Nascido em Lisboa, em 1950, Jorge Palma trocou a música clássica pelo rock no início da adolescência, acabando por se tornar num dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa contemporânea. Morreu esta segunda-feira, aos 76 anos, anunciou a família com uma mensagem nas redes sociais.
“É com profundo pesar e consternação que a família e agência de Jorge Palma informam a sua morte, ocorrida esta segunda-feira à noite, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória”, lê-se no texto.
A família recorda que Jorge Palma, com uma carreira com mais de meio século, “deixa uma obra assinalável que faz parte da história” portuguesa, bem como “muitos amigos pelo mundo, pessoas que conquistou com a sua generosidade e genialidade”.
“Neste momento de dor incalculável, a mulher, Rita Tomé, os filhos, Vicente e Francisco Palma, e os managers, André Sebastião e Tiago Branco, pedem que Jorge Palma seja lembrado pelas suas canções e palavras, agradecendo toda a amizade demonstrada ao longo dos anos”, pode ainda ler-se.
Aos 14 anos, optou pelo pop-rock: o que o movia “eram miúdas, festa, aquelas coisas”
Palma começou aos seis anos a ter aulas de música, tendo ingressado no Conservatório de Música de Lisboa aos 10. Porém, começou a tocar antes disso, em casa, onde havia um piano. “Era o meu brinquedo. Tinha bom ouvido e as coisas que ouvia na rádio e no gira-discos reproduzia-as no piano. Tinha jeito para aquilo e as pessoas repararam, a começar pela minha mãe, que também tinha estudado piano. Daí ter-me posto a estudar aos 6 anos”, partilhou numa entrevista, publicada em 2024 no site Mensagem de Lisboa.
Em 1963, ficou em segundo lugar num concurso internacional de piano, no Festival Juventudes Musicais, em Palma de Maiorca, Espanha, onde foi também distinguido com uma Menção Honrosa.
Embora a sua carreira comece a ser contada em 1972, ano em que gravou o primeiro single em nome próprio, o percurso na música começou oito anos antes, aos 14 anos, quando abandonou a música clássica para se dedicar ao pop-rock.
Na altura, o que o movia “eram miúdas, festa, aquelas coisas”. No liceu, começou “a ouvir o pop-rock, a começar por [Elvis] Presley, mas sobretudo [The] Beatles e [The Rolling] Stones”. “Aí abandonei completamente os estudos clássicos, chumbei no Liceu Camões, no 4.º ano, deixei de ir à ginástica, às aulas de piano”, recordou Jorge Palma, em entrevista à Lusa, em 2022.
“A minha mãe não tinha tempo para me dar atenção, como gostaria”, contou ao Público em 2001. “Ela coitada não sabia o que fazer. Quando um puto de 14 anos começa a levantar a garimpa, é tramado. Um gajo precisa de uma orientação. Um pulso amigo mas forte. Com carinho mas uma certa firmeza”. Após terminar o liceu, entrou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que frequentou durante apenas dois anos, até desistir.
Antes de se apresentar em nome próprio, Jorge Palma ainda fez parte do grupo Sindicato, que tocou na primeira edição do festival de Vilar de Mouros, em 1971, e dos Black Boys. Na mesma época, começou a trabalhar em composição, orquestração e gravação.
https://observador.pt/especiais/jorge-palma-disco-a-disco-as-muitas-vidas-de-um-romantico-desalinhado-contadas-na-primeira-pessoa/
O primeiro single, os eletrodomésticos e a saída “aos saltos cá para fora”
Em 1972, gravou The Nine Billion Names of God, o primeiro single em nome próprio, cujo pagamento recebeu em eletrodomésticos. O título do tema foi retirado de um conto de Arthur C. Clarke e inspirado no livro O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier.
