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A Segunda Guerra Mundial que se lutou em Portugal: como Aliados e nazis disputaram o país com propaganda

Exposição do arquivo Ephemera, com quase 600 peças, incluindo revistas falsificadas e postais satíricos, mostram como Portugal foi palco de uma batalha de propaganda durante o conflito.

António Moura dos Santos
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João Porfírio
photography

De um lado, um Winston Churchill caricatural, de semblante derrotado, senta-se sobre a campa do Império Britânico enquanto é banhado por um sol marcado por uma suástica. Do outro, um boneco do icónico governente inglês encara-nos com um olhar confiante com esse mesmo símbolo nazi tatuado nos genitais, metáfora satírica do recuo alemão face ao avanço inglês. Estes são dois exemplos contrastantes com o mesmo fim — produzir propaganda durante a Segunda Guerra Mundial — mas têm algo muito específico que os reveste de especial interesse: foram concebidos para influenciar o povo português.

Portugal foi dos poucos estados a manter a neutralidade quando quase todo o mundo se precipitou para o maior conflito da história da humanidade, mas isso não quer dizer que o país não tenha sido um campo de batalha da semântica e da retórica pela conquista da opinião pública. Com abertura ao público esta terça-feira, 22 de setembro, no Parque Empresarial do Barreiro, a exposição A Outra Guerra, Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial, organizada pelo Arquivo Ephemera, espelha esse esforço em quase 600 peças originais.

Na azáfama dos últimos preparativos, José Pacheco Pereira explica numa visita guiada ao Observador que, no arquivo que gere, um dos maiores de natureza privada do país, reside uma “grande coleção de material da Segunda Guerra Mundial”. Desse manancial de fontes documentais foi escolhida “uma pequeníssima parte” para esta exposição com “um aspeto em comum: salvo uma ou outra exceção, está em português e foi feito para Portugal”.

“A primeira coisa que me surpreendeu foi a importância que Portugal tinha na propaganda, quer dos Aliados quer das potências do Eixo”, afirma o fundador da Associação Cultural Ephemera. Esse foco na “conquista das almas” portuguesas — como o também historiador descreve no texto introdutório desta mostra — está bem patente nos materiais que é possível ver espalhados por várias mesas.

Em alguns núcleos, o foco de postais, panfletos, livros e cartazes está em destacar o desenvolvimento económico e social dos respetivos lados; noutros, o intuito é de valorizar as mais recentes conquistas, especialmente por meio de revistas militares de grafismo triunfal. Uma das mesas é dominada por loas panegíricas aos “Senhores da Guerra”: Roosevelt, Churchill, Hitler — todos menos Estaline, por razões que mais à frente ficarão bem claras. Noutra podemos atentar em como alguns dos principais discursos destes líderes foram transcritos, traduzidos e comercializados em Portugal.

“Quando começamos a ver a importância desta coleção, começámos a perceber padrões e achámos que a exposição podia revelar esses padrões e, portanto, acrescentar alguma coisa ao conhecimento histórico desta época”, afirma Pacheco Pereira. Dessa forma, fica claro que o foco inglês está em destacar “a ideia de estabilidade política associada à família real, que aparece, aliás, fardada e associada às iniciativas de guerra”. Já os americanos distinguem-se ao fazer sobretudo “o elogio da sua própria democracia” contra o totalitarismo. “São os defensores da liberdade em todo o mundo e, portanto, têm uma propaganda politicamente diferente dos ingleses”, conta.

Já o lado alemão, continua Pacheco Pereira, “abrange aspectos muito mais variados do que a propaganda dos Aliados”. “Não é uma mera propaganda de guerra, há muita importância dada aos feitos civis, ao papel dos operários e à capacidade que o regime tinha para lhes dar uma boa vida”, fazendo-o sobretudo em contraponto ao que denunciavam como a “miséria do bolchevismo” existente na União Soviética. Essa defesa da superioridade germânica, aponta, também se vê nos materiais onde se destaca a robustez da economia alemã perante as tentativas de bloqueio comercial britânico. No lado inglês, aponta-se sobretudo para as perdas humanas e materiais dos nazis.

No decurso da visita, o responsável pela Ephemera explica que a grande maioria destes materiais foi produzida ou encomendada pelas embaixadas e delegações das potências beligerantes, muitas vezes aproveitando as mais recentes novidades do conflito para reforçar o seu esforço propagandístico. Uma das mesas demonstra este aspeto com exemplos do final da guerra: se os nazis começaram a produzir materiais a denunciar o massacre de Katyn — no qual os soviéticos executaram milhares de oficiais polacos em 1940 —, os Aliados aprontaram-se a demonstrar os horrores do Holocausto ao divulgar as valas comuns dos campos de concentração que foram libertando e que ainda não tinham sido destruídos, como em Dachau ou Bergen-Belsen.

A velocidade de circulação da informação foi igualmente aproveitada com os avanços tecnológicos da rádio. O cartaz desta exposição, frisa Pacheco Pereira, alude precisamente a esse combate propagandístico, retirado de uma capa de uma revista alemã em que as ondas saídas de dois transmissores confrontam-se. Se a BBC “fazia muita publicidade em português” e começou a implementar “técnicas de propaganda cinzenta”, os alemães “faziam publicidade mais negativa, denunciando as fake news da BBC e a falta de liberdade que havia na imprensa francesa e inglesa”.

