No contentor pré-fabricado onde dá aulas a uma turma do 3.º ano da Escola Básica n.º 2 de Rio de Mouro, a professora faz uma pergunta aos alunos: os meninos gostam dela? Quem responder que “não”, avisa, não passa de ano. Depois, tenta convencer as crianças de que aquilo que faz ao colega com autismo não é “bater”.
Os relatos do que aconteceu na última quinta-feira chegaram a alguns pais pelas próprias crianças. Mas não foram uma novidade. Há dois anos, desde o 1.º ano (2024/2025), que os desabafos sobre a sala de aula desta professora se repetem: gritos, castigos, ordens para não se contar o que se passa na sala de aula e alegados episódios de violência física sobre um aluno com autismo.
No início da semana passada, logo no primeiro dia de aulas do ano letivo que acaba de arrancar, uma denúncia anónima foi enviada para a direção do Agrupamento de Escolas e a Direção-Geral da Educação (DGE). A participação detalhava “comportamentos físicos inadequados e agressivos” contra a criança autista, falava nos gritos e nas ameaças aos restantes alunos. Terminava com um pedido de “investigação urgente e independente” que ouvisse alunos, pais e funcionários.
Apesar de a direção e a coordenação pedagógica da escola já terem sido confrontadas por diversas vezes com queixas semelhantes sobre a mesma professora, esta foi a primeira vez que o diretor do agrupamento, Jorge Lemos, reagiu. Na resposta enviada na manhã da passada sexta-feira através do e-mail da direção, o diretor garantiu que “não há, nem houve nos dois anos letivos anteriores, qualquer indício de a referida professora agredir ou intimidar as crianças, nem o mesmo seria tolerado neste agrupamento”. Ainda assim, anunciou a instauração de um “processo de averiguação interno para clarificar todos os factos”.
A garantia de que nunca houve indícios ou alertas anteriores contrasta, porém, com várias queixas feitas no passado. O Observador teve acesso a e-mails enviados ao longo dos últimos dois anos para a caixa de correio da direção do agrupamento e da coordenação pedagógica. Mais: a própria coordenadora pedagógica, Bernarda Pires, esteve em reuniões com pais onde lhe foram relatados os momentos de ansiedade, o choro diário e as queixas de agressões físicas. Nada foi feito.
Contactado pelo Observador, o diretor do agrupamento esclareceu que “decorre um processo de inquérito para averiguar sobre eventuais responsabilidades disciplinares” da professora. Quanto às restantes questões colocadas, acrescentou que “o procedimento em curso” obriga “ao sigilo e ao dever de recato”. O Observador tentou várias vezes contactar a professora visada, mas não obteve resposta. Ao que o Observador apurou, na última sexta-feira, a coordenadora pedagógica — que não respondeu ao pedido de comentário do Observador — reuniu as auxiliares da escola. Quis saber se alguma delas tinha estado a falar com jornalistas. E pediu-lhes silêncio.
As perguntas enviadas pelo Observador ao Ministério da Educação não obtiveram, até ao momento, resposta. Mas a Procuradoria-Geral da República confirmou que não há queixas registadas no Ministério Público.

“Se querem chorar, fiquem em casa”: a régua partida, os “gritos” que dão “dor de cabeça” e o diário dos relatos da sala de aula
Na Escola Básica n.º 2 de Rio de Mouro, o arranque do novo ano letivo começou com um aviso. Na primeira reunião de pais desta turma do 3.º ano, a professora afirmou que “este ano as coisas não vão ser como no ano passado”. Justificou aos encarregados de educação que “aguentou muito e tolerou muito”, e que não estava disposta a “comprometer a sua saúde”. Vários encarregados de educação contam ao Observador que a professora ameaçou colocar “baixa psicológica” caso os pais a incomodassem. E, assim sendo, o “problema seria dos pais”, uma vez que os alunos ficariam sem acompanhamento letivo.
Três dias depois, Raquel perguntou ao filho como tinha corrido a escola, como faz todos os dias. “Hoje, a professora bateu no menino e partiu-lhe a régua no braço”, foi a resposta que ouviu do filho, segundo conta ao Observador a mãe de outro aluno da turma. Outros pais ouviram exatamente o mesmo.
