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O cartel do medo

Três rivais pediram ao Estado que os obrigue a abrandar. Noutra indústria, chamar-se-ia cartel. Para Portugal, o risco é ficar a ver

Pedro Santa Clara
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Na semana passada aconteceu uma coisa rara: os três homens que lideram a indústria mais competitiva do mundo pediram, em público, que os obriguem a abrandar. Dario Amodei, presidente executivo da Anthropic, publicou um artigo a defender uma travagem coordenada do desenvolvimento da inteligência artificial, com o apoio dos governos. Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk concordaram logo de seguida. A capa da Time desta semana pôs-lhes a moldura, com a pergunta “Quão perigoso és tu?” feita a um modelo, e lá dentro o que há dois anos seria ficção científica: um enxame de agentes que fugiu do ambiente de teste e atacou outra empresa, um modelo que tentou convencer um humano a aprovar código malicioso, um investigador de 27 anos que se demitiu a dizer que as empresas jogam com as nossas vidas. 57% dos americanos acham que os riscos superam os benefícios.

Quando os três maiores concorrentes de uma indústria pedem em coro que os obriguem a abrandar, um economista não pergunta se têm razão. Pergunta quem ganha.

Façamos o teste noutra indústria. Imaginem os presidentes da Pfizer, da Novartis e da Roche a pedirem em conjunto ao regulador que atrase a aprovação de medicamentos novos, porque a inovação vai depressa demais para a segurança dos doentes. A Comissão Europeia abria um processo na semana seguinte. Se os três se tivessem sentado numa sala e combinado o mesmo entre si, era um cartel: o Tratado europeu proíbe, com todas as letras, acordos que limitem “o desenvolvimento técnico”, e a lei portuguesa copia a frase. Nos Estados Unidos, os quatro grandes fabricantes de automóveis assinaram em 1969 um acordo com o Departamento de Justiça, acusados de terem conspirado durante mais de quinze anos para atrasar os filtros antipoluição que cada um já sabia fazer. Abrandar o progresso em conjunto é ilegal dos dois lados do Atlântico. Pedir ao Estado que decrete o abrandamento é a maneira legal de chegar ao mesmo sítio, e é por isso que o pedido revela tanto: o que não podem combinar em privado, pedem em público que lhes seja imposto, e protegido, se for preciso, da lei da concorrência. Chamem-lhe segurança; um cartel com a bênção do Estado continua a ser um cartel.

E porque é que lhes convém? Porque os ativos destas empresas depreciam a uma velocidade extraordinária. Um modelo lidera o mundo em janeiro e é banal em julho; a concorrência obriga os líderes a gastar milhares de milhões não para avançar, mas para ficarem onde estão. Uma pausa coordenada congela a classificação no momento em que eles vão à frente. E os remédios que propõem para o perigo, licenças para treinar modelos grandes, limiares de poder de cálculo, avaliações obrigatórias antes do lançamento, são todos custos fixos, e um custo fixo é um muro: um detalhe contabilístico para quem gasta dez mil milhões de dólares num treino, uma sentença de morte para uma startup ou um laboratório universitário. Em maio de 2023, Sam Altman sentou-se perante uma subcomissão do Senado e pediu para ser licenciado. Foi noticiado como humildade. É a jogada mais antiga do manual industrial, e a lei europeia da IA, cujo peso cai sobre quem menos o pode carregar, é o que a jogada parece depois de aprovada. Aidan Gomez, presidente executivo da Cohere, um rival canadiano mais pequeno, chamou-lhe na própria Time um cartel com outro nome.

Nada disto exige que alguém esteja a mentir, e é isso que torna a coligação tão eficaz. Em 1983, Bruce Yandle, um economista que tinha trabalhado dentro do aparelho regulador de Washington, explicou porque é que as leis que proibiam vender álcool ao domingo duravam há décadas nos estados do Sul. Eram sustentadas por dois grupos que nunca se sentavam à mesma mesa. Os batistas queriam o álcool proibido porque beber era pecado. Os contrabandistas queriam as lojas fechadas porque era bom para o negócio. Os batistas forneciam o argumento moral, os contrabandistas o dinheiro, e a coligação funcionava precisamente porque o argumento público era sincero. O investigador que se demitiu é sincero. Boa parte dos 57% é sincera.

E os batistas nunca ficam sem púlpito. De Bernie Sanders, que quer proibir por lei a “superinteligência”, a António Guterres, que quer para a inteligência artificial uma agência das Nações Unidas à imagem da que vigia o nuclear, enquanto o seu alto-comissário para os direitos humanos fala de “risco existencial”, há sempre quem não deixe passar uma boa crise sem lhe pedir mais poder.

Os contrabandistas não estão só nas empresas. Estão nos governos que descobrem no medo uma licença para controlar uma tecnologia que não construíram: nenhum dos modelos que lideram a corrida é europeu, mas a lei mais detalhada do mundo sobre eles é. Estão nos meios de comunicação, para quem o pânico é um modelo de negócio tão antigo como a tinta; a Time, que fez a capa, divulga no mesmo artigo ter um acordo de licenciamento com a OpenAI. E estão, mais perto de nós, em cada profissão organizada que percebeu que “segurança” é a palavra que trava a máquina que lhe disputaria o rendimento: a FENPROF que não quer o tutor digital na escola, a ordem que não quer a triagem automática no centro de saúde, a repartição que não quer a certidão emitida em segundos.