“Gostei muito desse conto, The Nine Billion Names of God, que é um conto pequeno em que há um confronto entre a mística, o espiritualismo dos monges tibetanos, e os computadores do mundo ocidental. E consegui, num inglês ainda académico, fazer uma canção que não está nada mal feita. Tinha eu nessa altura 22 anos”, contou ao jornal Público, em 2022.
Quando quis gravar The Nine Billion Names of God e o lado B do single, Come, Morpheus, Jorge Palma foi ter com “o grande músico e maestro” Thilo Krasmann, que o gravou, cedendo espaço de estúdio para que gravasse a maquete, de piano e voz, mas “não pertencia a nenhuma editora”, recordou em entrevista à Lusa em 2022.
O músico foi então “bater à porta da Arnaldo Trindade, cujo diretor era o Carlos Cruz, que ouviu, achou piada e disse: ‘Nós pagamos-te a gravação e fazemos a gravação’”.
O pagamento chegou na forma de “uma máquina de lavar roupa e um frigorífico”. “O Arnaldo Trindade [1934-2024] tinha um negócio de eletrodomésticos”, explicou Jorge Palma, lembrando que, naquela altura, tinha acabado de se casar com a primeira mulher.
Pouco depois, em 1973, foi convocado para o serviço militar, mas decidiu abandonar o país e instalar-se na Dinamarca. Antes de partir, leiloou ‘o pagamento’ que recebeu pelo primeiro single entre os amigos.
“Consegui licença militar para sair 15 dias antes de entrar para a tropa. Quando obtive essa licença, em Setúbal, saí aos saltos cá para fora. Quem me tivesse visto deveria ter pensado que eu era maluco. Cheguei ao aeroporto com um bilhete para Londres, e de Londres viajei para Copenhaga”, lê-se na biografia oficial de Jorge Palma, Na Palma da Mão, da autoria de Pedro Teixeira.
No mesmo livro conta-se que, em Copenhaga, Jorge Palma trabalhou num hotel onde desempenhou tarefas na manutenção e lavagem dos elevadores e na limpeza dos quartos, entre outras.
O regresso, com Paris pelo meio, o conservatório e muitos álbuns de originais
Em 1974, após o 25 de Abril, regressa a Portugal, começa a trabalhar como orquestrador e, no ano seguinte, edita o primeiro álbum, Com uma viagem na palma da mão, criado numa altura em que o músico estava “muito influenciado pelo rock sinfónico, Genesis, Yes, etc.”.
“Foi sob essa influência que escrevi as canções desse álbum. Somos só três instrumentistas: Vítor Mamede na bateria, que veio do meu grupo Sindicato, Rui Cardoso, sopro, flautas e ‘saxes’, e eu toquei tudo o que era teclas, baixo, as guitarras todas. Fomos só três pessoas a fazer aquele ‘sonzão’, com a voz muito fininha, novinho”, recordou em entrevista à Lusa, em 2022.
Mas o clima não era propício a grandes ações de promoção. “Não sei se chegaram a fazer 500 cópias, provavelmente não. Ofereci muitos discos à família e amigos e não sei se terá vendido dez [risos]”, contou ao Observador em 2022. “Não houve promoção nenhuma. Estávamos em pleno verão de 1975, politicamente isto estava um olaré, ninguém tinha pachorra para andar a ouvir discos, andava tudo aos gritos na rua [risos] e a cantar na Voz do Operário e nos cantos livres por todo o lado. Na altura, praticamente ninguém me ficou a conhecer. Mas é um disco que amo profundamente.”
Ainda na década de 1970, troca Lisboa por Paris, onde toca nas ruas e no metro, cantando sobretudo Bob Dylan, Paul Simon, James Taylor, Crosby, Stills and Nash e ‘bluegrass’.
