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(A) :: A morte da democracia em seu nome

A morte da democracia em seu nome

a etnicização da política, a sexualização da política, ou a afirmação da vontade religiosa como subordinando a autonomia do Estado constituem a tribalização definitiva da política

Miguel Morgado
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Como vivemos tempos de grande desorientação intelectual, e em que os grandes movimentos políticos – da esquerda democrática ao conservadorismo, passando pelo liberalismo – perderam de vista as suas raízes e até a sua razão de ser, os exercícios de recapitulação das obviedades tornaram-se subitamente preciosos.

O Estado moderno, baseado no direito e tendo como finalidade a protecção dos direitos dos cidadãos; a sociedade móvel e igualitária apostada na prosperidade material dos indivíduos e na efectivação da prossecução das concepções de felicidade de cada um; a cultura de cepticismo relativamente à autoridade, de abertura à descoberta e à revisão permanente de opiniões e dogmas sociais – tudo isto depende de um pressuposto peculiar. A saber, que, nas decisões públicas e nas deliberações que as antecedem, sejam quais forem as modalidades em que estas ocorram, cada um dos cidadãos tomará em consideração prioritária o interesse da comunidade como um todo. E fá-lo-á pensando mediante uma figuração muito exigente e que consiste no distanciamento do cidadão relativamente à sua própria “identidade” (étnica, religiosa, social, pessoal). Por conseguinte, haverá muitas divisões e até conflitos de opinião após os intermináveis momentos de deliberação pública, mas que se justificam como diferentes interpretações do que tudo isso implica e reflecte. A diversidade de opiniões políticas e ideológicas é um produto da liberdade deste regime e da aceitação da falibilidade de cada ponto de vista na deliberação sobre o interesse comum – sobre o que é “melhor para o País”.

Isto não é um detalhe. É uma condição de sobrevivência deste tipo de sociedade – a que chamamos correctamente o regime das liberdades. Trata-se de uma solicitação tremendamente exigente. Basta pensar como camuflamos de todas as maneiras possíveis e imaginárias a nossa identidade pessoal, e os nossos interesses puramente pessoais, nas escolhas que apregoamos e que enobrecemos com as retóricas do interesse comum. No fundo, acabamos por agir segundo o princípio de que o que me convém na minha particularidade é o melhor para todos. De certa maneira, isso faz parte do jogo. É uma acomodação promotora de um benefício vital. Pelo contrário, o que é demolidor é o momento em que já não é preciso disfarçar esse desfasamento egoísta, digamos assim, e todas as reivindicações e pretensões se fazem em nome explícito da “identidade” (étnica, religiosa, social, pessoal). Mais, a partir do momento em que reivindicações reclamando-se do interesse universal caem no saco das condenações morais e históricas – como discursos “hegemónicos”, como imposições das “maiorias sobre as minorias”, como expropriação do “direito à protecção da identidade” –, essa sociedade caminha para o seu fim. Resta acrescentar que esse fim não será uma transição doce e pacífica para uma outra sociedade abstracta. Será, sim, a negação do regime das liberdades com tudo o que isso significa e um caminho para lá chegar recheado de violência e arbitrariedades.

Pelas mãos de algumas das ideologias que trouxemos do século XIX, em particular as esquerdas e uma parte do liberalismo, e em flagrante contradição com as suas origens intelectuais e propósitos morais basilares, são cada vez mais numerosos os partidos que propõem, com crescente desinibição e violência verbal, sobretudo dirigida a quem se lhes opõe, este caminho para a destruição da liberdade. A extrema-esquerda segue na vanguarda, consciente dos perigos deste programa e disponível para aceitá-los precisamente porque odeia a tal sociedade das liberdades e não chorará nenhuma lágrima pela sua dissolução. Já a esquerda democrática, alguns liberais e vários partidos do centro-direita europeu, intoxicadas pelo atrofio do pensamento, atormentadas pela oposição dos grupos interessados ou pela crítica da comunicação social militante, ou por ignorância pura e simples, seguem-lhes os passos e são arrastadas para o mesmo resultado. Sob a batuta da perfídia de lideranças como Pedro Sánchez em Espanha, disposto até a consumar uma golpada eleitoral sem quaisquer precedentes, ou dos Trabalhistas em Inglaterra, cada vez mais aflitos com a concorrência “étnica-religiosa” dos Verdes e, por isso empenhados em praticar o mesmo jogo, os exemplos tornam-se mais palpáveis para outros miseráveis imitadores.

A glorificação da “identidade étnica”, a proibição da crítica da religião (excepto se for para criticar o cristianismo em declínio na Europa), a absolutização da “identidade” pessoal – nas necessidades “psicológicas” ou nas inclinações sexuais – são os ingredientes do programa político das esquerdas europeias do nosso tempo, com a colaboração sinistra de muitos liberais e partidos do centro-direita. Esquecem-se uns e outros que tal conduta, cega de desejo de poder e de desnorte ideológico, constitui a renúncia completa ao papel histórico na formação da sociedade das liberdades desempenhado pelos seus antecessores. Esquecem-se de que é o oposto do caminho para a sociedade das pessoas iguais, livres, responsáveis, das instituições comuns e da convivência cooperativa entre diferentes “identidades”, caminho feito com tanto custo nos últimos séculos. Esquecem-se que a etnicização da política, a sexualização da política, ou a afirmação da vontade religiosa como subordinando a autonomia do Estado, constituem a tribalização definitiva da política. Em palavras mais simples, é a morte da democracia infligida em seu nome.