“Foi um acidente?” Acho curiosa a pergunta que me fazem e ainda mais curiosa a expressão que vejo quando respondo: “Não, foi uma sépsis.”
Sépsis, não septicemia — termo obsoleto na literatura médica moderna —, é uma disfunção de órgão(s), potencialmente fatal, causada por uma resposta desregulada do hospedeiro perante uma infeção. Não é a infeção em si, como a maioria das pessoas pensa, mas uma resposta extrema do nosso sistema imunitário, que desencadeia uma resposta inflamatória generalizada. Quando não diagnosticada, pode evoluir rapidamente para choque e morte. A 13 de setembro comemorou-se o Dia Mundial da Sépsis e a efeméride visa consciencializar para esta emergência médica em que o relógio começa a contar e é preciso rapidez no diagnóstico e tratamento.
Recuo, então, àquele Natal de 2023, quando comecei com sintomas de uma simples gripe. Entre os dias 18 e 22 de dezembro, com uma ida às urgências pelo meio, os sintomas agravaram-se, de tal maneira, que até respirar doía.
Apesar de pouco me lembrar desses dias horríveis, as mensagens que enviei à família, na altura, não mentem:
“Uma boa auscultação e um bom nível de saturação de oxigénio.”
“Vim para casa. Tudo indicava que seria apenas uma gripe A.”
Quase todas as histórias de sobreviventes de sépsis têm este denominador em comum: houve uma ida prévia ao hospital e os doentes foram mandados para casa. Porquê? Porque a sépsis é um assassino silencioso e astuto. Mascara-se de doenças menores.
Os sintomas que tive foram: febre alta, uma dor horrível no corpo todo, dificuldade em respirar, vómitos, diarreia e uma prostração total. Sintomas de gripe, portanto. As pessoas desvalorizavam. O meu instinto, esse, dizia-me outra coisa.
No dia 23 de dezembro, às sete da manhã, ligo à minha mãe e peço um padre. Estava certa de que iria morrer nas horas seguintes. O meu marido arrastou-me para as urgências do Hospital CUF Tejo, onde vomitei uma última vez e me deitei nuns bancos.
De repente… tudo preto. A minha vida anterior acabou.
Acordo deitada. Tenho um tubo na boca. Tento gritar, tento mexer-me e nada acontece. Estou paralisada e, fruto de momentos de delírio, julgo ouvir as coisas mais horríveis que uma pessoa pode ouvir. “Gritam comigo, dizem-me que matei os meus filhos e que estou ali há três anos. Teria de pagar pelo que lhes fiz.” Foi o mais assustador de todo o processo até perceber que nada daquilo era real. Na realidade, tinham passado dez dias de um coma profundo. Estávamos em janeiro. Eu não fazia ideia de onde estava nem em que ano estaria.
Contaram-me, aos poucos, o que tinha acontecido naquele dia 23: uma pneumonia bilateral com empiema, a forma mais grave desta infeção, e um choque séptico provocado pela bactéria Streptococcus pyogenes. Os meus órgãos tinham entrado em falência, a pressão arterial tinha caído a pique e o Dr. João João Mendes, médico intensivista, não querendo desistir de mim, ligou-me ao único ECMO (sigla de extracorporeal membrane oxygenation que, em português, significa oxigenação por membrana extracorpórea) do hospital. Esta máquina substituiu temporariamente a função dos meus pulmões e, sem ela, teria morrido.
Os médicos tinham passado toda a madrugada de 24 de dezembro a reanimar-me com vasopressores [medicamentos que provocam a contração dos vasos sanguíneos]. As doses tinham sido tão elevadas que as minhas extremidades tinham morrido. “Ou damos, ou ela morre!”, terão dito.
A minha nova realidade estava ali.
Estava amputada.
Lembro-me da primeira vez que vi a diferença de tamanho das pernas. A direita tinha sido amputada abaixo do joelho. A minha mão dominante, a esquerda, estava disforme, sem o polegar e outras partes, e o pé esquerdo estava sem dedos, com o calcanhar todo necrosado [em morte celular]. A mão direita, curiosamente, apesar de manchada, estava intacta.
— “Vim de uma guerra!”, dizia.
— “Veio, Mafalda… e você ganhou-a”, respondeu uma enfermeira.
Lembro-me das noites de choro e gritos em que, para além de não conseguir respirar — era aspirada a cada três horas, dia e noite — deparei-me com uma dor que não conhecia: a dor fantasma. Uma dor pouco considerada pelas pessoas por ser sentida num membro que deixou de existir e, no entanto… tão real! Uma dor que, por vezes, nem a morfina que tomava todas as noites conseguia acalmar. Tinha de ser sedada.
Passaram-se assim dois anos e meio. Estive internada vários meses e tive de reaprender tudo aquilo que um ser humano dá por adquirido: segurar o meu próprio pescoço, depois as costas, pôr-me de pé, comer, beber, falar… Fiz reabilitação em vários sítios, tive outros internamentos devido a várias cirurgias, comecei a falar em público, lançaram um livro com esta história, aprendi a andar com uma prótese e também a jogar padel com ela.
Eu e a dor tínhamo-nos tornado íntimas e eu achava que a dominava, que a tinha sob controlo, até que, um dia, numa aula de padel, notei uma dor diferente. Uma dor que, até aí, nunca tinha sentido. Uma dor que irradiava por toda a perna, inclusive para o pé que não tenho. A perna cedeu e caí.
Os meses foram passando. Aguentei até ao meu limite e tive, finalmente, de admitir: não era possível continuar assim. Tinha planos, tinha sonhos mais imediatos e tive de aceitar que teria de parar e recomeçar todo o processo tão custoso que me tinha levado a andar e a recuperar a minha independência, ao fim de 15 meses numa cadeira de rodas. Isto foi um pouco como dar um rebuçado a uma criança e depois tirar-lho da boca.
Geria a dor, lidava com ela dia e noite. Os médicos “davam-me na cabeça“ e com razão: “Não se gere dor em 2026, Mafalda.” Teimosa como sou, andei de prótese até à tarde da minha última cirurgia… apoiada numa muleta. Osso cortado, nervo seccionado, músculo recolocado e voltei à cadeira.
Recomeçaram as dores, mas como estas nunca tinha sentido. Tive episódios de dor que me levaram a pensar, pela primeira vez: “O que fiz eu para ter de passar por isto?” Quem me conhece sabe que não gosto de vitimização. Nunca me considerei uma vítima. Muito pelo contrário.
A parte boa deste episódio? Há sempre uma. Fui parar novamente às mãos do Dr. João João Mendes e pude ter uma estadia curta na minha “querida” Unidade de Cuidados Intensivos Polivalentes, onde esta minha nova vida começou.
Os nervos do coto — assim se chama o membro residual — foram bloqueados e estou medicada para as dores fantasma, uma sensação de dor e desconforto sentida em partes do corpo que foram amputadas ou retiradas. Estou bem, por agora. A dor fantasma existe. Penso que, a este ponto, existirá sempre… mas aceito-a. Como aceito a recordação daquele meu pé, que andou quilómetros, dançou flamenco — o meu passatempo anterior — e correu numa praia.
Deu-me muito e fez parte de mim. Estou pronta para recomeçar.
Mafalda Cancela de Abreu é mãe de dois filhos, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e trabalhou em produção de espetáculos na Fundação Gulbenkian. Colaborou no lançamento do livro “Sobre Viver”, de António Cabral Barbosa (Ego Editora) e é convidada para dar palestras onde promove a sensibilização para a sépsis. É uma das cronistas convidadas da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor.