Dmytry mora na região de Moscovo. Ao jornal Meduza, contou que já tem um plano montado para fugir da Rússia nos próximos tempos. “Preparei os meus documentos. Tenho o meu curso homologado e traduzido e obtive um segundo passaporte. Também tenho um cartão bancário estrangeiro. Se decidir sair, não tenho muito tempo”, relatou o homem na casa dos 30 anos, acrescentando que “não sabe” ainda para onde fugir. A Arménia é um destino em cima da mesa, mas ainda está a estudar outras possibilidades.
O que motivou Dmytry a preparar-se para uma eventual fuga? Um possível recrutamento massivo de homens para irem para a linha da frente na Ucrânia. “Inicialmente, quando ouvi os rumores de mobilização em maio e junho, não os levei a sério. Mas isso mudou. O meu empregador contratou um advogado militar para me aconselhar a mim e aos meus colegas. A conclusão é que ninguém está a salvo da mobilização. Eu nunca servi nas Forças Armadas, tenho mais de 30 anos e nem sequer estou na reserva, mas estou em risco.”
Tal como Dmytry, muitos russos estão a abandonar o país com o receio de algo que o Kremlin publicamente já negou. A 3 de setembro, Vladimir Putin assegurou que não haverá nenhuma vaga de mobilização massiva. O chefe de Estado da Rússia justificou os rumores como um “ataque informacional do inimigo” antes das eleições legislativas, de forma a “influenciar o resultado”. No entanto, muitos jovens não confiaram nesta garantia do Presidente e estão a fugir para países como a Arménia, a Geórgia ou a Sérvia, que ainda mantêm relações e voos diretos com várias cidades russas.

Neste domingo, os russos foram às urnas. O partido do Presidente, o Rússia Unida, obteve o seu melhor resultado de sempre. Numas eleições amplamente controladas pelo regime e em que a oposição esteve praticamente ausente, Vladimir Putin obteve uma vitória política previsível, alcançando mesmo uma votação recorde. O ex-chefe de Estado e atual líder partidário, Dmitry Medvedev, declarou que o resultado aproxima o país “da vitória” na Ucrânia. Dito de outro modo, Vladimir Putin poderá usar o sucesso eleitoral para demonstrar que os russos apoiam a ofensiva no país vizinho — e que estão dispostos a fazer sacrifícios por isso.
De onde surgiu o medo da mobilização? As notificações suspeitas
Nos últimos meses, milhares de russos começaram a receber intimações de postos militares para comparecerem e atualizarem os seus dados pessoais. Desde o início da invasão da Ucrânia, a Rússia continua com esforços de mobilização anuais, mas são maioritariamente de cariz voluntário. Muitos jovens — principalmente do leste da Rússia e de regiões mais recônditas — vão para a linha da frente atraídos pelas vantajosas condições financeiras. Já nas grandes zonas urbanas, mais prósperas e com uma forte classe média, o impacto do recrutamento tem sido significativamente menor.
No entanto, a chegada destas notificações nos portais estatais reforçou os medos de uma mobilização. Por exemplo, Sergei contou à Deutsche Welle que um “dos seus amigos, um professor, recebeu uma intimação através do portal dos serviços governamentais no dia 9 de julho para atualizar os seus registos”. Este tipo de convocação era até então procedimento incomum. E isso fez soar os alarmes: para muitos russos, a atualização da documentação levará a uma nova vaga de mobilização militar.

Atualmente, como explica a Bloomberg, existe uma plataforma online em que são publicados os nomes dos cidadãos obrigados a atualizar os seus dados militares. Muitos recebem um e-mail ou uma notificação, que são considerados legalmente entregues sete dias após serem recebidos. A partir desses sete dias, entra em vigor uma proibição automática de saída do país — mesmo que a pessoa não tenha tido conhecimento de que está nessa situação. A partir daí, o cidadão dispõe de um prazo de vinte dias para comparecer num centro de recrutamento. Se não o fizer, sofre penalizações imediatas: fica impedido de obter empréstimos bancários, comprar ou vender casas, conduzir e usufruir de diversos serviços públicos.