Porém, não foi uma surpresa. Há dois anos que histórias semelhantes, contadas por algumas crianças da turma, se repetem. Perante os primeiros relatos do filho, deixados escapar entre conversas do dia a dia, Raquel começou a registar por escrito o que o filho contava. Sobretudo depois de o ouvir dizer que “não gostava da professora”: “Detesto a escola e não quero ir mais. Não gosto da professora, ela é muito má. Grita muito e fico com dor de cabeça. Quero outra professora. Quero mudar de escola”, relata a mãe de um dos alunos da turma.
Nos apontamentos guardados por Raquel e partilhados com outras mães, alinham-se várias frases da professora relatadas pelo filho:
- “Se querem chorar, fiquem em casa. Estão aqui para trabalhar e não para chorar.”
- “Se não querem trabalhar, então fiquem em casa.”
- “Se não querem estar nesta escola, então vão para outra.”
A criança contava que, no 1.º e no 2.º ano, chegava a ficar na sala, sem poder ir para o intervalo, por não ter acabado um trabalho ou por castigo por mau comportamento. Relata também que, durante as aulas, a professora não permite que vá à casa de banho, dizendo que os meninos deveriam ter ido durante o intervalo. Num momento em que um dos alunos da sala estava a chorar, a professora gritou: “Pára com isso, acorda para a vida”.
Noutro registo, o diário desta mãe dá conta de que o filho lhe perguntou “algumas vezes” se iria para uma escola “onde se fica lá para sempre e até dormir”. “A mãe contou-me que perguntava ao filho o porquê de ele dizer isso. E a resposta foi: ‘É a professora que diz que somos crianças malcriadas, е que devíamos ir para uma escola onde ficamos lá a dormir'”, além de contar ainda que a professora “levanta a mão e bate nos braços e nas mãos” do colega autista quando ele começa a fazer “disparates”.
Apesar de o alvo dos comportamentos mais violentos descritos pelas crianças ser quase sempre o colega autista, a criança relatou o dia em que a professora o puxou a ele pelo colarinho da camisola, durante um momento de meditação com a turma no primeiro ano: “Naqueles momentos, todos tinham de estar obrigatoriamente em silêncio, deitados no chão e de olhos fechados. Ninguém podia abrir os olhos, ninguém podia falar”. Este aluno disse à mãe que abriu os olhos e que a professora “o agarrou pela camisola e colocou-o em pé, sem qualquer apoio no chão”: “Agarrou-o pelo colarinho da camisola e colocou-o em pé. Isto foi-lhe [à Raquel] relatado por ele.” A mãe teve a certeza poucas horas depois: “No mesmo dia, outros pais enviaram-lhe mensagens a perguntar se ela sabia o que tinha acontecido com o filho. Aí, percebi que ele não estava a mentir, porque houve outras crianças que viram”, explica a mãe de um colega da criança.
Clara foi outra das crianças a revelar a mesma situação à mãe. “Nesse dia, fui chamada à escola. Ligaram-me porque a Clara estava num pranto de choro”, explica Joana, que se lembra de ter encontrado o pai da criança que tinha sido agarrada pela camisola à porta da escola: “Estava encostado a um muro. Posso dizer que o pai não tinha cor. Ele não tinha cor.”
Os ataques de ansiedade domingo à noite, a professora “muito cansada” e o relatório de uma pedopsiquiatra
O choro começava no carro, assim que se aproximavam da escola. No banco de trás, Clara repetia o mesmo apelo: não queria ir para a escola. Era outubro de 2024, pouco tempo depois do início do ano letivo. Joana via a filha chorar sem perceber o que se passava do outro lado do portão da escola.
“Dizia que não queria ir para a escola, e ficava muito ansiosa, com as mãos muito transpiradas, muito nervosa, e eu não percebia muito bem o que é que se passava ali.” Joana começou por pensar que, sendo Clara uma criança “muito apegada” a si, tudo aquilo seria “mimo” e iria passar. Mas as viagens em lágrimas a caminho da escola tornaram-se “recorrentes”. Depois, Clara “começou a perder o apetite, não comia, vivia num estado de ansiedade, de nervosismo”.
Quando se sentava para fazer os trabalhos de casa, Joana conta que via a filha entrar “numa espiral” em que repetia que “não fazia nada de jeito”. “Por mais perfeitas que as letras estivessem, que os números estivessem, ela dizia que estava tudo horrível”.
