que deixaram curtas mensagens de tristeza naquela publicação. Figuras públicas como Catarina Furtado, Sílvia Alberto e José Carlos Malato também deixaram reações.
Durante a emissão da Rádio Observador na manhã desta terça-feira, várias personalidades reagiram à morte de Jorge Palma. O baixista dos Radio Macau, Alexandre Cortez, recordou Jorge Palma como “um enorme poeta” do cancioneiro e sublinhou que o músico deixa “um legado importantíssimo”.
https://observador.pt/programas/resposta-pronta/jorge-palma-deixa-nos-um-legado-e-uma-marca-indelevel/
O diretor da promotora musical Everything is New, Álvaro Covões, lembrou Jorge Palma afirmando que era melhor que os Beatles e que traduzia na música “aquilo que é ser português”. Covões comparou ainda Palma ao “Cristiano Ronaldo da música”.
https://observador.pt/programas/resposta-pronta/jorge-palma-era-o-cristiano-ronaldo-da-musica/
Manuel Moura dos Santos, produtor, lembrou Jorge Palma como “uma pessoa de caráter” com quem “era fácil trabalhar”. Moura dos Santos relatou à Rádio Observador os 17 anos de parceria e a sua sólida formação ao piano.
https://observador.pt/programas/resposta-pronta/jorge-palma-era-sobretudo-um-ser-humano-fantastico/
David Ferreira, responsável pela edição de vários álbuns de Jorge Palma, recordou os problemas de Jorge Palma com o álcool e disse que, ao superá-los, o músico “foi um grande valente”.
https://observador.pt/programas/resposta-pronta/o-talento-do-jorge-e-tao-raro-que-tinhamos-de-acreditar/
Já o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria, lembrou Jorge Palma como “um homem inspiradíssimo” que cantou “o amor e a viagem”, criando canções que são “a banda sonora das nossas vidas”.
https://observador.pt/programas/resposta-pronta/jorge-palma-uma-banda-sonora-das-nossas-vidas/
Em declarações à agência Lusa, o artista João Gil recordou Palma como “um homem livre” que “representa aquilo que o Portugal democrático tem de melhor”, destacando a “pegada impressionante” que deixa na música portuguesa.
“Ele deixa um legado enorme, deixa uma pegada impressionante. No fundo ele representa aquilo que o Portugal democrático tem de melhor. Um homem livre, um homem cheio de luz, cheio de força criativa, uma capacidade incrível de escrever muito à flor da pele, mesmo no fio da navalha”, porque “o Jorge sempre esteve no limite”, afirmou. João Gil descreveu ainda Jorge Palma como um pianista “absolutamente deslumbrante”, um “cantor incrível”, com “uma voz única, uma marca e um carisma únicos, e depois uma capacidade poética e de composição e de escrita musical única e invulgar”.
Por isso, “é uma referência importante para aqueles que privaram com ele, é uma referência para todos os novos, muitos novos e os mais novos que estão a fazer música e todos aqueles que querem vir a fazer”, considerou, acrescentando que Jorge Palma “toca todas as gerações” e “fica na nossa memória”. “Ele desaparece da vista, mas deixa muito, deixa muito, muito, muito mesmo”, sublinhou.
O músico Samuel Úria, por seu turno, publicou nas suas redes sociais um vídeo com uma versão da canção “Beijos e Papas de Leite”, de Palma, com uma mensagem sobre a morte do cantor: “O que hoje perdemos não é sequer do domínio do dizível. Mas o que fica é, e será — pelo menos enquanto este país existir (e houver estrada para andar). Que miseráveis que teríamos sido sem ti, Jorge. E agora?”
Já David Fonseca assinalou que a morte de Jorge Palma representa um “dia triste para todos nós”. “A minha admiração profunda pelo Jorge Palma tem várias frentes: prodigioso compositor, letrista e intérprete, um pianista fora de série, um poeta, um observador astuto do nosso mundo, todas as qualidades que o colocam há décadas como um dos maiores músicos de sempre do nosso país”, escreveu o artista. “Mas a que eu mais admirava era a sua forma inconformada de estar no mundo, um espírito livre que não se encaixava em nenhuma prateleira possível.”
“Num mundo tão formatado como o nosso, ele seguiu o seu caminho único, igual a si próprio e a mais ninguém”, acrescentou ainda. “Privei com ele inúmeras vezes e o meu nervosismo de eterno admirador era sempre desfeito pelo à-vontade e simplicidade da sua forma de estar, a fazer-me sempre sentir um amigo de longa data. Por vezes, o nosso país consegue ter memória curta com os seus artistas, mas não no caso do Jorge. Presenciei muitas vezes o carinho e admiração absoluta que o público tinha com ele nas suas atuações e o silêncio imediato ao início de cada canção, como se não quisessem perder uma única nota do mestre. E também o aplauso ruidoso que se seguia quando parava, acompanhado de declarações de amor em alta voz.”