Esta convocação não é apenas uma mera atualização de dados pessoais: detalha também os procedimentos a adotar em caso de mobilização. Em declarações à Euronews, Daniil Neonov, que se candidatou ao parlamento regional de Moscovo no passado, indicou como conseguiu escapar por pouco após receber a intimação: “Se eu tivesse esperado mais um ou dois dias, provavelmente não me teriam deixado sair, porque teriam bloqueado a minha saída. Recebi a intimação eletrónica, mas ainda consegui sair”, disse o político.
Neste contexto, é natural que se comece a gerar o pânico na Rússia. Mesmo com a mensagem tranquilizadora de Vladimir Putin, os jovens adultos começaram a entender que correm o risco real de acabar na Ucrânia. E muitos lembram-se das declarações dos dirigentes do Kremlin antes de 24 de fevereiro de 2022, quando vários políticos garantiam que a Rússia nunca invadiria a Ucrânia.
Daniil Neonov ainda conseguiu escapar graças a essa janela de sete dias, mas nem todos têm a mesma sorte. E o receio de ser enviado para a Ucrânia já não afeta apenas os cidadãos comuns: começou a atingir as próprias chefias militares. Segundo apurou a Bloomberg, várias altas patentes das Forças Armadas e do setor da Defesa estão a começar a abrir contas em bancos estrangeiros e a transferir os seus investimentos para fora da Rússia.
Os avisos de Zelensky e como o número de baixas é cada vez maior
Num contexto em que muitos russos já estavam a receber intimações, em meados de agosto, o Presidente da Ucrânia antecipou que, no início do outono e logo após as eleições parlamentares, a Rússia iria levar a cabo uma nova vaga de mobilização. Volodymyr Zelensky referiu que esta não teria lugar “nas grandes cidades”, como Moscovo ou São Petersburgo — metrópoles onde a insatisfação com o recrutamento poderia desencadear manifestações e um descontentamento mais expressivo.
Mesmo focado nas regiões mais remotas, este esforço de mobilização poderá abranger mais de 300 mil homens, “dependendo da situação no leste” da Ucrânia, disse Volodymyr Zelensky, garantindo que as tropas ucranianas estão preparadas para os “dizimar”. Na mente de Vladimir Putin, indicou o chefe de Estado ucraniano, está um objetivo concreto: conquistar a província de Donetsk — e, assim, a totalidade do Donbass — até ao final do ano. Um objetivo que tem sido constantemente adiado há meses.

A conquista do Donbass parece ser um objetivo de que Vladimir Putin não vai abrir mão. Na mesma medida, a Ucrânia mantém a soberania dessa região como uma linha vermelha inegociável. Se Lugansk está praticamente dominada pelas tropas russas, cerca de 20% da região de Donetsk permanece sob controlo das forças de Kiev. Por mais que as tropas russas levem a cabo sucessivas ofensivas, o Exército ucraniano tem resistido à pressão e à longa guerra de atrito.
Segundo um relatório do think tank norte-americano Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), publicado a 18 de setembro, a guerra na Ucrânia está a causar milhares de baixas de ambas as partes. Do lado russo, “o número atual de baixas ultrapassa em milhares o número de recrutas por mês”. Ou seja, as perdas na linha da frente superam a capacidade de regeneração do Exército sem que, com isso, o Kremlin consiga “atingir os objetivos operacionais e estratégicos”, como o controlo total da região de Donetsk.
Apesar de o espaço mediático russo ser dominado pela propaganda que fala em grandes sucessos das tropas na linha da frente, a população não está totalmente alienada da realidade da ofensiva. Os russos sabem que o conflito se arrasta há anos e que não há uma solução no horizonte. Ao mesmo tempo, os frequentes ataques ucranianos dentro do próprio território e as sanções ocidentais (em vigor desde 2022) levam a população a sentir na pele os efeitos do conflito. Por muito que o regime tente vender uma narrativa de triunfo e normalidade, os cidadãos têm alguma noção de que a versão oficial não corresponde totalmente à verdade.

Muitos russos também não são ingénuos e sabem que a realidade da linha da frente está longe de ser ideal para Moscovo. Este é, aliás, um dos motivos pelos quais se está a tornar cada vez mais difícil recrutar homens. Ao Financial Times, Grigory Sverdlin, diretor da organização “Get Lost”, que ajuda soldados russos a desertar, afirmou que as Forças Armadas estão a repor as “baixas que assinam novos contratos”, mas denunciou que “já há bastante tempo que não há pessoas suficientes dispostas a servir — mesmo com as quantias avultadas oferecidas nos contratos”.
