No Domingo, dia 6, fui desinteressadamente alertado por um noticiário espanhol para a possibilidade muito real (como depois veio a acontecer) de uma retumbante vitória de um partido de extrema-direita num estado da Alemanha. A acontecer, informavam-me gratuitamente, seria a primeira vez que um partido de extrema-direita governaria um estado alemão desde o final da Segunda Guerra Mundial. A situação parecia gravíssima, enquanto na televisão passavam, solicitamente, entrevistas à boca das urnas a cidadãos comuns que temiam pelo seu futuro e pelo dos seus filhos.
Foi então que dei por mim a pensar: se quase metade dos eleitores da região vai votar em tal aberração, não seria mais interessante do ponto de vista jornalístico, entrevistar aqueles cidadãos (cerca de 44%, quase um em cada dois) que votam no tal partido, para tentar perceber o porquê? Reparem que isto nem sequer sucedeu na estação de televisão pública às ordens do gangue de Pedro Sánchez. Foi mesmo na insuspeitamente centrista, ou até ligeiramente à direita, Antena 3.
No dia seguinte, já com os resultados na mão, resolvi indagar um pouco mais. Parece que os tais eleitores são pessoas entre os 35 e os 59 anos (52%), com uma situação económica precária (65%), não universitários (52 a 57%), trabalhadores por conta de outrem (59%) ou auto-empregados (52%). Ou seja, aquilo a que se costumava chamar povo trabalhador e que a esquerda, da extrema ao centro, sempre presumiu representar.
Por outro lado, os grupos em que o AfD conseguiu menor representação foram os reformados (38%) e, presumivelmente, os funcionários públicos, ou seja, aqueles cujos rendimentos são directamente pagos pelo Estado. Já o referi várias vezes: o tal crescimento da extrema-direita explica-se, em grande parte, como uma revolta dos que pagam o Estado Social e percebem que estão a pagar muito para o pouco que irão receber no futuro.
Esta análise socioeconómica parece continuar a passar ao lado de grande parte da classe jornalística dos grandes meios de comunicação, onde o fenómeno da emergência da extrema-direita (ou nova direita, ou direita alternativa) está inevitavelmente ligado ao fenómeno da imigração («migração» na sempre obscurantista linguagem do politicamente correcto) e ao medo que esta acarreta para as populações locais. A peça que a Antena 3 passou – e provavelmente comprou a uma cadeia alemã – só entrevistou pessoas que incidiam nesse perigo).
E, quando a situação socioeconómica dos eleitores vem à baila é, ou bem para insinuar que são ignorantes, ou para sugerir que a sua relativa pobreza os transforma em presas fáceis do populismo da extrema-direita. Neste caso a receita passa, quase invariavelmente pelo aumento do gasto social. Como se esta não tivesse aumentado paulatina e constantemente nas últimas duas décadas.
A primeira tese enfrenta a meu ver um grande problema, que é a realidade. No mundo real, a Alemanha tem cerca de 15% de estrangeiros, mas a sua parte oriental – aquilo a que, paradoxalmente, durante cinco décadas se chamou Alemanha Democrática – tem entre 5% e 7% de população estrangeira, constituída em grande parte por ucranianos, polacos e romenos, alguns mesmo descendentes de alemães da antiga Prússia ou do Império Austro-Húngaro. Pessoas que possuem a “cor certa”, portanto.
Se a questão fosse o aumento da xenofobia, seria expectável que o crescimento destes partidos se desse nos dois terços da Alemanha onde a presença de estrangeiros de pele escura é mais notória. No entanto, o crescimento da AfD ocorre nas regiões com menor percentagem de estrangeiros. Mais relevante será, talvez, perceber que ocorre nos locais onde os salários são mais baixos. A Saxónia-Anhalt tem o 14.º salário médio mais elevado entre os 16 estados alemães.
Não quer isto dizer que a questão da imigração não estivesse presente nestas eleições; simplesmente, não foi relevante ao ponto em que nos querem fazer crer. As sondagens também parecem indicar isso. As maiores preocupações dos eleitores na Saxónia-Anhalt (todos os eleitores e não apenas os da AfD) eram, de acordo com uma sondagem à boca das urnas feita pelo Bild, a sustentabilidade da segurança social (25%), a paz na Europa (17%) e a economia (15%).
Uma das conclusões mais destacadas desta sondagem é que 55% dos inquiridos (mais do que o número de votantes da AfD) afirmavam estar preocupados com o aumento do número de estrangeiros na Alemanha: mas, na hierarquia das preocupações, a criminalidade e a manutenção da ordem pública ficaram em quarto lugar ex aequo com a educação, ambas com 13%.
