Entre a candura e o desconcerto, ao cair das 367 páginas de “O Canto do Cisne – Diana, a minha irmã”, é difícil apurar se o veredicto potenciado por Charles Spencer beneficia a memória da antiga princesa, ou se pelo contrário o requinte tabloidesco de vários episódios narrados serve apenas para perturbar mortos e comprometer vivos, nomeadamente uma família real que num raro passo chegou já a responder às setas atiradas pelo autor. “Tem mesmo muita sorte…sabe, por herdar quando ainda é tão jovem”, terá dito o príncipe Carlos em abril de 1992, no dia do funeral do pai de Spencer, quando o acompanhou até à mansão de Althorp, para choque do autor, que alude aos ressentimentos crónicos do agora Rei, recordando o fel de uma deixa da rainha. “Ele fica ressentido com tudo, até ficou ressentido quando lhe ensinei o alfabeto”, terá respondido Isabel II a um alto funcionário no regresso de uma missão com o príncipe de Gales.
O nível de detalhe, e o seu gosto discutível, estende-se a apreciações de teor físico sobre o então herdeiro do trono britânico. “Diana fez-me outra revelação que achei ainda mais estranha. Ao que parecia o príncipe Filipe ter-se-á inteirado de que a rainha estava a ponderar pedir a um médico que corrigisse ligeiramente as orelhas de Carlos. A sua proeminência tornara-o alvo de troça na escola e levara-o a ser ridicularizado nos meios de comunicação social”, descreve ainda Spencer sobre esses anos em vésperas do noivado do casal. O amargo de boca do autor do livro em relação a Carlos III não fica por aqui, partilhando como o marido de lady Di estaria apaixonado pelo seu criado particular, motivo segundo o qual Diana contou ao irmão num almoço no San Lorenzo que se ia divorciar.
De imagens únicas de infância aos muitos planos da princesa depois da separação, sem esquecer o mediático funeral, destacamos algumas das passagens que prometem agitar mais as águas quando a obra chegar às livrarias esta terça-feira, com o selo da Penguin.
A afinidade histórica entre os Spencer e os Windsor – e como Carlos e Diana podiam nunca ter existido
Spencer frisa que uma das marcas mais associadas à irmã é o facto de se ter convencionado a crença de que teve uma infância infeliz, algo que o autor do livro contesta. O conde não deixa contudo de oferecer um retrato expressivo dos primeiros anos de Diana e dos irmãos, onde as boas memórias em Park House, a morada da família – excetuando as duas “amas violentas que infligiam castigos corporais e a mim e a Diana, que os nossos pais desconheciam e que nunca nos ocorreu denunciar” –, contrastam por exemplo com o divórcio dos pais e a ausência precoce da mãe de casa. Segundo Spencer, a morte praticamente à nascença de John, o irmão nascido em 12 de janeiro de 1960 com “graves malformações”, precipitou o desfecho da união, consumada anos mais tarde. “A rutura deu-se em 1966 durante umas férias na neve com mais dois casais. A minha mãe e um dos maridos do grupo, Peter Shand Kydd, apaixonaram-se”.

O afastamento materno terá tido um efeito duradouro na prole. Uma das empregadas tentava confortar Diana dizendo que a mãe, Frances, haveria de voltar para casa, levando-a a sentar-se à porta de casa, numa longa espera em vão. Creio que Diana jamais perdoou à minha mãe o que considerou ser uma desilusão devastadora”.
Spencer enquadra ainda o extenso vínculo entre dois clãs hoje em rota de colisão e traça uma linhagem feminina que com Diana partilhou várias dores de crescimento. “Depois de Wormleighton ter sido severamente destruída durante a Guerra Civil inglesa, em meados do século XVII, Althorp tornou-se a sede da família Spencer. A partir deste local, implantado num parque com mais de 200 hectares, lançaram ao mundo uma sucessão de filhas deslumbrantes”, gaba Spencer. Antes de chegarmos à sua irmã, recua a outra lady Diana Spencer, a mesma que em 1731 foi preparada para casar com outro príncipe de Gales, 250 anos antes de Di e Carlos trocarem alianças na catedral de São Paulo, em Londres. Recorda ainda Georgina Spencer, que se casaria com o aristocrata duque de Devonshire e que nesse final do século XVIII se tornaria alvo de uma imprensa em ascensão.
Os deveres com a Coroa e a Pátria eram dedicação constante da família, nota o autor, cujo avô, ferido na I Guerra Mundial, serviu como representante da rainha na qualidade de Lord Lieutenant em Northamptonshire, após o conflito. Já o seu pai, avança Spencer, serviu o rei Jorge VI como ajudante de campo, mantendo-se em funções no reinado de Isabel II. É aqui que acrescenta uma das mais inesperadas revelações. “A rainha e o cortesão tiveram uma relação romântica que foi interrompida por lorde Mountbatten”, garante. “Ele mandou chamar o meu pai e comunicou-lhe que quaisquer intenções que acalentasse de conquistar a afeição da rainha estavam fora de questão.”, acrescenta, admitindo que Mountbatten estivesse a abrir caminho para o sobrinho, o príncipe Filipe. “Este romance real e o seu desfecho foram mantidos em absoluto segredo no seio da família”.