Nada disto se passava com a irmã gémea, que andava noutra turma da mesma escola. Se com a irmã “estava tudo bem”, Joana concluiu que “alguma coisa se passava dentro daquela sala de aula”. Para perceber o que seria essa “coisa”, falou com a professora. Perguntou-lhe o que se passava com a Clara, tendo em conta as manifestações de ansiedade, mas não teve as respostas que procurava. Em conversa, a professora confessou estar “muito cansada” e ter em mãos uma “turma muito difícil”. “Isto cerca de um mês depois de as aulas terem começado”, detalha Joana.
A mãe procurou então a coordenadora pedagógica da escola, Bernarda Pires, que pediu autorização para abordar diretamente a professora. Joana disse-lhe: “Se acha por bem falar com a professora, tudo bem. Tente perceber o que se passa.” Ao mesmo tempo, a mãe de Clara chegou a questionar as funcionárias da escola, mas “ninguém parecia saber de nada”.
A certa altura, Clara foi ouvida pela própria psicóloga da escola, a quem revelou algumas situações que vivia dentro da sala. Falou das agressões a que assistia à criança autista e dos gritos constantes da “professora muito má”.
Depois de a professora ser abordada pela coordenadora sobre o caso desta aluna, a docente confrontou Clara diretamente: “Perguntou à Clara se ela não gostava dela, e se não queria ficar com ela. E a Clara, coitadinha, ia dizer o quê? ‘Não, não gosto de ti, não quero ficar contigo’? É uma criança.” Mas, a partir daí, em casa, “a Clara deixou de contar as coisas”, refere a mãe.
Apesar do silêncio em que a filha mergulhara, os relatos continuaram a chegar a Joana através de outros pais da turma, a quem os filhos “contavam tudo”. “Contaram que a professora grita muito com a Clara. Grita com todos, mas com a Clara grita imenso e humilha-a perante a turma toda, fora tudo o resto”. O “tudo o resto” incluía as “agressões que o menino autista sofria”.
Quando não eram os outros pais a avisar, era a própria irmã gémea a romper o silêncio de Clara: “Eu perguntava sempre como tinha corrido o dia e como é que a professora se tinha comportado, e ela dizia que estava tudo bem. Mas muitas vezes era a irmã que a desmentia: ‘Estás a mentir, porque eu ouvi os gritos da tua professora da minha sala'”.
A revelação sobre o que se passava na sala com o colega autista acabaria por acontecer numa manhã em casa, enquanto Joana penteava a filha: “Estava a escovar-lhe o cabelo e ela não parava quieta. Virei-me para ela: ‘Daqui a bocado levas um calduço’, e fiz-lhe o gesto na cabeça a brincar. E ela diz-me: ‘Como a professora faz ao Kevin, como a professora faz ao Kevin’. Perguntei-lhe se ela fazia mesmo aquilo e a Clara explicou: ‘Sim, mãe, ela bate-lhe na cabeça, a cabeça dele vem para a frente e volta para trás. E bate-lhe nas mãos’.”
Joana não esperou mais: “Assim que acabou o ano letivo, tirei logo a minha filha dali. E, infelizmente [só nesse momento], porque se eu pudesse, tinha-a tirado muito mais cedo.”

“As crianças mentem.” Mas os “adultos mentem mais”
Em novembro de 2024, Joana enviou o primeiro e-mail à direção da escola (o mesmo endereço a partir do qual o diretor respondeu, na passada sexta-feira, à denúncia anónima) e à coordenação pedagógica. O assunto era “pedido de transferência” e a mãe explicava que Clara tinha iniciado um “quadro de ansiedade e rejeição à escola”, estando com “muitas dificuldades”.
“A Clara chora de manhã porque não quer ir para a escola, está a perder peso, os sonos dela não são tranquilos como eram” — ou como são fora do período escolar. “No passado domingo, quando se deitou, desabafou comigo que estava nervosa porque não sabia como iria ser o amanhã (segunda-feira)”, lê-se no e-mail a que o Observador teve acesso. “A Clara demonstra medo em responder, quando lhe faço perguntas referentes a matéria dada (ditongos é um exemplo) porque, sempre que erra, a professora ralha ou fala alto com ela.”
No mesmo e-mail, Joana pedia a mudança de turma e levantava o véu sobre outras situações que preocupavam outros pais da turma: “Tenho conhecimento de que há pais que, tal como eu, estão bastante desagradados com o que se passa nas aulas, mas não vou, não posso, pronunciar-me por eles.”