Depois de Com uma viagem na palma da mão gravou mais 13 álbuns de originais, e “cada um corresponde a um momento” da vida de Jorge Palma. “Com quem me dava, com quem vivia, o tipo de vida que levava, o que ouvia e lia, tudo isso torna cada disco único”, disse à Lusa.
https://observador.pt/2022/09/26/todas-as-vidas-podem-passar-por-uma-noite-so-com-jorge-palma/
Na década de 1980, de volta a Lisboa, retoma os estudos de piano no conservatório, que terminou em 1990. Logo a seguir, grava Só, editado em 1991, a primeira coletânea de carreira de Jorge Palma, na qual revisita, apenas ao piano, canções dos discos das duas décadas anteriores.
Jorge Palma tinha 40 anos quando gravou as 15 canções de Só, nos antigos estúdios da Valentim de Carvalho. “É um disco intimista, é um ambiente íntimo que reflete de facto o que aconteceu na escuridão daquele enorme estúdio. Reflete-se que há uma entrega grande, que há um empenho”, referiu em entrevista à Lusa em 2016.
Do alinhamento fazem parte, por exemplo, Bairro do amor (1977), Na terra dos sonhos (1980), O meu amor existe (1982), Estrela do mar (1984), Deixa-me rir (1985) e Frágil (1989).
Na altura, “a editora não estava muito abonada para um artista como eu que não é um grande vendedor de discos”, recordou. Deram-lhe a possibilidade de gravar piano e voz, e 30 anos depois ainda era abordado por pessoas que lhe elogiavam o disco.
Depois de Só, Jorge Palma passou o resto dos anos 1990 com a discografia que tinha, avançou com o Palma’s Gang (banda com Zé Pedro e Kalu, dos Xutos & Pontapés, e Flak e Alex Cortez dos Rádio Macau), fez música para teatro, fez parte do grupo Rio Grande, compôs para outros, até editar um novo álbum de originais, É proibido fumar, em 2001.
Seguiram-se Norte (2004) e Voo nocturno (2007), este último com a incontornável Encosta-te a Mim, canção que começou por desvalorizar. “Eu às vezes mostrava-a por brincadeira ao Rui Veloso, ao Tim, ao Vitorino, ao João Gil. E quando dizia ‘isto é uma baladazita’, e tal, eles diziam-me: estás maluco pá! Tens de meter essa merda! E eu: ok…”, recordou ao Observador em 2022. Curiosamente, no ano seguinte, 2008, havia de casar-se em Las Vegas tendo essa “baladazita” como banda sonora. “Essa música foi a entrada da noiva, foi”, contou então.
Foi preciso chegar a 2011 para que editasse um novo disco, Com todo o respeito. Sobre ele diria: “Não acho que seja um disco muito brilhante comparado com os outros. Mas tem canções porreiras”.
O álbum mais recente, o derradeiro, Vida, foi editado em 2023. “Andei muito tempo à procura de um título para este disco e não encontrava nada de significativo. Durante as gravações do disco, depois de já ter gravado várias canções, lembrei-me de uma canção que tinha escrito antes de entrar em estúdio e que estava incompleta. Esta canção chama-se Vida. Terminei-a e percebi que fazia todo o sentido dar o seu nome a este disco”, disse o músico na altura da edição do álbum. É deste que faz parte também Canção de vida, que oferecera a Carlos do Carmo (“demorei 20 anos mas consegui”, diria). “Tinha ficado de escrever, para este disco, uma canção só piano e voz. Cheguei a fazer umas tentativas, mas depois pensei: escrevi aquela, que me saiu muito bem, para o Carlos do Carmo, que a gravou e infelizmente já não pode voltar a cantá-la. A canção é boa, então porque não gravá-la?”, disse ao Público.
Em maio de 2025 estreou o espetáculo “3 palmas na mão”, no qual se apresentava em palco com os dois filhos, Vicente Palma, nascido em 1983, e Francisco Palma, nascido em 1995.
O título do espetáculo começou por ser o nome do grupo de Jorge Palma e filhos na plataforma WhatsApp, antes de se transformar numa canção incluída no álbum Vida e ganhar depois a forma de um concerto. Vicente Palma faz parte da banda que acompanha o pai há cerca de 20 anos.