Muita gente quererá ver nos 55% de respostas afirmativas um claro indício de racismo, apesar de se tratar de uma pergunta de sim ou não. Para colocar a coisa em contexto, 70% dos inquiridos afirmaram não conseguir chegar ao fim do mês, uma pergunta muito mais objectiva. O problema não é o racismo, é a economia.
Entre 1990 e 2008 o PIB real per capita aumentou 35% nos 18 países europeus onde a Nova Direita cresceu de 4-5% para cerca de 20% dos votos. Desde 2008 até 2025 apenas 12%. Quase duas décadas para crescer aquilo que antes se crescia em pouco mais de meia. Este é um ritmo inferior ao necessário para sustentar o Estado de Bem Estar. A despesa pública desses 18 Estados em saúde e fins sociais aumentou de 24% para 28% do PIB entre 2008 e 2025, financiada tanto pelo aumento dos impostos como pelo crescimento da dívida pública.
A imigração representa um aspecto importante neste cenário, na medida em que existem várias estatísticas que indiciam que, com a excepção dos oriundos do Extremo Oriente, a maioria dos imigrantes não-europeus são receptores líquidos de fundos da segurança social, enquanto os restantes grupos (incluindo os imigrantes de origem europeia) são contribuidores líquidos, em maior ou menor grau.
Pensar que o aumento da xenofobia é causa e não consequência eleitoral, é não estar atento às preocupações dos eleitores. Tanto é assim que até o líder local da AfD, Ulrich Siegmund, de quem na peça se dizia ser “considerado por alguns o homem mais perigoso da Alemanha”, apesar de nunca ter conduzido um camião a toda a velocidade por um mercado natalício, atropelando transeuntes, ou coisa parecida, sempre insistiu que o que pretende é acabar com a imigração ilegal.
Medida que é, aliás, aquela que normalmente propõem estes partidos, de Meloni a Ventura. Ou seja, mesmo que toda esta gente ande com suásticas bordadas na roupa interior, sabem que a xenofobia não dá votos na sociedade europeia, mas o medo do colapso do Estado Social, sim.
É por isso que defendem perante o eleitorado medidas que acreditam (de forma ilusória, na minha opinião) poder remediar essa situação, entre as quais travar um determinado tipo de imigração. E, na medida em que o eleitorado a) está genuinamente preocupado com a situação e b) acredita que essa é a solução, os resultados eleitorais destes partidos continuarão a aumentar.
A realidade é também que a despesa pública não parou de aumentar nas últimas décadas. A diferença, nos últimos anos, é que a dívida pública, aquela que os políticos juravam – e inclusivamente muitos economistas – juravam não ser para pagar, é cada vez mais cara e exige uma fatia cada vez maior dos impostos.
Na grande maioria dos países da OCDE, incluindo os Estados Unidos, o serviço da dívida já é superior ao gasto em Defesa. A OCDE prevê que, em 2047, o seu custo seja superior à despesa social nos EUA (e, para os que pensem que isso acontece porque ali o Estado gasta pouco em educação, saúde e pensões, nos outros países esse Armageddon poderá chegar mais cedo).
Na minha modesta opinião, nunca chegaremos a isso, porque a economia implodiria antes. Mas a verdade é que o crescimento da economia nas últimas duas décadas é insuficiente para sustentar o aumento da despesa pública previsto e, de alguma forma, inexorável. O compromisso assumido pelos Estados ocidentais assim o determina.
E o cenário de diminuição das taxas de juro, que os Estados aproveitaram para pagar as contas numa economia que teimava em não crescer, cada vez mais lastrada pelos recursos que a coisa pública lhe confisca, pertence irremediavelmente a um passado cada vez mais longínquo. A substituição, para não falar no aumento, da dívida pública será cada vez mais cara num futuro previsível e não há crescimento económico que a viabilize (se houvesse, os juros desceriam sem qualquer intervenção dos bancos centrais).
Enquanto a esquerda perde o eleitorado pobre, clamando por um aumento ainda maior da despesa pública que o Estado já não pode pagar, e a direita clássica, chamemos-lhe assim, se esforça por salvar esse mesmo monstro, aumentando os impostos e/ou reduzindo as prestações, a chamada extrema-direita tenta resolver (com ou sem demagogia, é irrelevante; o que importa é a percepção dos eleitores) os problemas reais dessa mesma população ou, pelo menos, serve de instrumento de vingança para aqueles que se consideram esquecidos pelos poderosos.
O único caminho que poderia começar a resolver a situação seria o desmantelamento gradual de um Estado Social que se tornou demasiado grande e autofágico para ser sustentado. Mas esse é um caminho que, visivelmente, ninguém propõe no espectro político.
As consequências (inflação, menor crescimento económico, contracção demográfica, redução da produtividade e aumento da polarização) já não estão à porta. Como os imigrantes, começaram a entrar há muitos anos. O problema é que começa a ser impossível esconder em ghettos tanto uns como outras.
Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.