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(A) :: É a leitura, estúpido

É a leitura, estúpido

Ler é uma forma de reagir à morte, de não ter tanto medo, porque há personagens que são maiores do que a própria morte. E, com sorte, talvez nós também possamos ser.

Leonor Gaião
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Há dois dados que parecem cada vez mais evidentes dentro do meio escolar e educacional: lê-se pouco e aparentemente estamos “todos” preocupados com isso. É verdade que se lê pouco, mas talvez interesse perceber o que preocupa verdadeiramente a sociedade. Nos meios de comunicação social, as manchetes concentram-se na palavra resultados: “alunos portugueses pioram resultados”; “ministro vai explicar maus resultados”; Presidente preocupado com resultados no PISA”.

Estes três factos: 1. A falta de leitura, 2. Os maus resultados dos alunos e 3. A preocupação da sociedade com os resultados faz-me questionar se esquecemos o que significa ler.

Ler, como todos os verbos que comportam as nossas ações, não é palavra que eu possa dar-me ao luxo de definir como se a conhecesse melhor do que os outros. Talvez pudesse inventar-se um ditado como “Amar, sofrer e ler cada um faz à sua maneira”. Por isso, o meu sentido de ler está enraizado na minha própria intimidade e, sabendo que vou faltar à verdade para alguns, é possível que a minha experiência seja partilhada por outros.

O meu prazer de ler começou com a descoberta da intimidade partilhada que estava escondida nas histórias para crianças e pelas Gémeas no Colégio de Santa Clara. O fascínio de descobrir as similaridades com a vida real, mas, principalmente, sobre o que podia ser a vida se a vivesse como estava escrita. A ficção parecia assumir a projeção sobre o não dito e sobre o que eu queria para a minha vida, com mais aventuras do que aquelas que eu parecia conseguir viver na realidade.

Em casa, com a sorte de ter um pai que sempre viveu com um livro na mão, e de estar rodeada de paredes de livros, os sentidos foram evoluindo para a realização de que os “livros dos adultos” escondiam qualquer coisa que os livros para crianças evitavam com astúcia. E pelos 11, 12 anos, quando a morte e o amor começam a ecoar nos nossos pensamentos como qualquer coisa que desponta assustadoramente, e a vida parece tomar a forma de tragédia, de um teatro que tem de ser vivido, mas que custa a compreender, entravam esses livros, onde as personagens se matavam por amor, onde o amor nem sempre era correspondido, onde a morte arrepiava até as personagens mais corajosas, onde as famílias nem sempre eram felizes, ou onde a felicidade não era dada de bandeja a toda a gente. O Primo Basílio e O Retrato de Dorian Gray foram os meus primeiros “livros de adultos”, aqueles onde descobri que a felicidade não era mais essa estrada linear que as gémeas viviam em Santa Clara. E nunca vou esquecer o encantamento que tive pelos mundos daquelas pessoas, pela intensidade do amor que a Luísa sentia pelo Basílio, pelo amor que podia afinal ser fútil e superficial ou desprovido de verdade como aquele que Basílio encenava quando passava goles de champanhe para a boca de Luísa. Nem esquecer a crueldade do Dorian Gray com os sonhos da Sybil Vane nem esquecer que os humanos têm tanto medo de envelhecer como da morte. Nem esquecer que nos podemos deixar enfeitiçar pela beleza, pela tragédia, pelo amor e pelo medo de realizar que não conseguimos ultrapassar a morte nem transpor os limites das nossas nossas próprias vidas. Ler é saber que a morte nos ultrapassa, uma forma de reagir à morte, mas também uma realização de que quando lemos, a morte parece mais pequena e não a tememos tanto porque há personagens que são maiores do que a própria morte. E, com sorte, talvez nós também possamos ser.

Daí que, dito tudo isto, que não chega nem para explicar uma pequena parte do que estas histórias fizeram por mim, sinta a confusão de ouvir relacionar leitura com resultados, com competências, com sucesso, com relatórios de avaliação de desempenho. Ler, se pudéssemos esmifrar a palavra, ainda descobriríamos que significa desmembrar certezas. Onde pára o erro de tentar ensinar aos miúdos que ler é uma ação para os tornar melhores alunos, melhores filhos, melhores trabalhadores, melhores numa escala de medida à qual estamos sempre a acrescentar mais degraus?

Como as bases de um prédio, ler é uma espécie de fundação do nosso mundo. Quão errados estarão os adultos quando pedem aos miúdos que leiam para que as notas subam, o desempenho prevaleça e os resultados dos exames deem frutos? Ler, quanto muito, pode ser um paraquedas para quando tudo o resto falha. E sem certezas de que o desempenho vai sempre subir, porque viver é esse jogo de ganhar e perder, ler também ensina que o desempenho não é uma medida sempre exacta e racional. E que o sucesso tem muitas maneiras de ser medido (e sentido).

Resta saber se também viessem cá para fora os “maus resultados” dos “alunos” dos 18 aos 99 anos estaríamos tão preocupados com as nossas leituras e a falta delas. Talvez devêssemos estar.