Durante cinco dias, tudo o que podia correr mal, correu ainda pior à Seleção: uma derrota com a Polónia que não teve a oposição esperada muito por culpa da ansiedade da estreia na competição, outro desaire com uma anfitriã Bulgária que ganhou os sets por ser melhor nos momentos decisivos, um inesperado colapso diante de Israel no quinto e último set que levou a novo contratempo naquele que deveria ser o encontro decisivo, mais uma derrota diante da Ucrânia num jogo em que Portugal não conseguiu levantar a cabeça. À partida, olhando de forma fria para o cenário, a passagem era quase uma miragem. Em 24 horas, deixou de ser.
https://observador.pt/2026/09/16/desfacam-as-malas-o-milagre-aconteceu-macedonia-do-norte-surpreende-israel-e-portugal-esta-nos-oitavos-do-europeu/
A conjugação cósmica com máquina calculadora à mistura tinha como obrigatoriedade um triunfo frente à Macedónia do Norte, seleção teoricamente mais fraca do grupo B. Era preciso, aconteceu. A jogar de forma muito mais confiante, quase como se não tivesse nada a perder e pudesse soltar o jogo que é capaz de fazer nesta fase de renovação da equipa, a Seleção venceu pela margem máxima. No entanto, e num plano apenas teórico, tinha as malas “feitas”. Porquê? Era preciso que Israel tivesse uma tarde para esquecer ao mesmo tempo que a Macedónia do Norte tinha de apresentar um nível que até aí ainda não tinha aparecido. Ambas aconteceram. De forma surpreendente, os macedónios conseguiram vencer um conjunto israelita a léguas do que já fizera (ganhou um set à Bulgária e à Ucrânia, por exemplo) e colocaram Portugal em quarto.
https://observador.pt/2026/09/15/esta-calculadora-bateu-certo-agora-falta-o-numero-magico-portugal-vence-macedonia-do-norte-e-fica-a-espera-no-europeu/
Quando tudo parecia perdido, a Seleção voltava a ter tudo para ganhar e pouco ou nada a perder, tendo em conta que lutava por uma inédita qualificação para os quartos de final do Europeu, à semelhança do que tinha acontecido em 2021 (duas vitórias na primeira fase, derrota por 3-2 com os Países Baixos) e em 2023 (três vitórias na primeira fase, derrota por 3-0 com a Ucrânia), tendo apenas somado um triunfo no grupo B. Problema? O adversário que teria pela frente, neste caso uma França bicampeã olímpica apostada em limpar a imagem deixada no último Mundial e que vinha de uma derrota na “negra” com a Roménia.
https://observador.pt/2023/09/09/portugal-bateu-com-o-nariz-na-porta-da-historia-selecao-nacional-perde-com-a-ucrania-e-esta-fora-do-europeu/
“Não estou preocupado com a tradição de França, estou preocupado com aquilo que temos de fazer amanhã [domingo] para conseguirmos ser competitivos, equilibrar o jogo e aproveitar a oportunidade de estarmos outra vez nos oitavos de final. A França tem atletas conhecidos a nível internacional, nós também os conhecemos, então percebemos aquilo que teremos que fazer para os contrariar. Eles vão procurar fazer a mesma coisa connosco e é isso que temos de tentar combater. Temos de ser agressivos perante aquilo que eles vão tentar anular no nosso jogo e temos de conseguir também contrariar aquilo que vão fazer. Nestes três dias não treinámos nada, demos o estímulo que é preciso para estarmos bem no jogo. Procurámos trazer de volta algumas coisas que deixámos de treinar, o controlo da receção ou do serviço”, apontara João José na antecâmara da partida com o primeiro classificado do grupo D, com quatro vitórias e uma derrota.
https://observador.pt/2021/09/12/parabens-foram-tao-bons-como-os-melhores-portugal-leva-paises-baixos-a-negra-mas-cai-nos-oitavos-de-um-europeu-historico/
E o arranque dos oitavos dava mais esperança a Portugal. Se a favorita Polónia não deu quaisquer hipóteses à Letónia com um triunfo por 3-0, a Bulgária, a jogar em casa com o estatuto de vice-campeã mundial mesmo numa fase de renovação, acabou por não materializar a vantagem de 2-0 e perdeu com a Alemanha (que vai agora cruzar com os polacos). Embora a diferença entre conjuntos fosse mais pequena do que olhando para o que se passava entre França e Portugal, o teórico favorito também pode ter dias em que nada sai bem.
https://twitter.com/CEVolleyball/status/2101698452304302220
Também com isso em mente, os gauleses, comandados pelo antigo astro italiano Andrea Giani, entraram sem dar margem para surpresas: mais fortes no bloco, mais capazes na receção, mais cirúrgicos no serviço. “Nós temos de metê-los a trabalhar, eles têm de trabalhar”, alertava João José na primeira paragem técnica com o resultado já em 11-6. O primeiro set parecia resolvido, com Portugal a ter uma arma que podia ser também o seu problema: arriscar mais no serviço para fechar opções de ataque, o que levou a oito erros diretos a servir no parcial inicial com todo o impacto que isso teve. Quando o serviço nacional “pegou”, na rotação que tinha Alexandre Ferreira a servir, a Seleção somou quatro pontos seguidos, viu ainda um bloco sair muito perto da linha que podia fazer o 23-21 e acabou por ceder o set por 25-20 após essa boa recuperação.
https://twitter.com/CEVolleyball/status/2101704499802804517
O segundo set começou ainda com esse alento redobrado que vinha da boa ponta final a fechar o primeiro parcial, com Portugal a ir conseguindo manter o resultado nivelado até nova fase em que a França conseguiu disparar com quatro pontos seguidos para o 9-5. “Acredita, acredita que vai dar”, ouvia-se no banco durante o desconto de tempo. “Atenção à variação de serviço deles”, acrescentava João José. A reação não apareceu de imediato, com os gauleses a chegarem ainda aos cinco pontos de vantagem (11-6), mas Portugal teve uma boa resposta com Lourenço Martins em plano de destaque nas ações ofensivas, voltando a colocar a partida nos três pontos de diferença e com contra-ataques falhados que podiam ter aproximado ainda mais as duas equipas. Faltava mais bloco à equipa nacional, que se conseguiu equilibrar mas perdeu por 25-22 quando já se percebia bem audível o apoio dos adeptos portugueses presentes na Arena 8888 em Sófia.
https://twitter.com/CEVolleyball/status/2101710208368054607
Portugal acreditava, voltava a acreditar e acreditava ainda mais que era possível dar luta a uma França que não estava com o mesmo rendimento, baixara na eficácia da receção e tinha mais dificuldades em travar a forma de ataque portuguesa com o distribuidor Bruno Dias em destaque. Até meio do terceiro set, não houve quase diferenças entre os dois conjuntos e Portugal liderou durante vários pontos o marcador. No entanto, e mais uma vez, bastou um período menos conseguido para desequilibrar os pratos da balança (de 10-11 para 14-11) de novo a favor dos gauleses, que tiveram o condão de quebrar o ascendente anímico do conjunto de João José para continuar a liderar o parcial até fecharem o set e a partida por 25-21. Apesar da derrota e consequente eliminação, a melhor versão chegou naquela que seria uma despedida anunciada.
https://twitter.com/CEVolleyball/status/2101729157474353454