O D. Sebastião da Administração Interna
Escrevi aqui que era uma má ideia tentar resolver um problema estrutural do nosso sistema de gestão de crises com um salvador, pior ainda era o chefe máximo de uma polícia, que deve ser apolítica, passar diretamente para ministro. Entretanto Luís Neves descobriu à sua custa a rapidez com que a política transforma uma personalidade consensual, com reconhecidas qualidades de eficácia e liderança, de bestial em besta. O relevante nisto? Perceber o peso de uma cultura de informalidade e de impunidade numa parte do sistema policial e judicial, algo que já vinha ficando clara com frequentes e sempre impunes fugas de informação sobre processos em curso.
O grande perigo para um política sã é que um salvador, um messias não pode falhar. D. Sebastião, tão desejado desde o nascimento, acabou por levar Portugal ao desastre, quase fatal, de Alcácer-Quibir. E nem assim os sebastianistas deixaram de acreditar nele e insistiram que voltaria, um dia, para salvar a pátria numa manhã de nevoeiro. Também continua a haver quem ache que a Luís Neves apenas falta fazer chover. De Trump a Le Pen não faltam outros candidatos a perigosos salvadores da respetiva pátria. Provavelmente é mesmo a concorrência nesse campo que gera tanta irritação contra Luís Neve da parte de André Ventura, outro candidato a messias caseiro.
Contra o estreito de Áden marchar, marchar
O preço dos combustíveis continua a disparar. Os huthis, o grupo xiita, armado e financiado pelo Irão, marcharam para sul e conseguiram controlar toda a costa iemenita do Mar Vermelho, nomeadamente o porto de Mocha e uma série de ilhas que aumentam a eficácia dos seus ataques ilegais à navegação civil no estreito de Áden, que nessa zona tem apenas 15 quilómetros. É pouco para manobras de evasão. Confirma-se o acerto da visão geoestratégica de D. Afonso de Albuquerque, a quem apenas faltou conquistar Áden para dominar todos os pontos de estrangulamento que controlam os acessos ao Oceano Índico. Pior, os huthis e outras milícias pró-iranianas atacaram regiões fronteiriças da Arábia Saudita, mas também o porto de Yanbu, e danificaram seriamente o oleoduto por onde os sauditas estavam a desviar 5 milhões de barris por dia da zona do Golfo para o Mar Vermelho.
O líder de facto saudita, o príncipe Muhammad Bin Salman, terá ligado duas vezes ao Presidente Trump, a pedir ajuda, aparentemente em vão. Trump considera-se satisfeito com garantias dos huthis de que não atacarão navios norte-americanos. Já os mercados não ficaram nada satisfeitos com este duplo estrangulamento da oferta global de combustíveis. Para compensar (e para se fazer compensar) Trump permitiu a venda de 48 F-35 à Arábia Saudita, dos jatos mais avançados do arsenal norte-americano. Qual é o problema? A entrega não é imediata, e com um orçamento anual de defesa de 73 mil milhões de dólares – o sétimo maior do Mundo em 2025 – os sauditas não têm falta de equipamento militar de topo. A questão é que os pobres huthis pouco têm a perder, enquanto os sauditas ricos têm demasiado a perder. A dinastia saudita não parece disposta, para já, a arriscar as suas tropas no terreno. Não quero com isto dizer que tal opção garantisse a vitória contra veteranos huthis que provavelmente iriam recorrer a táticas de guerrilha, ideias para guerras assimétricas. O que é claro é que no Iémen como no Irão só com ataques aéreos não tem sido possível obter vitórias decisivas, confirmando um padrão que se verifica desde o início do uso da aviação militar há mais de um século.
O grande perigo é que cada vez mais conflitos resultem em bloqueios navais visando o estrangulamento da economia global. Isso foi frequente em séculos passados, mas, desde 1945, a regra tem sido a da liberdade de navegação, com poucas exceções. Estamos já a pagar um preço elevadíssimo por esta crescente insegurança marítima.
Apocalipse Inteligente
Por fim, o Fim do Mundo, uma velha preocupação da humanidade, e uma ocupação frequente de místicos e profetas. Mais inesperado é quando as profecias apocalípticas vêm de engenheiros, programadores e outros profissionais habituais do tecno-optimismo. Esta semana, Jacob Coxon, responsável por manter a Inteligência Artificial (IA) na linha em dois gigantes do setor – Open AI e Anthropic – demitiu-se com estrondo afirmando que a IA “nos pode matar a todos” até ao fim da década. Pode estar errado, mas é relevante que ele e outros colegas venham sacrificar salários milionários para denunciar que os tecnobarões para quem trabalham não querem saber dos riscos do que estão a criar, para melhor lucrar. A resposta do Presidente dos EUA? Com a modéstia e a prudência habitual afirmou que: “a única salvaguarda de que a IA precisa é um PRESIDENTE FORTE E INTELIGENTE (QI elevado)” como ele próprio. Mais incrível ainda é que vários dos tecnobilionários também têm apelado a limitações. Percebo a suspeita de que procurem uma estratégia de consolidação em cartel com o argumento da segurança; ou de que, com estes avisos procuram escapar a pagar desastres futuros, podendo alegar que avisaram. O que parece claro é que nunca tivemos uma tecnologia com um tal potencial, positivo e destrutivo.
A lógica fundamental da IA – ser capaz de se autoprogramar – deixa claro que será impossível de controlar facilmente. Multiplicam-se incidentes graves em que a IA avançou com ataques danosos e procurou enganar os seus criadores. Os perigos, da cibersabotagem até novos vírus, são múltiplos. Infelizmente, ganância, competição entre grandes potências, e um passado que parece justificar o otimismo tecnológico, tornam bem possível que só um desastre realmente grave leve a uma travagem, se formos a tempo de travar. Nisto a Europa está a ver passar navios, não tem poder de inovar que lhe dê uma palavra decisiva na evolução desta questão decisiva. Veremos se a próxima cimeira entre Xi e Trump traz algum sinal de acordo sobre restrições ao desenvolvimento da IA, e se na Assembleia Geral da ONU, no final de setembro, traz ímpeto políticlo global para medidas de segurança reforçadas, inclusive kill switch. Seria fundamental, mas está longe de ser certo.