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“Só Uma Ilusão”: um filme nostálgico e caloroso sobre uma família na Paris dos anos 80

Éric Toledano e Olivier Nakache continuam, e defendem com brio, a tradição do cinema francês popular de qualidade no nostálgico "Só Uma Ilusão". Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Eurico de Barros
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Paris, 1985. François Mitterrand é Presidente da República, os socialistas estão no governo e os blusões da Chevignon no número um dos desejos dos adolescentes em termos de roupa. A família Dayan, protagonista de Só Uma Ilusão, de Éric Toledano e Olivier Nakache, mora num prédio dos subúrbios de Paris e tem dificuldades a adaptar-se à crise económica provocada pela política de mãos largas socialista. Yves (Louis Garrel), o pai, judeu francês nascido em Marrocos e executivo de empresa, foi despedido e não consegue arranjar trabalho, tendo escondido a situação aos dois filhos. Sandrine (Camille Cottin), a mãe, fugida da Argélia quando jovem com a família após a independência, aguenta a casa com o ordenado de secretária, mas está insatisfeita e quer ter um emprego melhor.

Vincent (Simon Boublil), o filho mais novo, tem 12 anos, é tímido, não gosta de rock e prefere os Imagination. Está caidinho por Anne-Karine (Jeanne Lamartine), uma colega de turma que não lhe presta a menor atenção, e sofre às mãos do seu irmão mais velho, Arnaud (Alexis Rosenstiehl), fanático de New Wave, que tem já um considerável pé-de-meia graças às cassetes-pirata que grava no quarto e vende aos colegas de liceu às escondidas dos pais. Inspirado nas recordações de juventude dos dois argumentistas e realizadores (a fita é dedicada aos seus respetivos pais), Só Uma Ilusão é um filme nostálgico – da vida em família e de bairro, da década de 80, da adolescência —, mas onde nem tudo são recordações cor-de-rosa e nem tudo corre sempre bem. Só que apesar dos disparates, das mentiras e das confusões, todos se protegem e defendem uns aos outros.

[Veja o “trailer” de “Só Uma Ilusão”:]

https://www.youtube.com/watch?v=3NcTEeCZrY0

Toledano e Nakache mantêm Só Uma Ilusão num registo de comédia dramática em que o cómico não se torna aparvalhado e o drama nunca é carregado, e em que as atribulações familiares relacionadas com a falta de dinheiro e os pequenos problemas doméstico-conjugais se mesclam com as peripécias em que o pequeno Vincent se envolve para não ser muito massacrado pelo irmão, conseguir ver um vídeo pornográfico com os três melhores amigos (o que se transforma num gag recorrente, chegando a envolver um rabino), ter um blusão da Chevignon, fintar as aulas de preparação do seu bar mitzvah e, acima de tudo, chamar a atenção de Anne-Karine e conquistá-la. Mesmo que isso implique aderir por puro oportunismo ao SOS Racisme, que a rapariga apoia para irritar o seu severo pai.

[Veja uma entrevista com os realizadores:]

https://www.youtube.com/watch?v=2uEbDqQ6uD0

A adesão a este filme caloroso e divertido, justo e despretensioso, será proporcional à vivência que os espectadores tiveram dos tempos aqui retratados, mas Éric Toledano e Olivier Nakache são discretos e comedidos, nunca abusando do “efeito nostálgico” para levarem a água ao seu moinho emocional e narrativo. Nada é forçado ou postiço na revisitação e recriação desses anos 80 franceses, nem sequer a banda sonora, e onde as memórias comuns (a moda, os carros, as cores, os clubes de vídeo, os centros comerciais de bairro, o advento dos computadores) convivem com as especificamente francesas (o jogo radiofónico com a mala de dinheiro da RTL, os programas de televisão com grandes vedetas como Michel Drucker). (Nem o cinema, nem a banda desenhada têm um papel importante na vida dos Dayan e no quotidiano de Vincent, curiosamente).

[Veja uma entrevista com os atores principais:]

https://www.youtube.com/watch?v=ZoHobNeCUnY

Autores de alguns dos melhores e maiores sucessos dos últimos 25 anos do cinema francês popular e de qualidade, caso de Nos Jours Heureux (2006), Amigos Improváveis (2011) ou O Espírito da Festa (2017), bem como da série En Thérapie (2021-22), Éric Toledano e Olivier Nakache voltam aqui, e como eles bem sabem, a fazer dos atores o cimento de empatia, humanização e emoção da história, e do filme no seu conjunto. Pequenos e grandes, experientes ou estreantes, são todos muito bons (faltou-me referir Pierre Lottin em mais um dos seus tipos “característicos”, Étienne, o porteiro e faz-tudo do prédio), mas permito-me destacar Camille Cottin na mãe, Sandrine.

As sequências em que ela dança em casa ao som de I’m So Excited, das Pointer Sisters, e que anuncia ao marido que conseguiu o emprego que queria e é agora uma “executiva” como ele, são do melhor que Só Uma Ilusão tem para oferecer em termos de momentos de atores inspirados. Nestes tempos em que a família está debaixo de fogo de agendas ideológicas nada recomendáveis, o novo filme de Éric Toledano e Olivier Nakache é para acarinhar e recomendar. Em vez do “familles, je vous hais!” de André Gide em Les Nourritures Terrestres, Só Uma Ilusão proclama: “Família, adoro-te!”. Mesmo com pequenas mentiras, apertos económicos, breves convulsões, grandes trapalhadas, irmãos mais velhos pica-miolos, blusões da Chevignon mal tingidos e tudo.