O irmão de Diana aponta ainda uma “ironia”. “Se o romance incipiente entre o meu pai e a rainha tivesse evoluído até terminar em casamento, Diana (e o príncipe Carlos), nunca teriam nascido. Facto é que os irmãos manteriam desde cedo uma ponte com o clã real. Dada a proximidade de Park House com Sandringham, “víamo-los de tempos em tempos”. O contacto com a realeza era ”escasso” mas as crianças cruzavam-se em lanches de aniversário. De resto, os pais Spencer conseguiram padrinhos reais para três dos filhos, “a rainha mãe para Sarah, o duque de Kent para Jane, e a rainha para mim.” “Não há dúvida de que Diana compensou a lacuna”, escreve ainda o autor.
A “fantasia adolescente de André” e as dúvidas sobre o casamento com Carlos
Segundo Spencer, Diana estaria realmente apaixonada por Carlos quando se casou; era aliás seu desejo, para evitar o mesmo destino dos pais, selar “um casamento por amor”. O autor recorda como se conheceram mas também as primeiras dúvidas de lady Di, e ainda o omnipresente fantasma de Camilla, enunciado em vários momentos no livro que decalcam retalhos da série The Crown (incluindo a pulseira que Carlos terá oferecido a Camilla, ou a confissão de que estava contente por casar-se com Diana mas nem por isso apaixonado pela jovem).
Se o acesso a um certo círculo da família real ao longo dos anos 80 e 90 talvez permitisse ter uma opinião sobre escândalos que entretanto estouraram, como as ligações de André com Epstein, nem por uma vez o nome é mencionado. “Poucos meses após o anúncio de noivado de Diana, recebi um convite para a festa do vigésimo aniversário do príncipe André.” O cenário de Windsor recebeu 650 convidados para um evento que Spencer, que na altura deixou por momentos “a monotonia de Eton”, descreve como aquilo que “parecia uma fantasia de adolescente da década de 1980, organizada por uns colegas de André em Gordonstoun. (…) Luzes psicadélicas eram projetadas nos tetos e nas paredes, enquanto uma camada de gelo seco se espalhava pela pista de dança em nuvens ondulantes”.
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Mais uma ironia do destino: o espectáculo musical ficara a cargo de Elton John, que interpretou Candle in the Wind, tema que seria revisto e reinterpretado no funeral da princesa. Nessa festa, Diana aguardava com ansiedade o reencontro com Carlos, que estivera ausente em Nova Iorque, mas “ele, porém, demonstrara pouquíssimo interesse nela”. “Logo após aquela noite de angústia crescente, Diana foi falar com o meu pai. Disse-lhe que não podia avançar com o casamento com um homem que claramente não a amava.” Mas, notou o pai, já não era possível “recuar”, dado o estado avançado do compromisso.
Dodi, do favor cobrado a instrumento de ciúmes — e o médico com quem Di queria viver na África do Sul
A relação doméstica dos irmãos Spencer foi abalada pela entrada no clã da nova mulher do pai, Raine, com quem os filhos tiveram uma assumida relação atribulada, acusando-a de oportunismo sobretudo no rescaldo da morte do marido, John Spencer, em 1992. Ironicamente, será Raine, que “Diana detestava”, a apresentar Dodi à princesa. Segundo Spencer, Raine, que conhecia Mohamed Alfayed, o dono do Harrods, conseguiu um lugar na empresa em troca de apresentar a antiga princesa ao filho do milionário. “Ela e o meu pai conheciam Mohamed, então considerado controverso, mas agora, comprovadamente, um predador sexual à época, e Raine conseguira um cargo de direção nos armazéns Harrods, após a morte do meu pai. Fayed, astuto, sabia qual o preço que cobraria pelo seu ato de amparo.”. De acordo com o autor, Diana não gostava de Mohamed, que chegara a apalpar-lhe as nádegas enquanto dizia com tom sugestivo: “No Egito, o sogro tem direito à primeira…”

Num certo exercício pomposo, boa parte do texto de O Canto do Cisne gira em torno do discurso proferido pelo autor na cerimónia fúnebre da irmã em 1997, na abadia de Westminster, “O assessor de imprensa de Tony Blair, Alastair Campbell, registou no seu diário desse mesmo dia antes do funeral, 5 de setembro. ‘Piers Morgan [à época do Mirror] ligou-me e pediu-me para fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para impedir que Charles Spencer atacasse a imprensa”. Campbell não o fez, mas de qualquer forma o mal já estava feito. Resta saber que dirá Morgan depois de ler a obra.
