Entramos numa espécie de caverna. Há tubos de esgoto em grés vidrado de onde irrompem plantas ruderais, água que corre tal como numa fonte e pinturas que evocam criaturas que emergem de um território subterrâneo. É esta a paisagem fluida, imersiva e sensorial de Águas Turvas, a primeira exposição de Inês Zenha (n. 1995) num museu nacional. Abre portas esta sexta-feira, dia 18 de setembro, no CAM Gulbenkian, em Lisboa. Entre barro, cerâmica, pintura e elementos naturais, a artista portuguesa apresenta um território atravessado por questões de identidade, desejo e corporeidade, marcado pelo modo como olhamos para o outro que se dá a ver.
Como se nos situássemos num futuro pós-apocalíptico, encontra-se logo nesse primeiro gesto uma chave de leitura essencial: por mais contida ou restringida pela ação humana, a natureza encontra sempre formas de ressurgir e florescer. É também a partir desta metáfora de resiliência e transformação que a artista portuguesa aborda a ideia de uma travessia pelo seu próprio universo, pelo seu corpo e pela sua individualidade. Da água que corre às ervas que brotam espontaneamente das peças, os elementos parecem reclamar o seu lugar num espaço que é, afinal, vivo e pulsante.
“Trata-se, acima de tudo, de um trabalho interior e material com as minhas próprias verdades e com a oportunidade de construir uma narrativa. Quero dizer algo com estas Águas Turvas, que são um olhar sobre a minha vida e o meu passado”, partilha a artista. Para Inês Zenha, a caverna e a invocação do esgoto prendem-se com a vontade de trabalhar sobre “o que é sujo ou as moralidades vigentes”, numa tentativa de dar voz a identidades tantas vezes remetidas ao silêncio.
Este gesto é, em simultâneo, uma exigência de espaço e um apelo: “Trata-se de reclamar um lugar de visibilidade. É um convite a lidarmos e enfrentarmos o que é estranho e diferente do que nos é imposto pela sociedade como ‘não natural’, algo que pode provocar sentimentos de nojo ou de julgamento, sendo que esse julgamento nos toca a todos”, defende Inês Zenha. “Por isso, quando caminhamos por este percurso, estamos a falar de nós próprios para, quiçá, nos libertarmos desses constrangimentos sociais.” A partir dessa dimensão, como realçam os curadores João Mourão e Luís Silva, importa sublinhar como nesta mostra se acolhe o que é obscuro e, por vezes, monstruoso – mas, sobretudo, o que é queer.

Depois de ter sido apresentada em Madrid, numa primeira versão, a exposição é aqui desenvolvida com novos acrescentos. “Há uma peça concebida especificamente para o espaço e que traz o elemento da água que corre, que é uma metáfora sobre a fluidez dos corpos, nomeadamente o corpo queer”, explica João Mourão. “Falamos de identidades que estão sempre a procurar caminhos para sobreviver. O que vemos na exposição é também essa narrativa da procura do lugar, de uma chosen family que serve de suporte e que acolhe nessa construção do eu. Tudo isto para chegarmos do subterrâneo a um espaço mais elevado, onde tudo se entrelaça e se sustenta mutuamente”, acrescenta.
Com um imaginário fantasioso, as obras de Inês Zenha reforçam a ideia de uma presença, à primeira vista, estranha e desconfortável, sem nome e sem género definido. Num tríptico de telas a óleo, várias figuras próximas do humano convivem e habitam o espaço em harmonia, apontando para um lugar de beleza e subjetividade que é também, necessariamente, político. “São reflexo de um processo de lidar com questões de vergonha, de culpa e daquilo que quero ser. É um ato de amor-próprio e isso foi sempre difícil de transpor. Esta exposição invoca isso, sendo o meu trabalho o lugar onde tenho a coragem de assumir coisas que tenho dentro de mim”, explica a artista ao Observador.