Sobre os filhos, Jorge Palma disse, numa entrevista ao Mensagem de Lisboa, em 2024, que “têm vozes muito fixes, são muito afinados: o Vicente mais piano do que guitarra, o Francisco mais guitarra do que piano. Escrevi o Três Palmas na Mão, que em estúdio fomos nós três a tocar, cada um com a sua guitarra, guitarras e voz”.
https://observador.pt/especiais/a-historia-de-so-o-album-classico-de-jorge-palma/
“Malta, mãos à obra, vamos fazer deste país uma coisa que merece ser, melhor”
Jorge Palma venceu o Prémio José Afonso, em 2002, com Jorge Palma, e a primeira edição do Prémio Pedro Osório, da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2012, com o álbum Com todo o respeito.
Em 2020, Jorge Palma recebeu a medalha de mérito cultural da Câmara Municipal de Lisboa, no final de um concerto de celebração dos seus 70 anos, e foi condecorado pelo então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
Em abril de 2026, foi distinguido com o Prémio Carreira do 8.º PLAY – Prémios da Música Portuguesa, decidido pela direção da Audiogest, que gere e representa os direitos das editoras multinacionais, nacionais e independentes.
Na cerimónia dos prémios, visivelmente surpreendido, de cravo vermelho ao peito, Jorge Palma começou por agradecer a todos aqueles que ao longo da vida o ajudaram, nomeadamente “aos profissionais do SNS que fazem tudo com os poucos meios que têm”.
Na mesma ocasião, apelou a que não se deixe que o 25 de Abril de 1974 “se torne uma memória distante, uma imagem a desvanecer-se lá longe”. “Temos de reinventar o espírito de Abril, sempre. Liberdade, justiça, democracia. Malta, mãos à obra, vamos fazer deste país uma coisa que merece ser, melhor. Viva o 25 de Abril, viva a Liberdade, viva a Democracia!”, afirmou.
https://observador.pt/especiais/jorge-palma-disco-a-disco-as-muitas-vidas-de-um-romantico-desalinhado-contadas-na-primeira-pessoa/#title-0
Se é certo que Palma tem canções com apontamentos diretamente políticos, escapou à tentativa de consciencialização ideológica diretamente pela música. Sobre isso disse em 2022: “Mesmo nos cantos livres, naquelas coisas todas da Voz do Operário, por todo o lado, nunca escrevi nem alinhei em músicas panfletárias. Nunca me passou pela cabeça pertencer a um partido. Eu costumava dizer que era um individualista romântico [ri-se]. Se isso vem do Dylan, da ideia de não querer ser porta-voz de nada nem de ninguém? O Dylan foi uma espécie de guia para mim, sim, de cicerone. Eu tinha, sim, um lado mais anarca.”
“O meu corpo tem resistido de uma forma que ninguém sabe explicar”, dizia em 2019
Eterno viajante, com aura de anti-herói e fama de boémio, assumia numa longa entrevista ao Observador, em 2019, “Tenho desafiado a morte de uma forma completamente louca”. “O tabaco e o álcool, vinho e cerveja, vêm de um grande esforço que fiz aos 13 ou 14 anos para ser um homem. O meu organismo rejeitava o tabaco, o vinho, a cerveja. Foi muito complicado mas consegui. Eu consegui ser um homem [pausa]. Consegui fumar e beber de tal forma que a bebida e o tabaco tornaram-se um problema para mim. O álcool está basicamente afastado, mas não consigo deixar de fumar”, recordava.
Dizia que o seu corpo “tem resistido de uma forma que ninguém sabe explicar, quase como o Keith Richards. Ainda agora fiz análises a tudo e os pulmões estão um bocado chamuscados, mas estou aí para as curvas”. Dizia-se com vontade de viver “em boas condições” o mais possível, “até 2050 ou qualquer coisa assim”.