Do alinhamento fascista aos ressentimentos britânicos

Em conversa ao Observador, José Pacheco Pereira faz uma admissão curiosa, relacionada com o facto de o espólio da Ephemera já contar com seis quilómetros de estantes divididos por vários armazéns: “A qualidade tem melhor imprensa, mas o que nos permite fazer coisas deste género é a quantidade”. Serve esta declaração para explicar que, ao percorrer toda a coleção destinada a esta mostra, apercebeu-se que “a propaganda produzida não é equilibrada”. “Há muito mais propaganda alemã, quase que não há italiana e há depois um núcleo muito importante de propaganda da Inglaterra e dos Estados Unidos e muito pouca coisa da França”, afirma.

De todos os conjuntos de materiais exibidos em A Outra Guerra, talvez o mais fascinante seja aquele em que a propaganda apresentada é produzida pelos próprios portugueses. É aí, ao ler títulos como “Porque Admiro a Alemanha” (de Holbeche Castelo Branco) ou “Acuso a Inglaterra!” (de Afonso de Albuquerque), que fica bem aparente que a maior parte das simpatias do Estado Novo residia no Eixo.

Dada a natureza firmemente anti-comunista do Estado Novo, não é surpreendente a ausência de materiais de propaganda soviética disseminados neste período, já que eram prontamente intercetados pela censura. No entanto, visto que o regime decalcou a sua tendência conservadora e autoritária mais ao estilo do fascismo de Mussolini do que do nazismo de Hitler, não deixa de ser curioso haver muito mais material propagandístico germânico do que italiano, até porque a Salazar nunca agradou “a coreografia” dos nazis em volta de tendências paganistas.

“Não aparece nada significativo de Itália. Até alguma propaganda italiana que nós temos aqui surge em revistas alemãs, não propriamente em revistas italianas”, revela Pacheco Pereira, adiantando que a questão terá a ver sobretudo com a capacidade superior do regime nazi de produzir propaganda face ao fascismo romano.

Um exemplo dessa sofistificação, aponta, é como os nazis se serviram da história recente entre Portugal e Inglaterra para produzir propaganda anti-britânica especificamente moldada aos ressentimentos portugueses. “Os alemães usam a nossa história, principalmente o Ultimato Inglês, e apresentam a Inglaterra como um país esclavagista, que cometeu massacres nas suas colónias, como no Egipto”, sublinha. Além disso, começam também a produzir textos que “podiam ser lidos hoje sem que as pessoas identificassem a origem”, já que denunciam “o imperialismo britânico” na sua “exploração colonial e económica, nas violências sobre os nativos no racismo”.

Em simultâneo, o regime nazi começou também a desenvolver técnicas inovadoras de propaganda tendo Portugal como alvo, como o financiamento de um selo editorial, a Editora Alma, onde alguns dos autores portugueses acima mencionados, “profundamente anti-ingleses e inteiramente a favor dos alemães”, publicavam as suas diatribes. Ou na forma como “produziram números falsos da revista da Marinha inglesa, a Neptuno, onde a capa era igual, mas abria-se e era só navios ingleses e americanos a ser afundados”. Este tipo de contrafação contrastava com as queixas da natureza injuriosa dos Aliados, como quando, perante uma notícia de que Hering Goering tinha perdido as pernas num ataque, criaram um postal onde se lia um provérbio bem português: “mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo”.

Entre doações e alfarrabistas, como se montou o acervo

Visto que o Arquivo Ephemera nasceu do seu próprio espólio pessoal que foi construindo ao longo dos anos, José Pacheco Pereira já tinha alguns materiais portugueses alusivos à Segunda Guerra Mundial antes de se lançar nesta empresa. No entanto, desde então, a coleção “rapidamente cresceu”, fruto de doações e compras em leilões e alfarrabistas.

O mais fácil de encontrar, conta, foram as diversas revistas. A Guerra Ilustrada e o Em Guarda, do lado dos aliados, assim como as alemãs A Esfera e O Sinal “eram muito populares” e, portanto, “muito fáceis de encontrar num espólio que tenha uma representação significativa dos anos 40”. O desafio recaiu, na verdade, nos pequenos materiais avulso, como os postais. Nesse caso, foi particularmente proveitoso receber doações relativas a ambos os lados do conflito.

Do lado dos Aliados, por exemplo, a Ephemera recebeu “o espólio de uma família aqui do Barreiro que tem uma grande coleção de materiais sobre Timor”, sendo que “essa família tinha várias gerações e um dos membros tinha sido o primeiro comandante militar de Timor em 1945, com a saída dos japoneses, e portanto vem muito material do Oriente” e, relativamente à guerra, “material essencialmente pró-inglês”.

Já do lado do Eixo, Pacheco Pereira dá o exemplo de quando, há poucos anos, recebeu o telefonema de um enfermeiro a trabalhar num lar, sinalizando que estava a cuidar de um casal que lhe tinha pedido para entrar em contacto com a Ephemera porque tinha “um grande espólio da guerra, no Norte do país”. “Nós fomos, falámos com os senhores e o espólio era de uma senhora alemã e, portanto, tinha essencialmente material pró-alemão” revela.

Têm sido doações desta natureza o que tem permitido à Ephemera continuar a crescer e a adicionar quilómetros às filas de estantes que o Observador viu na sua visita aos arquivos. No entanto, não obstante o incremento de espaço que esta associação cultural tem vindo a receber por parte da Arco Ribeirinho Sul, que gere o Parque Empresarial do Barreiro, A Outra Guerra vai ocupar um outro local novo, a inaugurar com esta mostra: chama-se Armazém 150 e vai incluir ainda uma outra exposição a abrir ao público também esta terça-feira: O Som é Silêncio, do 18—25 Research Studio, coletivo responsável por parte dos conteúdos apresentados no pavilhão português na Bienal de Arquitetura de Veneza 2025.