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(A) :: Mais in que a luz de Lisboa é dar à luz em Lisboa

Mais in que a luz de Lisboa é dar à luz em Lisboa

Então parece que o hospital Amadora-Sintra é mais visitado que o Mosteiro dos Jerónimos?! E eu a pensar que o problema do turismo em Portugal era a gentrificação. Afinal, é a hospitalização.

Tiago Dores
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Ai, ai, ai, que vai tudo à vida com a AI! O que será surpreendente e chocante para todos aqueles que, neste momento, estiverem a 26 de outubro de 1984, à entrada da estreia d’O Exterminador Implacável. De resto, só mesmo alguém muito, muito distraído não percebeu, há imenso tempo, que vamos todos falecer às mãos de robôs psicopatas. Alguém tão distraído que, por exemplo — imaginem —, tivesse sido número dois de um governo de José Sócrates e nunca se tivesse apercebido que havia para ali trafulhices.

O facto é que os líderes das três maiores empresas de IA do mundo soaram o alarme: o desenvolvimento da tecnologia tem de abrandar; é preciso regulamentar o sector. Terá? Será? Obviamente, contactei um especialista para me responder a estas questões. Ele, obviamente, não atendeu. Por sorte, tenho sempre por perto — demasiado perto — um palerma que, não podendo afirmar grande coisa sobre o assunto, consegue, pelo menos, articular uma questão:

A quem interessa abrandar e regulamentar a IA? Por exemplo, à China. Que, obviamente, assinaria de imediato um qualquer acordo de “não-proliferação da IA” com uma mão, no exacto instante em que, com a outra, dava uma gasada (não, não tem nada a ver com a Faixa de Gaza) à proliferação da IA. A Europa a fechar centrais nucleares e a carvão enquanto a China constrói uma a cada 17 segundos, diz-vos alguma coisa?

Abrandar e regulamentar a IA também interessa às actuais três grandes empresas mundiais do sector. Abrandar seria bem-vindo porque o desenvolvimento desta tecnologia custa — perdoem o jargão técnico — um testículo de dinheiro. E regulamentar seria de sonho porque, na prática, barraria o acesso de concorrência ao mercado. Já agora, a malta da área do Bloco de Esquerda, que adorava o Elon Musk quando ele começou a fabricar carros eléctricos e que, mais rápido do que se diz “Trump”, passou a querer vê-lo morto por apoiar o POTUS, podia voltar a adorar o Musk por ele, neste caso, desejar mais poder para o Estado. Já foi o acampamento de verão deste ano? Podiam muito bem convidá-lo e fazer as pazes.

Por fim, regulamentar a IA é, para os burocratas do Estado, como largar uma pazada de açúcar em cima de um formigueiro: um maná de leis, decretos, comissões, análises, regulamentos, estudos, gabinetes, convenções, fundações, memorandos, pareceres, e tudo o mais que se possa inventar ao nível de burocracias, com os contributos indispensáveis do Claude, claro, mas sobretudo do dinheiro dos contribuintes.

No caso português, os nossos burocratas têm apostado mais em não regulamentar — muito afincadamente — o uso dos hospitais portugueses pelos chamados “turistas da saúde”. Segundo a presidente do hospital Amadora-Sintra, por exemplo, 40% dos utentes do serviço de obstetrícia daquele hospital são pessoas que vêm a Portugal de propósito para usufruir dos serviços de saúde, havendo mesmo quem vá diretamente do aeroporto para as urgências. É que nem com um pastel de nata contribuem para o nosso PIB. Com tanta criança a vir nascer em Lisboa, estamos perante o caso mais flagrante de turismo de pé descalço.

A coisa está de tal forma que, neste momento, o hospital Amadora-Sintra recebe mais visitantes que o Mosteiro dos Jerónimos. Lá fora, o IC19 já é mais conhecido do que a Avenida da Liberdade. E eu a pensar que o problema do turismo em Portugal era a gentrificação. Afinal, é a hospitalização.

Claro que a presidente do Amadora-Sintra não tem forma de saber, ao certo, se estas pessoas que usam o hospital são, de facto, turistas, ou se já estavam cá, ou se acabam por ficar em Portugal. O que é óbvio — e bom que fique claro —, é que, em qualquer caso, isto que, de repente, pode parecer uma total bandalheira ao nível do controlo das nossas fronteiras e serviços públicos não tem, em circunstância alguma, nomeadamente na sua génese, nada a ver com os governos dos quais José Luís Carneiro foi Ministro da Administração Interna. Ficou claro? Óptimo.

E qual é a solução para estes problemas? Oh, essa é óbvia: é irmos metendo cada vez mais, e mais, e mais dinheiro dos nossos impostos nas mãos destes exactos e brilhantíssimos políticos e gestores públicos, até que, da viagem ao bolso, a mão traga apenas um lenço de papel usado e ressequido, e algo que tanto pode ser areia da praia como migalhas de bolacha (em princípio é um mix). Ou até sermos todos dizimados pelos robôs psicopatas. O que acontecer primeiro.