Três meses depois, Joana voltou a escrever para a escola. Desta vez, anexou um relatório da pedopsiquiatra que tinha começado a acompanhar a filha nesse mês. O documento médico confirmava que Clara apresentava “sintomatologia angodepressiva e ansiedade de separação desde outubro de 2024, com impacto marcado no seu bem-estar, nos vários contextos onde se insere, nomeadamente na escola, com recusa escolar”.
O relatório apontava para uma “reação de ajustamento a situações negativas que esteja a experienciar de forma repetida em contexto escolar desde o início do presente ano letivo”, indicando a necessidade de “acompanhamento psicológico regular” e o apoio da escola para “minimizar o impacto negativo” sobre a criança.
Ao contrário do que sucedeu com o primeiro contacto, a resposta a este e-mail chegou dois dias depois pela mão da coordenadora, que referiu não ser da sua competência decidir transferências de turma, adiantando ser “muito difícil por não haver vaga”. Nove dias após o envio da mensagem, a professora Anabela Fanado, que integra a direção do agrupamento, escreveu à mãe a propor uma reunião.
O encontro aconteceu no mês seguinte. “A coordenadora entrou logo à defensiva”, recorda Joana. “‘Sabe que as crianças mentem…’, disse-me a professora. E eu respondi-lhe: ‘Certo, as crianças mentem, mas os adultos também mentem. Mentem mais do que as crianças’.”
“Quando uma criança me conta hoje uma coisa e para a semana me conta exatamente a mesma coisa sem acrescentar uma vírgula ou um ponto final… Daqui a um mês volta a contar a mesma coisa. E a mais do que uma pessoa. Sempre a mesma coisa, sempre as mesmas palavras. Ela não está a mentir. O que fizeram foi tentar abafar o caso. Tentaram e abafaram o caso”, afirma Joana.
Durante a reunião, enquanto a professora Anabela tirava notas por escrito, a solução apresentada pela coordenação foi a transferência de Clara para outra escola. Ao longo da conversa, Joana confessa ter sentido que as duas professoras não se mostraram nem preocupadas, nem surpreendidas: “A professora Anabela talvez um pouco mais. Houve uma altura em que falei da questão de agredirem o menino autista e a professora Anabela disse: ‘Agressão é uma palavra muito forte. Uma coisa é agressão, outra coisa é imobilização’. Até me comecei a rir e disse-lhe: ‘Professora, não me leve a mal, mas se há pessoa que sabe o que é uma imobilização [pelo seu trabalho], sou eu’.”
Segundo Joana, a professora coordenadora manteve-se em silêncio grande parte do tempo. “Disseram-me apenas que a professora Anabela ia ver o que se poderia fazer, provavelmente falar com a professora. Até que o meu marido disse que aquela era a última reunião que tinham: ‘Vocês têm de resolver esta questão’.”
Para Clara, a solução acabou mesmo por ser a saída da escola. Mas não foi sozinha — a irmã saiu também. “Consegui transferi-las para uma escola ao pé de casa. Transferi as duas. Fizeram o segundo ano sem problemas. Ao fim de uma semana com a nova professora, a Clara chegou a sexta-feira a chorar porque não queria ir para casa no fim de semana. Dizia-me: ‘Dois dias é muito tempo sem a minha professora’. Ficou com a autoestima muito em baixo, mas está a recuperar aos poucos”.
Por vezes, as memórias desse ano ainda regressam. Joana conta que, já depois da saída da escola, num dia em que a filha “estava a fazer uma birra no chão”, a levantou “pelo bracito”. “E conforme a levantei, puxei-lhe o cabelo. E ela olha para mim e diz: ‘Bolas, mãe. Já não bastava a professora puxar-me o cabelo, agora puxas-me tu também?’. Eu fiquei sem chão.”
O “desgaste” da professora e a escola que “encobre o que se passa”
Luísa nunca pensou que o primeiro ano do filho na escola seria assim. “Este é já o terceiro ano consecutivo que estamos com esta professora. No primeiro ano, ficámos contentes face à situação de Portugal com a quantidade de turmas que não têm professores. Ficámos contentes, como pais, por nos ter sido atribuída uma professora. Naquela escola, nalgumas das turmas andavam sempre a saltitar professores. E pensámos: ‘Vai correr tudo bem’. Efetivamente, não correu nada bem”, conta esta mãe ao Observador.
O desgaste da professora, lembra Luísa, manifestou-se logo nos primeiros meses: “É uma professora que, no primeiro mês de aulas de 2024, já mostrava algum desgaste psicológico perante uma turma complicada, com dois casos de autismo.”
