É desafiante, no mínimo, reflectir sobre temas aparentemente desligados e, no meio da leitura que deles fazemos, descobrir afinal coisas em comum. Acontece com a vida e acontece com as trotinetas, esses artefactos deslizantes que invadiram o nosso quotidiano, sobretudo urbano, superiormente abençoados em nome — não certamente do Pai — da igualmente sacrossanta mobilidade, inestimável mais-valia das cidades do futuro.
Desconhecedor de números oficiais, socorri-me do inefável ChatGPT e de ferramentas aparentadas e parece que, em Lisboa, existem cerca de 6000 trotinetas eléctricas partilhadas, a que se juntam mais alguns milhares de veículos pessoais, totalizando talvez cerca de 10 000 unidades. São giras, silenciosas, têm piada de conduzir, consomem pouca electricidade e até parece que têm campainha e travão. Muito apropriadas, portanto, para dar uma voltinha num parque com pistas seguras para a sua utilização.
Em contexto urbano, porém, o que se vê é o generalizado incumprimento das regras de trânsito, circulando ora como veículos motorizados, ora como peões; ora nas ruas e estradas, ora nos passeios públicos e nas passadeiras de atravessamento, muitas vezes a velocidades elevadas. Desconheço todos os pormenores das regras, mas parece-me que velocidades superiores a 15 km/h são especialmente perigosas, tanto para os pilotos das máquinas como para os transeuntes, embora as normas vigentes permitam 25 km/h em patamar. As regras existentes são habitualmente desrespeitadas e outras, como a obrigatoriedade do uso de capacete ou de outros materiais de protecção individual — luvas, por exemplo —, tanto quanto sei, nem sequer existem.
Uma vez mais sem se conhecerem números exactos, parece que os utilizadores são predominantemente não turistas e se concentram sobretudo na faixa etária dos 30-35 anos. Estes comentários são os de um cidadão comum, não especialista no tema, já confrontado, contudo, com várias situações de risco iminente de acidente e ciente de que a vox populi traduz um sentimento geral de desconforto, que emerge de uma coisa muito indefinível, mas também muito certa: o senso comum.
Todavia, o que me traz verdadeiramente a este tema é a preocupação com a contribuição que este meio de locomoção pode ter para o sedentarismo e para a falta de exercício físico. A construção de ciclovias que atravessam a cidade terá sido, suponho, inspirada pela facilitação da mobilidade e pela promoção do exercício físico através do uso da bicicleta. Mesmo quando existe apoio eléctrico, permitindo às bicicletas percorrer maiores distâncias e serem usadas por pessoas fisicamente mais limitadas, ainda assim, exigem algum movimento produzido pelo próprio utilizador.
Exceptuando casos em que se vá de trotineta para o ginásio, imagino uma legião de jovens adultos que se desloca de forma fisicamente passiva — nem as escadas do metro tem de subir —, se entretém longas horas ao telemóvel, tem, talvez, um emprego de secretária e descansa à noite a ver séries na Netflix.
A doença aterosclerótica, que vai estragando as nossas artérias e é responsável por enfartes, AVC e muitas demências, começa cedo e existe mesmo: não é uma fantasia de cientistas lunáticos. Infelizmente, todos os números de estudos cientificamente sérios apontam na mesma direcção. O último estudo, acabado de publicar no New England Journal of Medicine, o estudo REACT, envolveu 17 000 adultos, nos quais a aterosclerose silenciosa estava já presente em 57%. No grupo etário mais jovem, dos 18 aos 29 anos, encontrava-se já em 9% dos homens e 7% das mulheres.
De outros estudos sabemos que este processo não permanece necessariamente silencioso e aumenta o risco, por exemplo, de enfarte do miocárdio entre duas e oito vezes, tendo em conta a presença e o controlo, ou não, dos factores de risco. Entre eles, o sedentarismo e a correspondente inactividade física são dos mais importantes.
É responsabilidade de todos promover estilos de vida saudáveis, mas essa responsabilidade é ainda maior para quem define e implementa políticas públicas. A promoção da saúde cardiovascular, em especial favorecendo a prática de exercício nos jovens, não passa certamente pelo uso de trotinetas eléctricas como meio habitual de locomoção. E parece-me até discutível que as ciclovias sejam tomadas por veículos cujo efeito potencial sobre a saúde cardiovascular pode ser exactamente o contrário do das bicicletas para as quais, em grande medida, foram imaginadas.