(c) 2023 am|dev

(A) :: De origem turca e defensora de expropriações. Quem é Elif Eralp, que ganhou as eleições em Berlim?

De origem turca e defensora de expropriações. Quem é Elif Eralp, que ganhou as eleições em Berlim?

Usa franja, tatuagens, brincos, batom vermelho, calças de ganga e ténis. A advogada da esquerda radical, filha de sindicalistas que fugiram da Turquia em 1980, conquistou Berlim à CDU.

Tiago Caeiro
text

Apresentou uma das propostas mais polémicas da campanha do Die Linke para as eleições regionais em Berlim. “Os cerca de 220 mil apartamentos das grandes empresas imobiliárias seriam transferidos para uma entidade pública de interesse comum.” A deputada Elif Eralp é uma defensora do recurso a expropriações para combater um dos maiores problemas da capital alemã: a falta de acesso a habitação acessível. Casada e mãe de dois filhos, procura, há anos, um apartamento maior para a família, mas sem sucesso. Este domingo, esta advogada com origens turcas levou o Die Linke, de esquerda radical, a uma importante vitória na cidade. O partido recolheu 25,7% dos votos e ficou em primeiro lugar.

Apresentando-se como contraponto à ascensão da direita radical na Alemanha, Elif Eralp pode tornar-se a primeira presidente da Câmara proveniente da esquerda radical, sucedendo aos democratas-cristãos da CDU, que governam Berlim desde 2023. No entanto, para assumir o cargo, Eralp precisará de fazer uma coligação alargada à esquerda, que junte também os Verdes e os sociais-democratas do SPD. Contudo, as propostas radicais do Die Linke — como a que prevê a expropriação de mais de 200 mil casas pertencentes a fundos imobiliários — podem dificultar o acordo, sobretudo com o SPD.

Elif Eralp nasceu em Munique há 45 anos, mas tem origens turcas. É filha de um casal de sindicalistas que fugiu da Turquia em 1980. Desconhecida do grande público até há alguns meses, fez carreira como jurista e advogada na área dos direitos humanos, em particular dos imigrantes, antes de entrar para o Die Linke, em 2017. O “período muito difícil” que a sua família viveu nos primeiros anos na Alemanha influenciou de maneira decisiva a sua entrada na política, contou recentemente numa entrevista. “Enfrentei muitas injustiças“, recordou, citada pela Swiss Info.

A Zohran Mamdani alemã

A notoriedade repentina de Elif Eralp, as suas origens noutro país e a defesa de medidas consideradas mais radicais em vários temas valem-lhe frequentemente comparações com o presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, que a própria considera um “modelo” a seguir.

E tal como Mamdani, Elif Eralp também teve que responder a acusações de antissemitismo dirigidas ao seu partido devido às suas posições pró-palestinianas. O episódio mais recente ocorreu durante um evento organizado pelo Die Linke no bairro de Neukölln, em que, segundo a imprensa, um rapper defendeu a intifada palestiniana no palco e pediu a aniquilação das Forças Armadas israelitas — uma “linha vermelha” que foi ultrapassada, veio depois dizer Elif Eralp, afastando-se da polémica.

Outra característica que a imprensa destaca na líder do Die Linke em Berlim é a forma como se apresenta. Com franjas, tatuagens, brincos e batom vermelho, Elif Eralp costuma usar calças de ganga e ténis, destaca o Financial Times. O estilo de Eralp, que se estende a grande parte dos membros do Die Linke, fez com que o partido atraísse uma onda de novos apoiantes, duplicando o número de membros em apenas um ano. Os estudos de opinião mostram que foi precisamente graças à população mais jovem que o partido de esquerda radical conquistou a vitória em Berlim.

https://observador.pt/especiais/vitorias-dos-extremos-a-esquerda-e-a-direita-refletem-vontade-de-mudanca-mas-face-ao-desastre-merz-promete-apenas-reformas/

Die Linke duplicou votação, mas não é certo que Eralp chegue ao poder

Num contexto de subida generalizada da votação no partido Alternativa para a Alemanha (AfD) em todo o país, Berlim continua a ser um terreno difícil para a direita radical. No entanto, e à semelhança do que tem acontecido noutros estados, a população da capital alemã também tem vindo a afastar-se cada vez mais dos partidos moderados e, neste domingo, deu mais do dobro do resultado obtido em 2023 ao Die Linke. Em segundo lugar ficou a CDU, que teve 18,8% dos votos, uma diminuição de quase 10 pontos percentuais. A AfD teve também uma subida expressiva, para 16,3%. Em quarto lugar, surgem os Verdes, com 14,3%. À semelhança da CDU, também o SPD perdeu força na capital germânica, tendo passado para quinta força política, com 12,1%, menos seis pontos percentuais do que em 2023.

Apesar da vitória, o Die Linke conseguiu eleger apenas 47 dos 158 deputados do parlamento regional, uma minoria curta que pode impedir que Elif Eralp seja presidente da Câmara. As propostas radicais do partido podem ser um obstáculo determinante para o apoio do SPD. No último debate antes das eleições, o candidato do SPD em Berlim, Steffen Krach, afirmou que as expropriações de apartamentos (que seriam utilizados num regime de arrendamento a preços acessíveis) não são o “caminho correto”, opondo-se à medida.

O problema do acesso à habitação foi o tema central da campanha de Eralp. O crescimento populacional e o investimento privado transformaram o mercado imobiliário da cidade nas últimas duas décadas, elevando os preços do arrendamento até níveis extremos. Em 2021, 58% dos habitantes votaram sim num referendo que pedia a expropriação de apartamentos pertencentes a fundos imobiliários. E o Die Linke pretende colocar em prática a ideia: segundo as contas do partido, as expropriações teriam um custo entre o sete e os 36 mil milhões de euros, verbas que seriam recuperadas gradualmente pela receita dos arrendamentos que a cidade receberia. Outra medida que divide opiniões é a que prevê um teto às rendas.

Em relação à Ucrânia, Elif Eralp e o Die Linke opõem-se ao fornecimento de armas a Kiev. “A prioridade de Berlim e do governo federal deve ser o apoio humanitário e a criação de condições para a paz, não o financiamento continuado da guerra”, disse Eralp.

Este domingo, a advogada lembrou os pais quando celebrou a vitória no bairro de Kreuzberg, agradecendo-lhes por lhe terem ensinado a importância de “nunca desistir, erguer-se sempre e fazer a sua voz ser ouvida”.