No Verão de 1183, já no declínio da era Heian, quando o Japão parecia respirar ao ritmo das cigarras, das flautas e das músicas compostas para adormecer príncipes-meninos, perguntaram a Sei Shōnagon qual era o seu livro favorito. Deram-lhe três dias — uma prodigalidade de tempo, para quem teria de responder não apenas com um título, mas com uma fidelidade.
Sei empregou os dois primeiros dias com a calma de quem atravessa uma biblioteca interior. Reviu as estantes da memória, procurou volumes esquecidos nas casas amigas, recordou poemas chineses, crónicas antigas, biografias de imperadores, descrições de neves, jardins e luas. Ao terceiro dia, porém, um dia amadurecido sob uma tempestade inquieta, começou a duvidar.
Teria querido perguntar a Murasaki Shikibu. As duas conheciam-se demasiado bem para serem amigas sem dificuldade. Eram as mais brilhantes escritoras da corte; falavam com imperatrizes e capitães, com músicos e poetas, liam-se uma à outra através de silêncios, rivalidades e elogios que talvez contivessem sempre uma pequena sombra. Sei preferia os versos breves à épica, os acidentes do clima à gravidade das genealogias, uma folha levada pelo vento às extensas famílias que se desdobram, geração após geração, nos romances.
Acabou por escolher um livro que lera aos vinte anos: Niji (Arco-Íris).
Encontrar um exemplar não foi fácil. O Secretário da Esquerda, homem instruído e de modos talvez excessivamente atentos, trouxe-lhe finalmente uma cópia. Sei agradeceu-lhe com chá perfumado de orquídeas, que é uma maneira delicada de pagar uma dívida e também de a prolongar. Antes de abrir o livro, receou uma coisa que todos os leitores conhecem: que os anos tivessem alterado o livro ou, pior ainda, que a tivessem alterado a ela.
Procurou alternativas na biblioteca de Turu Kamo, outro homem de letras, mas nenhuma lhe pareceu superior. Sei não possuía uma biblioteca que pudesse dizer sua. Os livros que amara tinham sido emprestados, deixados nos aposentos de palácios desaparecidos, esquecidos junto de santuários dedicados ao Kami dos Remoinhos. Talvez nenhum leitor possua verdadeiramente os seus livros. Transporta-os algum tempo, como se transporta uma lâmpada acesa através de uma casa escura, e depois deixa-os noutro lugar, para que iluminem outras mãos.
Niji, como as obras que resistem ao tempo, era anónimo. Corria entre os letrados que o autor teria sido um velho flautista da Casa do Calendário, fabricante de clepsidras, esses instrumentos pacientes em que o tempo, em vez de correr, cai gota a gota. Chamava-se talvez Ide, Corrente de Água. Ninguém tinha certeza. Mas o livro era conhecido como o livro de Ide, e isso bastava. Há autores que sobrevivem ao nome, como certos rios sobrevivem à nascente.
Sei lavou as mãos em água perfumada e abriu o volume.
O livro narrava, por parábolas, a origem estelar das cores. Não dizia apenas que as cores provinham das estrelas: fazia-as falar. Falavam através das rosas e dos rios, do jade, das folhas de figueira, do branco frágil da casca do ovo, do amarelo dos limões maduros, do rubro das roseiras-bravas, do lilás dos quartzos abertos como frutos minerais. Cada cor parecia guardar uma memória anterior à matéria, como se a luz tivesse aprendido primeiro a sonhar e só depois se tivesse espalhado pelo mundo.
Se o arco-íris pudesse ser tocado, pensou Sei Shōnagon, cada faixa teria uma temperatura própria. O vermelho talvez queimasse como o vime exposto ao sol; o verde possuiria a frescura exacta do dorso de uma rã; o azul seria tão frio como a água que permanece na sombra de uma pedra. Mas o arco-íris não se deixa tocar. E talvez seja por isso que a imaginação existe: para dar aos olhos aquilo que as mãos não conseguem alcançar.
Era preciso, portanto, procurar na terra as correspondências do céu. Olhar demoradamente para os pomares, para a pele das frutas, para o musgo, para a poeira dourada do bambu, para a água imóvel dos tanques, e aprender com todas essas coisas o que o arco-íris dizia sem voz. Só depois seria possível erguer de novo os olhos e reconhecer, suspensa sobre os telhados e os jardins, aquela curva de sete respirações, como se o próprio céu tivesse encontrado uma maneira de abraçar a terra sem a tocar.
O livro encantara-a aos vinte anos; encantava-a de novo agora, já mulher, com uma espécie de fidelidade que não pertencia nem ao volume nem à leitora, mas àquilo que entre ambos permanecera intacto. Há livros que envelhecem connosco e livros que nos esperam. Niji fizera as duas coisas: guardara, nas suas páginas, a jovem que Sei fora e entregava-a agora à mulher que se tornara.
Quando lhe perguntaram por que razão o escolhera, Sei respondeu que o arco-íris voltava sempre. Regressava depois da chuva, curvava-se sobre o mundo como um gesto de reconciliação entre o alto e o baixo, e graduava as suas cores com uma exactidão que nenhum ser humano, por mais refinado que fosse o seu vestuário, conseguiria imitar. Nem a mais delicada combinação de uma túnica cor de ameixa com cintos de couro de veado antigo alcançaria aquela passagem perfeita do azul ao verde, do verde ao amarelo, do amarelo ao vermelho.
O arco-íris era, disse Sei, mestre dos pintores e instrutor secreto dos músicos. Estes procuravam, nas cordas dos kotos e na respiração das flautas, escalas que se assemelhassem à sua ordem luminosa. Cada nota desejava talvez tornar-se cor; cada cor, quando contemplada com bastante paciência, parecia conservar dentro de si uma música que ainda não encontrara instrumento.
Só a ideia de que o arco-íris pudesse desaparecer entristecia Sei até às lágrimas. Mas bastava imaginá-lo sobre o céu para que lhe surgisse nos lábios um sorriso duradouro. Que mais se pode pedir a um livro? As cores estão vivas; e mais vivo ainda é o ser que as reúne, por instantes, acima de nós. A terra é um cesto de prodígios; o arco-íris é a sua asa.
— Gosto de Niji — disse por fim aos que a interrogavam — porque não sabemos quem foi verdadeiramente o seu autor, nem há quanto tempo foi escrito. Gostaria que alguns dos meus trabalhos conhecessem destino semelhante. Quereria que a minha palavra fosse lisa como os seixos e fragrante como o jasmim da Índia; que reconfortasse e aquecesse as pálpebras dos leitores; que enchesse de júbilo o coração dos solitários e confirmasse o sentimento das enamoradas. Niji continua a ser o meu livro favorito porque nele a cor fala e os meus ouvidos compreendem o que ela diz.
O manuscrito original da obra mais conhecida de Sei Shōnagon, o Makura no Sōshi, ou Livro do Cabeçal, desapareceu antes do termo da era Heian. Durante séculos, copistas e eruditos trabalharam sobre as versões sobreviventes, suprimindo, glosando, deslocando e recompondo fragmentos, como quem tenta reconstruir um jardim depois de um vendaval. Apenas no século XVII surgiriam versões impressas.