Pouco tempo depois do início das aulas, Luísa recorda os desabafos que mantinha com Raquel, que estava preocupada com o filho, que começou a ter “noites muito agitadas” em casa, o que “não era normal”. “Eram pequenas alterações de comportamento que pensei serem passageiras, de adaptação ao ano letivo, mas as coisas foram-se agravando ao ponto de ele começar a trazer relatos para casa”, explica Luísa. Relatos que a própria guardava e partilhava com outros encarregados de educação. São também informações que Raquel fez mais tarde chegar à escola.
“A coordenadora do agrupamento recebeu estas anotações por escrito. Nada foi feito. Nunca aceitaram uma reunião em conjunto com as mães, apesar de lhes dizermos que os pais estavam todos a falar da situação”, assegura esta mãe. O pedido para um encontro com outros pais tinha sido feito por e-mail em fevereiro de 2025 à coordenadora do agrupamento, com o objetivo de “discutir a situação e os relatos vivenciados pelos alunos”. Na mensagem, a que o Observador teve acesso, os pais alertavam que, “apesar de algumas destas situações já terem sido mencionadas individualmente por alguns encarregados de educação, após a última reunião do semestre e conversas entre pais, verificámos que os problemas persistem e, em alguns casos, até se têm agravado”.
Em resposta, a coordenação recusou a realização do encontro nesses moldes, avisando que qualquer reunião “para discutir assuntos da turma terá de ser marcada com o representante dos encarregados de educação”. Mas, nessa conversa, “não poderão ser abordados casos individuais”.
Quando confrontada por esta mãe, a professora Bernarda terá começado por dizer que “as crianças poderiam estar a inventar” — a mesma resposta que outros pais dizem ter ouvido da escola. “E é estranho”, considera Luísa, “porque estamos a falar de crianças pequenas, não se juntam no recreio a tentarem decorar e a combinar o texto para chegar a casa e contar aos pais”. Mais: “Todas elas relatavam, por palavras diferentes, e expressavam-se de maneiras diferentes, mas diziam exatamente o mesmo.”
Apesar disto, o não envolvimento por parte de outros pais tem, segundo esta mãe, várias explicações: “Muitos pais não têm conhecimento, até por ser uma turma com muitas crianças estrangeiras e pela própria rotina de vida dos pais, em que os filhos não passam tanto tempo com eles ou não há abertura para o diálogo. A minha sorte é que o meu filho fala de tudo.”
Sem respostas, algumas mães tentaram pedir esclarecimentos logo no início do percurso escolar: “Cheguei a falar com a professora Bernarda no primeiro ano. O que me disseram foi que iriam falar com a professora em causa para expor a situação. Mas parece-me que encobrem muito o que se passa.”
Hoje, já no 3.º ano da escola, há mães que veem “revolta” nos filhos. “Tem sido bastante complicado. Noto no comportamento do meu filho muita revolta. São crianças que, na escola, são sempre apontadas porque se portam mal, que são da pior turma. Depois, à mínima coisa que acontece no pátio, não dão oportunidade à criança de se justificar”, explica uma delas.
Ao contrário do que acontece na sala de aula, onde nota que o filho é “mais agitado”, no centro de estudos a mãe diz não ter “esse tipo de queixas”. Ali, o filho “respeita as regras, sabe-se comportar, sabe ouvir o adulto”. “Na escola, é tudo ao contrário.”
Quando pensa no futuro do filho e dos colegas, Luísa conclui: “A primeira experiência escolar dele foi péssima e a primária marca sempre. Por norma deveriam ser boas memórias — que não vão ser. Estamos a falar de crianças que vão completamente destruídas e desmotivadas para o 5.º ano. O que é que será delas?”
*todos os nomes de alunos e encarregados de educação usados neste artigo são fictícios
[Dois meses após o desaparecimento, e já depois de o genro, Raymond Quendoz, lhes ter anunciado que ia divorciar-se dela, os Silva Pais recebem finalmente notícias da filha. Annie está bem. Recusa dar detalhes sobre o seu paradeiro mas há cada vez mais evidências de que fugiu do marido para se juntar à revolução cubana. E, se isso aconteceu, uma coisa é certa: Annie tem de ter tido a ajuda e o aval do próprio Fidel Castro. Resta apenas saber porquê. Já pode ouvir o segundo episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]