Esquecemos demasiadas vezes que, como país europeu e do hemisfério norte, Portugal tem um excepcional número de ilhas, identificáveis em cinco complexos — Berlengas, Selvagens, Desertas, Madeira e Açores — com especificidades geológicas, biológicas e de povoamento (ou não) e história que bem as distinguem entre si, e são território nacional há seiscentos anos ou mais, ainda que boa parte delas — as duas últimas — tenha autonomia administrativa e até bandeiras próprias, de cinco décadas a esta parte. Em pleno oceano, e até quase 2000 km afastadas do Portugal continental — que é a distância entre o cabo da Roca e o ilhéu de Monchique, na ilha das Flores, ponto mais ocidental da Europa —, todas essas ilhas são ao mesmo tempo um enorme património natural e verdadeiros laboratórios científicos a céu aberto, do vulcanismo à migração de aves, da biologia marinha aos fósseis e aos sistemas meteorológicos em mutação, que justifica equipas de estudo, protecção e monitorização no terreno, e atrai cada vez mais os chamados turistas de natureza, e com estes — ou aquém destes — fotógrafos especializados, observadores solitários e discretos do que ali está há séculos ou milénios e que o homem — esse grande predador — põe cada vez mais em perigo, como quem ousa desafiar imprudentemente o tempo, esse grande escultor.
Paulo Henrique Silva é um desses fotógrafos, mas distingue-se também como arquivador dos mais variados sons da natureza, o que faz do seu trabalho, alargado ao documentarismo, um caso raro neste domínio. Nove anos depois da primeira edição deste título, feita sem as melhores condições pela associação açoriana Os Montanheiros, a que pertence, decidiu relançar esse panorama de imagens e sons recolhidos em todas as ilhas portuguesas durante o longo período que vai de maio de 2008 a julho de 2016. O formato bastante maior e sobretudo a nova organização geográfica permitem-nos passear com ele pelos sucessivos ambientes insulares, prestando atenção ao que no chão, no céu e no mar constitui a rica biodiversidade destes territórios.

Sem descurar os panoramas de grande efeito, em especial as grandes massas rochosas erguidas sobre a platitude oceânica, como na imponente Ponta de São Lourenço, na Madeira (pp. 129 e 130), em vistas litorâneas da Deserta Grande (v. pp. 74-75) ou na Costa da Serreta terceirense (p. 184), interessam a Paulo Henrique Silva os registos de proximidade, como bicos de ave, líquens os mais variados, a carapaça do caranguejo-peludo (Eriphia verrucosa) que viu na Deserta Grande (p. 94), a jazida fóssil do ilhéu de Cima, no Porto Santo, a bocarra nada atractiva — como se imagina — do morcego-dos-Açores, o Nyctalus azoreum da p. 179, a pele quase metálica da lagartixa-das-Berlengas (p. 229), a tarântula do Ilhéu do Ferro (p. 128) ou algumas flores, como a vidália (Azorina vidalii, p. 168), fotografada na Terceira, a Spergularia rupicola das Berlengas (p. 231) ou belo fungo Madre-de-Louro, avistado na Madeira (p. 113). E, claro, o belo pássaro chamado Corre-Caminhos (p. 36), subespécie endémica da Macaronésia, e o melro-preto de São Jorge (p. 195). Talvez demasiado fiel à associação de espeleologia a que pertence, e de algum modo representa nos seus trabalhos editoriais, Paulo Henrique Silva não mergulhou nas águas das ilhas de Portugal, cuja fauna e flora estão ausentes deste portefólio, embora muitas boas razões houvesse para que assim não sucedesse.
São cerca de 230 fotografias que nos dão sinal dessa variedade do mundo natural nas ilhas portuguesas, mas também nos trazem a presença de outros naturalistas em campo, como o vigilante e desenhador Isamberto Silva e a bióloga Nádia Coelho, nas Desertas, ou o biólogo e veterinário francês Joël Bried, activo na Graciosa, e certamente outros mais haveria se esta campanha decorresse para cá de 2016. O autor entendeu não completar, com novas imagens, esta conversão do livro de 2017, ainda que outras entretanto publicadas nos álbuns Florestas das Nuvens (2023) e Capelinhos. Fotobiografia de um Vulcão (2025), a que neste jornal fiz referência, o pudessem enriquecer ainda mais. Do mesmo modo, a presente edição ganharia em disponibilizar um índice dos espécimens vegetais, animais e minerais que documenta, pois isso permitiria rápida consulta e a percepção, num só relance, do que ali existe e pode estar em risco de se perder, por fatalidade natural ou destruição humana.
A preservação ambiental está definitivamente na ordem do dia e não pode ser negligenciada por governo de qualquer cor ou tipo, mas também é responsabilidade de cada qual fazer a sua parte, que começa pela consciência do valor do que se tem e onde. Este novo e velho livro de Paulo Henrique Silva ajuda-nos certamente nisso.