[Dois meses após o desaparecimento, e já depois de o genro, Raymond Quendoz, lhes ter anunciado que ia divorciar-se dela, os Silva Pais recebem finalmente notícias da filha. Annie está bem. Recusa dar detalhes sobre o seu paradeiro mas há cada vez mais evidências de que fugiu do marido para se juntar à revolução cubana. E, se isso aconteceu, uma coisa é certa: Annie tem de ter tido a ajuda e o aval do próprio Fidel Castro. Resta apenas saber porquê. Já pode ouvir o segundo episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
Por sua vez, a Ucrânia tem-se adaptado ao estilo de combate russo e defensivamente tem sido cada vez mais eficaz. Os drones e as novas tecnologias têm colmatado o grande problema ucraniano, que é precisamente o recrutamento e o número de homens na linha da frente. Porém, a Rússia não tem sido capaz de acompanhar esses avanços e continua a necessitar de um número elevado de soldados no terreno. “Ano a ano e mês a mês, está cada vez mais difícil para o Exército russo encontrar pessoas”, sublinhou Grigory Sverdlin. Estima-se que, por dia, 800 pessoas se tenham juntado às Forças Armadas russas nos primeiros meses de 2026 — um valor que cresceu no segundo trimestre (chegou aos mil), mas que ainda não é suficiente para solucionar o problema.
Os rostos do regime insistem que as Forças Armadas têm sido bem-sucedidas em cativar mais soldados: Dmitry Medvedev falou no recrutamento de mais de 200 mil homens apenas na primeira metade de 2026. No entanto, segundo avançam as tropas ucranianas, o número de baixas russas (incluindo mortos e feridos) também aumentou significativamente. Este verão, em comparação com a primavera, a Rússia perdeu mais 26% de homens no terreno.
Por muito que o Kremlin não o assuma, a guerra de atrito está a exercer pressão sobre a Rússia para renovar as suas fileiras. Ao Financial Times, Janis Kluge, especialista do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, explicou que as autoridades locais estão “sob enorme pressão” para cumprir as quotas de recrutamento. “Eles sabem quem tem dívidas, quem está sob investigação criminal ou quem perdeu a carta de condução. E vão atrás desses homens.”
Esta tem sido, aliás, uma das estratégias usadas. Como contou ao jornal Meduza um membro das Forças Armadas, a Rússia tem procurado pessoas em situação vulnerável — como indivíduos com dívidas ou com processos criminais pendentes. Para estes homens, a ida para a linha da frente é apresentada pelas autoridades como o menor de dois males. No entanto, a realidade é bem diferente: trata-se, na sua maioria, de cidadãos frágeis que o próprio militar descreveu abertamente como “descartáveis”.
Putin já tomou decisão? E porque razão é que a mobilização apenas acontece após as eleições?
Uma vitória eleitoral histórica. Foi assim que os meios de comunicação social russos retrataram o resultado do Rússia Unida nas eleições parlamentares. O partido próximo do Presidente conquistou 355 dos 450 lugares na Duma (o Parlamento russo), batendo o recorde de representação parlamentar. Num ato eleitoral em que o principal partido antiguerra — o Yabloko — foi impedido de participar, Vladimir Putin passa a poder apresentar, interna e externamente, o argumento de que a população russa apoia a guerra.
https://observador.pt/2026/09/21/putin-renova-maioria-parlamentar-na-russia-com-recorde-de-deputados/
O êxito eleitoral não é uma surpresa num país marcado por uma repressão cada vez mais acentuada nos atos eleitorais. Porém, nos últimos meses, ganhou força a narrativa de que a população russa estaria descontente com a longevidade do conflito e com o impacto dos ataques ucranianos dentro do país. Ora, este resultado eleitoral serve para transmitir a mensagem oposta: a de que os russos continuam ao lado de Vladimir Putin e, portanto, mantêm o apoio à ofensiva na Ucrânia.