Do pó ao pó, do barro ao barro
Ao fundo da sala, uma parede gigante feita de barro espelha novamente esse irromper, seja através das esculturas que ali abrem fissuras, seja pelas pequenas ervas daninhas que, de forma inesperada, ali nascem e ganham forma. A matéria foi retirada do próprio solo e transportou consigo sementes que acabaram por germinar dentro da exposição. “É, por isso, uma exposição que está também viva”, resume o curador Luís Silva. Se a montagem original em Madrid serviu de ponto de partida, no CAM o processo partiu da disponibilidade para deixar que o próprio espaço ditasse novas possibilidades. Quando surgiram as primeiras plantas, o efeito foi de surpresa, mas também de confirmação: a vida encontrava, uma vez mais, uma forma de irromper. É nessa imagem que o curador encontra uma das ideias centrais da mostra. “Há sempre algo que floresce no solo ou nos lugares mais inesperados”, diz.
Mesmo para a artista, as obras continuam, por isso, a suscitar ambiguidade e a refletir um processo emocional de descoberta própria. “É algo que me surpreende e que provoca o tal sentimento de estranheza que quero provocar no outro”, realça. Tal como acontece quando alguém tem uma expressão de género ambígua e os outros acabam por projetar nessa pessoa os seus medos e desejos, também nestas águas se sente essa projeção. Aqui, contudo, inverte-se a lógica para abraçar essa estranheza que, para a artista, pode ser motivada “pela curiosidade, mas também por uma oportunidade de aprendizagem” sobre as diferentes formas de estar e de ser. “Não acho que tenhamos de nos colocar no lugar do outro para ter empatia, mas podemos jogar com isso para exigir, pelo menos, respeito”, sustenta.

Há também uma dimensão profundamente manual nesta exposição, uma atenção ao gesto e à própria condição da matéria. Para Luís Silva, essa manualidade é uma tendência crescente na criação contemporânea, preservando-se aqui a relação direta da artista com a matéria. É nessa relação que o curador identifica a fluidez que atravessa o trabalho de Inês Zenha. “Tal como a água, que não se deixa definir, também a exposição recusa uma forma fixa, convocando o visitante a pensar sobre a constante construção da identidade”.
Entre a transformação da matéria e a abertura do olhar, ecoa uma certa intuição saramaguiana: a de que nada começa sem que acabe, nem nada acaba sem que comece. Do pó ao pó, do barro ao barro – numa alusão a uma passagem de O Evangelho Segundo Jesus Cristo –, as obras de Inês Zenha recusam definições fechadas, exatamente porque cada visitante nelas projeta e reconhece géneros e figuras distintos. Não há uma verdade única nas imagens que ali brotam. Como a exposição sugere, por vezes é precisamente da “invenção desses mundos alternativos que precisamos para conseguir imaginar e abraçar quem realmente somos”, diz a artista.
Chegados ao fundo desta caverna, a água estagnada dá lugar a um ecossistema fértil. Transforma-se num habitat subterrâneo de bactérias e microrganismos que alimentam e sustentam novas formas de vida. “É aqui onde desaguam estas águas”, sintetiza o curador Luís Silva, apontando para as figuras que habitam este espaço e que se abraçam, cuidam e acolhem mutuamente. É nessa imagem de regeneração que Águas Turvas encontra a sua expressão mais inteira.
Para assinalar o segundo aniversário da reabertura do CAM, no fim de semana de 19 e 20 de setembro, as exposições terão entrada gratuita e haverá uma programação especial. Em paralelo com a exposição de Inês Zenha, o CAM inaugura também A Exposição de um Sonho, uma instalação sonora, com curadoria de Mathieu Copeland, a partir do trabalho do músico, compositor e performer alemão FM Einheit, convidado a compor dezasseis obras a partir dos sonhos escritos por Gabriel Abrantes, Robert Barry, Genesis Breyer P-Orridge, FM Einheit, Alexandre Estrela, Tim Etchells, Susie Green, Karl Holmqvist, David Link, Pierre Paulin, Emilie Pitoiset, Lee Ranaldo, Lætitia Sadier, Susan Stenger e Apichatpong Weerasethakul.