Também nas redes sociais, o fadista Camané recordou Jorge Palma como um “grande compositor, grande letrista, homem de cultura e da cultura, um amigo”, ao passo que Tim, dos Xutos e Pontapés, partilhou uma imagem da “derradeira vénia juntos” dos dois. Mafalda Veiga também recorreu ao Instagram para divulgar uma fotografia dos dois enquanto Palma lhe pintava a mão. “Quando fizemos o dueto Tatuagens, pintámos na mão um do outro o sol e a lua”, escreveu à agência Lusa, em referência ao videoclipe da música. Mafalda Veiga e Jorge Palma gravaram juntos Tatuagens”, música do álbum Tatuagem da cantora, editado em 1999. Mais tarde, em 2018, voltaram a gravar juntos, desta vez uma nova versão de Imortais, tema originalmente incluído no álbum Chão, da cantora.
“Escreveu e cantou a banda sonora das nossas vidas. E viveu, intensamente, connosco e entre nós, nosso cúmplice na alegria, na tristeza, no amor, na fragilidade, na companhia ou na solidão. Transformou em música cada um desses momentos e fez, com as suas canções, que todos eles fossem um bocadinho nossos também”, refere nesse mesmo texto.
Ao seu estilo barroco, Pedro Abrunhosa descreveu a “luz na música” de Jorge Palma como a “espinha dorsal deste país”, que “há-de ajudar a construir-se porque não há Portugal sem o espelho translúcido, honesto, dos seus autores”. “Nas madrugadas dos ‘80 cruzámos mãos e harmonias no piano do Hot-Club. Éramos quase adultos, a Música o nosso tecto e chão. Tocávamos, felizes, naquela cave jazzenta, para os três ou quatro resistentes que esperavam o milagre da madrugada. Depois vieram os discos, as milhares de vozes a cantar as suas músicas e eu, tantas vezes, entre elas”, escreveu o artista portuense numa publicação no Facebook.
Abrunhosa aproveitou ainda para recordar que terminou muitos dos seus concertos com “esse sublime hino que é Encosta-te A Mim”. “Não muito longe dessa original Praça da Alegria, lhe dediquei há três dias a última canção do meu concerto. Não foi premonição. Foi respeito. Pelo homem e amigo que foi e pelo músico que há-de continuar a ser. Este país não faz ideia do quanto precisa de ti, Jorge! Encosta-te a nós. E obrigado! Mil vezes, Obrigado!”, termina.
Da parte de Paulo Gonzo, partilhou uma fotografia em palco com Jorge Palma. “Hoje não perdi apenas um amigo. Perdi um irmão. Foram muitos anos de vida, de música, de palcos, de conversas, de cumplicidade. Daquelas amizades que já não precisam de explicação, porque fazem parte de nós. É difícil encontrar palavras para uma despedida que nunca estamos preparados para fazer”, lê-se na publicação feita no Instagram.
O pianista Filipe Melo fala do “enorme desgosto por ter perdido um grande músico: por saber que já não vamos ter um disco novo ou assistir a um concerto do Jorge Palma”. “Mas quando esse músico é também uma pessoa tão genuinamente boa, deixa-nos algo ainda maior — uma saudade profunda, e uma pena enorme de não estar com ele novamente”.
O guitarrista de jazz Mário Delgado, que se cruzou com o músico desde o início da carreira, lembra como “nunca deixou de ser aquele Palma ou aquele Jorge que sempre foi”: “Estávamos lado a lado, depois de um teste de som para um concerto, quando uma jornalista, no meio desse momento de consolidação da sua carreira, lhe perguntou: De que é que tem saudades? E o Jorge respondeu, sem hesitar: Dos tempos em que tocava na rua, em França”.
A historiadora Raquel Varela destaca “a criatividade e a verdadeira visão poética da vida” de Jorge Palma, “um dos mais talentosos”: “O piano, nos seus dedos, era um caudal de sons poderosos, de sensíveis melodias, uma extensão natural da sua voz grave e doce”.
O apresentador Fernando Alvim afirma, por seu lado, que a vida de Palma “é muita e [vai ser cantada] mesmo depois deste dia”, por “tudo o que fez, de uma forma tão pessoal e acutilante”.
Na SIC Notícias, o músico Jorge Fernando lembrou a obra de Jorge Palma, afirmando que o legado do músico é “imortal”.
O Museu Bordalo Pinheiro, na capital, fala da música do cantautor, “que muitas vezes é um manguito às coisas más da vida”. Por isso, “hoje, apetece-nos fazer um manguito à tua morte”, escreve nas suas redes sociais, lembrando a participação de Jorge Palma na exposição Toma! 150 anos de Zés Povinhos, inaugurada no ano passado, e para a qual o músico aceitou fazer o seu “manguito”.
O Museu do Aljube Resistência e Liberdade, em Lisboa, “presta homenagem a Jorge Palma”, que “conciliou, como poucos, a formação musical clássica e o piano com o Rock’n’Roll e a guitarra, numa sede de Liberdade que o levou à estrada”.
O museu recorda o exílio, na Dinamarca, antes do 25 de Abril, o regresso, depois, o primeiro álbum do músico, Com uma Viagem na Palma da Mão, “refletindo o seu percurso e a ambiência político-social da época”, e a sua participação no Festival da Canção de 1975 com O Pecado (do) Capital. “Livre, rebelde, hedonista e desalinhado, mas nem por isso menos mordaz ou crítico, deu sempre a sua voz pela Paz, a Liberdade, o Antifascismo e as causas de Abril”, conclui o museu, nas suas redes sociais.