Seguindo esta lógica, faria sentido que a Rússia lançasse agora uma nova vaga de mobilização. Com as eleições finalizadas, o regime dispõe do argumento de que a população apoia Vladimir Putin e a sua visão sobre a guerra. É por isso que vários analistas antecipam que este outono possa ser o momento escolhido pelo Kremlin para decretar um processo de recrutamento massivo.
Apesar de todas as teorias que circulam, o Kremlin tem-nas desmentido. Ainda esta sexta-feira, o porta-voz da presidência reiterou que não “há planos” para que aconteça uma mobilização em massa. Mas as palavras de Dmitry Peskov podem não bastar — e muitos russos já estão a fugir do país. Como escreve o ISW, os “dirigentes russos têm negado repetidamente que a Rússia possa levar a cabo uma mobilização forçada de reservistas, de forma a diminuir o descontentamento da sociedade e evitar uma nova vaga de emigração em massa, como a que ocorreu no outono de 2022”.
Há quatro anos, após uma contraofensiva bem-sucedida da Ucrânia que libertou quase na íntegra a província de Kharkiv, Vladimir Putin viu-se obrigado a decretar uma mobilização parcial — precisamente no início do outono. Este cenário de 2022 poderá repetir-se em 2026? A resposta não é linear. Por um lado, o Kremlin precisa de mais homens. Por outro, quer a todo o custo evitar desagradar a uma população exausta e frustrada com o rumo da guerra.
De qualquer forma, para continuar a ofensiva no Donbass, serão necessários mais homens. Não desistindo desse objetivo, o ISW advertiu que a Rússia “terá de mudar as práticas de recrutamento e conduzir provavelmente alguma forma de convocação obrigatória para sustentar o seu esforço de guerra na Ucrânia a médio e longo prazo, caso prossiga com as operações”. Na verdade, a insistência do Kremlin em negar este cenário demonstra, prossegue o relatório, a “preocupação de Putin com a provável reação da sociedade russa a uma mobilização obrigatória”.
“Continua incerto quando — ou em que modalidade — Putin poderá ordenar uma mobilização”, conclui o ISW. Várias fontes familiarizadas com o assunto consultadas pela Meduza assinalam que uma nova vaga de recrutamento está a ser discutida há alguns meses e estaria a ser apontada precisamente para o início de outubro. Em todo o caso, Vladimir Putin está a “preparar o que nunca será chamado mobilização” para evitar desagradar a população russa.

Segundo a Bloomberg, que consultou fontes europeias, Vladimir Putin ainda não tomou uma decisão final sobre a mobilização, recordando a reação negativa dos russos à mobilização parcial de setembro de 2022, que desencadeou protestos e uma fuga massiva do país. Mas as mais recentes eleições podem ajudá-lo. Em declarações à estação de televisão, a cientista política Ekaterina Schulmann assinala que, nas regiões onde o partido Rússia Unida obteve votações mais expressivas, “mais pessoas poderão vir a ser mobilizadas”.
Embora podendo trazer benefícios militares e levar ao fim da ofensiva, um recrutamento massivo de homens poderia ter efeitos indesejáveis na sociedade russa. Vladimir Putin sabe que corre um risco de gerar revolta entre a população, ao mesmo tempo que uma nova mobilização possa ser interpretada como uma demonstração de fraqueza face à Ucrânia.
Para Artem Klyga, advogado e líder do departamento legal da organização russa Movimento dos Objetores de Consciência, o Kremlin pode tomar “meias-medidas” e dar a “cada uma delas uma justificação separada”. Assim, frisa o especialista, a presidência russa consegue aumentar o número de homens sem causar insatisfação social. “Tudo o que as autoridades estão a fazer destina-se a afastar-se o mais possível da palavra ‘mobilização’ e do medo que advém daí”, referiu, em declarações ao Kyiv Independent.

Os sinais de uma nova convocação estão à vista de todos: muitos russos foram notificados para atualizar os seus dados e a conquista do Donbass continua a ser um objetivo central do Kremlin. Perante esta ameaça, milhares de jovens em idade militar já optaram pela fuga. Em aberto permanece a forma como Vladimir Putin lidará com este dilema: se assume abertamente a necessidade de intensificar a guerra, se prefere manter a estabilidade social interna, ou se tentará conciliar as duas alternativas sem levantar muitas ondas.