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Shakira à conquista de Madrid: começa esta sexta-feira a "celebração da latinidade" com 12 concertos (e não só)

Lucros recorde e 650.000 espectadores na "maior residência da história da Europa". Shakira fundou uma nova cidade em Madrid dedicada ao espírito latino e a inspiração foi Gabriel García Márquez.

Mariana Carvalho
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Shakira regressa a Madrid para celebrar a “latinidade”, após 8 anos afastada dos palcos espanhóis. Começa esta sexta-feira a residência de 12 concertos da colombiana numa cidade em ponto pequeno desenhada à sua medida, o Macondo Park — que o diretor da Live Nation em Espanha comparou à “Disneylândia”. Nas 12 datas anunciadas, que antecipam cerca de 650.000 espectadores, a cantora propõe uma experiência que combina música, literatura, gastronomia, moda, dança e artes visuais, distribuídas por 30 hectares do bairro madrileno de Villaverde.

“O festival ‘Es Latina’ converte Madrid no epicentro de uma celebração aberta, onde a latinidade se vive através da criatividade, sensibilidade e cocriação”, lê-se na sinopse da “maior residência da história da Europa“.

As mulheres não choram, as mulheres faturam“, já dizia Shakira na polémica canção que fez com o produtor e DJ argentino Bizarrap em 2023, após a separação do futebolista Gerard Piqué, com quem esteve casada durante 11 anos. Além dos lucros de bilheteira e merchandising que a equipa da colombiana deverá arrecadar no evento, com bilhetes entre os 73 e os 700 euros, também se esperam dividendos significativos para a cidade de Madrid — e que já foram estimados em mais de 100 milhões de euros.

Segundo o jornal El Mundo, 19% dos espectadores das 12 noites de residência são originários do outro lado do Atlântico, especificamente da América Latina, o que antecipa rendimentos significativos nos mercados de alojamento, restauração, transportes e comércio. A plataforma de reservas hoteleiras Booking confirmou um aumento de procura superior a 50% face ao mesmo período do ano passado. Já a agência de viagens Kiwi.com registou um aumento de 84% nas reservas de voos com destino à capital espanhola.

Numa carta que Shakira remeteu ao El País na antecipação do evento, escreveu que, em Madrid, “a imigração é tolerada, é celebrada”. “Espanha abraçou-a”, continua a artista, “e esse abraço tornou [o país] mais jovem, mais pujante, mais criativo. A integração comove pela sua naturalidade, talvez porque, há cinco séculos, foram os espanhóis que cruzaram o oceano”. A hospitalidade da capital espanhola, onde uma em cada sete pessoas é originária do continente americano, foi a razão pela qual Shakira decidiu “montar acampamento” em Madrid, o único destino europeu da “Las Mujeres No Lloran World Tour” — a digressão mais lucrativa de sempre no contexto da música latina.

O presidente da Câmara de Madrid, José Luis Martínez Almeida, admitiu estar “orgulhoso” da cantora que definiu como “a artista latina mais reconhecida do mundo” e cuja residência honra a cidade que preside. Depois de superar a “Debí Tirar Más Fotos World Tour”, de Bad Bunny, em lucros, a digressão de Shakira conseguiu acumular 417 milhões de euros, apenas atrás de Coldplay, Beyoncé e The Weeknd no panorama internacional.

Macondo Park: a “Disneylândia” de Shakira inspirada em Gabriel García Márquez

“Junto ao estádio, estamos a construir algo mais: uma cidade“, escreve Shakira na mesma nota endereçada ao El País. “Trinta hectares para celebrar e entender a nossa cultura, com mais de cem artistas amigos, onde cada visitante poderá atravessar ‘o latino’ pelo caminho que preferir: literatura, dança, música, moda, gastronomia, cinema, arte.” Esta é a premissa do Macondo Park, um parque temático inspirado no universo literário do escritor colombiano Gabriel García Márquez, e no qual Shakira assume o papel de protagonista.

“Não falo [apenas] da mistura [de culturas]: eu sou essa mistura”, continua a carta. “E o que quero celebrar em Madrid é o resultado bom de estarmos todos misturados. García Márquez foi o grande explorador desse território. Ninguém entendeu como ele os vínculos, a imaginação, a felicidade, a mistura que somos. Macondo [Park] não é uma cidade: é um espelho.”

O local eleito pela cantora foi o espaço Iberdrola Music, no bairro suburbano de Villaverde (região sul de Madrid), onde anualmente se realiza o festival Mad Cool. Com uma extensa área verde de 300.000 metros quadrados (30 hectares), e inspirado no tema do evento, “Es Latina”, deve abranger uma série de estruturas provisórias — como um estádio que acolhe 55.000 pessoas e um ecrã LED expedido especialmente da China e com 244 metros de comprimento.

Mas as opções de entretenimento são bastante mais ambiciosas e abrangem todas as faixas etárias. Há um parque infantil, uma livraria, um edifício que exibe desfiles de moda, uma praça destinada à divulgação do flamenco, um museu temático da cantora, uma área onde são recriados os cenários dos seus videoclips mais icónicos e um palco secundário. Este segundo espaço de atuações recebe um catálogo de artistas originários de todo o universo latino — inclusive de Portugal, que a cantora MARO representa. Além dela também constam da programação os espanhóis Amaia, Nathy Peluso, Guitarricadelafuente e Lia Kali, a argentina Louta, a boyband mexicana Santos Bravos, entre outros.

A livraria é responsabilidade do grupo editorial Penguin Random House e apresenta uma seleção de livros vinculados ao universo cultural da cantora, provenientes de todas as latitudes do mundo latino. Também dispõe de uma programação variada, que inclui clubes de leitura e encontros com autoras — não fosse o evento marcado pela omnipresença do feminino —, como Julia Navarro ou Rosa Montero. “O Atelier”, dedicado à indústria espanhola da moda, combina exposições e desfiles, e tem a participação especial da designer e empresária Ágatha Ruiz de La Prada e de outros nomes nacionais. Ali será apresentada a marca de produtos capilares de Shakira, ÍSIMA. Os gastrónomos podem visitar “O Mercado”, onde o chef sevilhano Rafa Zafra concebeu um menu de inspiração latino-americana, apoiado por uma equipa de chefes de renome internacional.

O espaço está aberto apenas a quem adquiriu bilhete para os concertos, e nos respetivos dias — que se distribuem por quatro fins de semana entre 18 de setembro a 11 de outubro — das 15h30 às 00h15. Todas as noites terminam com uma banda do Carnaval de Barranquilla, a festividade mais celebrada (e declarada património oral e imaterial da humanidade pela UNESCO) da cidade onde Shakira nasceu, na costa norte da Colômbia.

“O carnaval é a expressão máxima de um povo que nasceu da fusão”, continuam as declarações da cantora, que aterrou em Madrid na segunda-feira, instantaneamente rodeada por uma legião de fãs. “Em Madrid somos todos latinos. […] A solidão não tem de durar cem anos. E que as estirpes aprendam a abraçar-se e tenham uma segunda oportunidade sobre a terra”, conclui Shakira, numa referência ao livro de culto de García Márquez, Cem Anos de Solidão.