Spencer regressa ainda aos rascunhos, hesitações e até omissões em retrospetiva. O conde revela por exemplo que na sua primeira versão esteve para incluir uma “breve referência” a Dodi, já que apesar de até à altura não passar de um namoro de verão de Diana, tinha feito a princesa feliz nas “derradeiras semanas da sua vida”. “Não me lembro do que me levou a eliminá-la mas não foi por ter algo de pessoal contra ele: não cheguei a conhecê-lo, mas ouvi dizer que era um homem simpático que tratava bem Diana”, admite o autor, lamentando a omissão mas acrescentando mais camadas à história. “Hoje, penso que fiz mal em eliminar o seu nome do meu discurso. Devia tê-lo deixado ficar, embora considere que o mais provável é que nunca se tivessem casado. Sempre achei que o caso com Dodi teve origem no desejo de Diana de causar ciúmes a outro pretendente – que ela amava profundamente.” De quem se trata? Fica por revelar.
Como Bashir alimentou a paranóia de Diana — que não descartava ser primeira-dama dos EUA
Spencer não chega a identificar nenhum dos supostos pretendentes ou parceiros da princesa mas deixa pistas que servem no mínimo para desatar a caça dos mesmos tabloides que condena. E para expor alguma inocência e vulnerabilidade da irmã numa agitada fase depois da separação, quando deixou de gozar de proteção oficial e continuou a ser o mais apetecível objeto dos fotógrafos.
Desse período, já nos anos 90, Spencer recorda a preocupação social de Diana, envolvida em campanhas várias, dos sem-abrigo à lepra. “Quem sabe até onde a poderia ter levado?”, especula o autor, “Talvez até uma incursão na política, que até então evitara”. Segundo Spencer, depois de se separar a irmã chegou mesmo a perguntar-lhe: “Carlos, achas que daria uma boa primeira-dama norte-americana?”. Perante a surpresa de Spencer, Di explicou-lhe que “um dos muitos pretendentes norte-americanos mais velhos e poderosos, ambicionando tê-la como a derradeira esposa troféu, lhe dissera que tinha a certeza de que ganharia as eleições presidenciais se ela se casasse com ele.”

O irmão da princesa recupera também um caso mais público: o assédio orquestrado pelo jornalista da BBC Martin Bashir que, contra todas as apreensões de Spencer, haveria de persuadir Diana a dar a controversa entrevista no Panorama. “Tal como faria mais tarde com Diana, Bashir estava a montar um cenário em que os ‘maus’ começavam a apertar o cerco e ele era a única pessoa de confiança para lhes fazer frente”.
Entre outras acusações numa trama que haveria de ter ecos até recentemente, o jornalista tentou convencer Diana de que um membro da realeza era homossexual e portador de Sida, e que o filho William, com treze anos, carregava consigo, sem saber, um dispositivo de escuta instalado no seu relógio, agravando os graus de paranoia e perseguição alimentados pela princesa. “Continuo a ser da opinião de que podemos ir mais além e estabelecer uma ligação direta entre esta entrevista do Panorama e Diana ser conduzida pelo motorista de Mohamed Alfayed, Henri Paul, em Paris, na noite de 31 de agosto de 1997. Uma das vítimas das mentiras do Panorama foi o motorista particular de Diana, falsamente acusado por Bashir de ser um informador contra ela. O homem, inocente, perdeu o emprego.”
Foi na Cidade do Cabo, onde tem casa, que o irmão de Diana soube da morte da Princesa do Povo, o mesmo povo que impediu um modesto e restrito funeral privado, como era desejo da família. Diana, que considerava a vida no Reino Unido “intolerável”, tê-lo-á visitado não muito antes do trágico desfecho, deixando para trás uma legião de projetos, sobretudo impossíveis, ou pelo menos altamente improváveis. “Depois de deixar de ser futura rainha, Diana começou a tecer sonhos ingénuos, mas impossíveis, de como poderia ser a sua vida – a fantasia da casa com jardim foi um bom exemplo disso”, recorda o irmão. “No mais recente desses cenários fantásticos, Diana esperava que o seu amor pudesse trabalhar no hospital Groote Schuur, a poucos quilómetros da minha casa”. Ao contrário das expectativas, ou desejos, iniciais, o assédio dos paparazzi chegaria à África do Sul inviabilizando os planos (já esta semana, Spencer compararia a cobertura mediática à dos Sussex, numa entrevista à BBC).
De caminho, Diana cumpriu o desejo de conhecer o presidente Nelson Mandela, com quem estabeleceria estreita relação. Segundo Spencer, Mandela esteve em Althorp em 2002, no memorial da princesa, para uma derradeira homenagem. Podia ter escrito um livro sobre as suas memórias com Diana. Preferiu plantar uma árvore no local.