O Governo AD está em queda livre nas mais recentes sondagens. O Partido Socialista e o Chega passaram à frente e a AD caiu para terceiro, sete pontos abaixo do que teve nas legislativas. Com eleições hoje, seria provável um governo minoritário do PS, com André Ventura a manter-se líder da oposição, ou um Bloco Central.
Interessa perceber como aqui chegámos.
Antes de tudo, o contexto contamina qualquer avaliação de desempenho do executivo. Combustíveis, habitação e alimentação caros, a encarecer e sem perspectivas de alívio. Os portugueses não estão a passar bem. Nestas circunstâncias, o Governo em funções é sempre penalizado.
Contudo, esta queda deve-se a desgaste acumulado e, sobretudo, auto-infligido.
O Governo desgastou-se porque parece não ter visão. Desde logo, o programa AD não tinha nada de inspirador ou aspiracional: era um manifesto de melhorias que não tocava em nenhum problema estrutural do país. E, fiel a este programa, não deixou trabalho feito. Infra-estruturas paradas: aeroporto, TAP, ferrovia. Segurança social: estudo engavetado. Reforma do Estado: “vaporware”.
O Governo desgastou-se porque parece falhar na gestão corrente. Fogos de 2025: o maior incêndio de sempre, comunicações em baixo. Exames nacionais: provas desaparecidas, plataforma a falhar, milhares de alunos avaliados sem garantias. Emergência médica: INEM com mortes sob investigação por falha de resposta. Saúde: urgências de obstetrícia e pediatria encerradas, grávidas em trabalho de parto recusadas à porta do hospital. Imigração: processos parados há anos e pessoas com residência legal notificadas para sair. Habitação: meta do PRR dada como superada, depois de a reprogramação ter retirado 3.500 casas a custos acessíveis do financiamento europeu.
O Governo desgastou-se porque parece não ter mão política. Conduziu numerosos casos e casinhos sem habilidade. Forçou uma eleição desnecessária para fugir a escrutínio. Fez a lei dos estrangeiros à pressa e viu cinco normas chumbadas pelo Constitucional. Empenhou capital político numa lei laboral que falhou estrondosamente. Na tempestade Kristin, o Governo primeiro tardou a aparecer, depois apareceu com pompa, e por fim perdeu uma ministra. Deu o PRR por cumprido a 100% depois de seis reprogramações suas e de retirar obras do plano. Anunciou alívio fiscal e bónus aos pensionistas no dia do debate da moção de censura e viu a AD cair mais um ponto e meio na semana seguinte.
Aliás, todo o trabalho político de bastidores parece estar a falhar. É de questionar o que anda a fazer o trio de “centrocampistas” do projecto AD – os ministros António Leitão Amaro (Presidência) e Carlos Abreu Amorim (Assuntos Parlamentares), e o líder parlamentar e secretário-geral do PSD, Hugo Soares – porque parece não haver coordenação. Tem responsabilidade o CDS, porque se deixou “amuletar”. E podemos continuar com faltas de discernimento e despropósitos. Uma gestão medíocre das presidenciais. Bugalho consistentemente fora de jogo. Carlos Moedas à espreita. Passos Coelho a criticar por fora.
O Governo desgastou-se porque parece não se preocupar. Governou sem bandeiras e agora pouco tem para defender. À direita, nada sobre autoridade do Estado na segurança, natalidade ou defesa. À esquerda, nada sobre salários, pobreza ou desigualdade, e zero sensibilidade social, sempre esmagada por tecnocracia. No campo liberal, nada sobre carga fiscal, burocracia ou dirigismo. Não há eleitorado nenhum que se reveja neste Governo.
O Governo desgastou-se porque parece manter uma relação complicada com a verticalidade: o caso Spinumviva manchou o primeiro-ministro. O candidato apoiado pelo PSD recusou-se a responder pelo seu passado profissional. E o ministro Luís Neves, escolhido para repor autoridade no Estado, acumula cinco processos, três deles inquéritos-crime, e mantém-se no cargo, com toda a confiança do primeiro-ministro.
O Governo desgastou-se porque não soube reconhecer a responsabilidade do poder. Herdou uma vaga política não-esquerdista inédita. Passou meses a descapitalizá-la. Disse que governa para as pessoas e deixa-as mais pobres e desalentadas. Entrega Portugal a uma esquerda revigorada.
Este é um Governo que só se pode queixar de si próprio.
Quem não governa arrisca-se a perder.