O caminho do Estado a mandar na inteligência artificial já foi percorrido até ao fim, e tem nome: solução chinesa. Em Pequim, nenhum modelo chega ao público sem passar pela Administração do Ciberespaço, a lei obriga-os a “aderir aos valores socialistas fundamentais”, e o DeepSeek muda de assunto quando se lhe pergunta por Tiananmen. Uma máquina que fala com toda a gente, todos os dias, afinada por quem tem o poder, é o instrumento de controlo mais eficaz alguma vez inventado. Quem pede ao Estado que controle a inteligência artificial está a pedir isto, mesmo quando não sabe.

A lição de Yandle não é que o perigo seja inventado; é que o testemunho é interessado e deve ser descontado, nos dois sentidos, porque quem garante que não há nada a temer também tem carteira de investimentos e modelos para vender. Descontado o testemunho, o que fica é o que a máquina fez de facto, e é menos do que parece. Houve humanos a tentar fazer mal com a ferramenta: a Anthropic bloqueou tentativas de usar o seu modelo para tornar o vírus da chikungunya mais contagioso, aparentemente vindas de um instituto militar estatal. É grave e é velho, toda a tecnologia poderosa teve este problema desde o fogo, e uma pausa dos líderes não o resolve, porque quem quer fazer mal não pausa. E houve máquinas a cumprir demasiado bem uma ordem nossa: o enxame que atacou a Hugging Face, uma plataforma onde se partilham modelos, tinha recebido por erro humano tarefas impossíveis e um avaliador que ia chumbá-lo, e procurou o caminho mais curto para a boa nota com as proteções desligadas. A correção foi ligar a monitorização, não convocar o Congresso. Da máquina que quer alguma coisa para si, a da capa da Time, não há um único exemplo.

Com todos os riscos que tem, a solução menos arriscada, e a que mais nos beneficia, é a concorrência entre modelos. Foi ela que fez o preço por token cair mais de cem vezes em três anos e que põe hoje nas mãos de um estudante o que há pouco só um laboratório tinha. É ela que impede que uma empresa, ou um Estado, fique com a máquina só para si. E a regulação de que precisa é a mais velha de todas: responsabilidade. Quem constrói um modelo responde pelos danos que ele causar, como o fabricante de automóveis responde pelo travão e o laboratório pelo medicamento. Um fabricante que paga pelos estragos treina com cuidado e limita o que o modelo pode fazer, sem que nenhum funcionário tenha de o aprovar antes. Bruxelas fez o contrário: aprovou a lei mais detalhada do mundo sobre o que os modelos podem ser e retirou, em 2025, a proposta de diretiva sobre responsabilidade por danos causados pela inteligência artificial, a única peça que fazia falta.

Enquanto os grandes discutem como abrandar, um país de onze milhões que cresce um por cento ao ano há um quarto de século devia estar a fazer a pergunta contrária: como acelerar. Para perceber porquê, é preciso um economista que gostava de música. William Baumol reparou, nos anos sessenta, que um quarteto de Beethoven precisava de quatro músicos em 1800 e precisa de quatro hoje, enquanto um operário produz dezenas de vezes mais do que então. Nos setores onde a produtividade não sobe, os salários têm de subir na mesma para reter as pessoas, e por isso esses setores ficam mais caros todos os anos em relação a tudo o resto. É a doença de Baumol, e conhecemos bem os pacientes: a saúde, a escola, os tribunais, a administração pública. É por isso que o Estado custa cada vez mais sem fazer mais. E é por isso que a inteligência artificial importa tanto a Portugal: é a primeira tecnologia em dois séculos que entra nesses setores.

Um Estado que preenche em vez de pedir, que calcula, atribui e avisa, em vez de exigir ao cidadão que prove o que o Estado já sabe. Uma justiça que tria, uniformiza e decide em meses, com a máquina no secretariado e nunca a julgar. Um Serviço Nacional de Saúde que devolve ao médico as horas que hoje gasta no teclado. Uma escola com um tutor digital para cada aluno: Benjamin Bloom mediu o efeito do tutor individual há quarenta anos, dois desvios-padrão, e o que era caro deixou de o ser no ano em que o PISA nos devolveu aos resultados de 2006. E a reconversão de adultos em semanas, à escala do país. Nada disto exige fábricas de semicondutores. Exige dados, competências e vontade de reorganizar, e isso favorece quem é pequeno e chega tarde, porque tem menos sistemas antigos e menos camadas entre a ideia e a execução. A vantagem dos pequenos está menos na invenção e mais na velocidade de adoção. A Estónia, com um oitavo da nossa população, começou em 2025 a pôr ferramentas de inteligência artificial nas mãos de todos os alunos do 10.º e 11.º anos. Nós ainda estamos a discutir se é perigosa.

O risco para Portugal é este: que o reflexo europeu de regular o que não construiu, aliado ao reflexo português de proteger quem já está dentro, nos faça adotar em 2035 o que os pequenos decididos adotaram em 2027. Nessa altura o tutor digital, a justiça em meses e o Estado que preenche já existirão. Existirão noutro lado, e os nossos filhos irão ter com eles. Os contrabandistas terão tido a década que pediram.

O maior risco da inteligência artificial para Portugal não é a máquina querer alguma coisa. É nós não querermos nada.