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(A) :: A extraordinária novidade de chegar depois - a propósito da entrevista da Presidente do HFF

A extraordinária novidade de chegar depois - a propósito da entrevista da Presidente do HFF

Conhecer uma instituição costuma produzir um efeito curioso: reduz certezas, acrescenta contexto e ensina respeito pelo trabalho invisível de quem veio antes

Carlos Sá
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Há uma modalidade fascinante de inovação na administração pública: chegar a uma instituição, descobrir o que já estava diagnosticado, anunciar o que já estava planeado e explicar aos predecessores como deveriam ter feito aquilo que deixaram preparado. Uma espécie de arqueologia administrativa: escava-se o trabalho dos outros e apresenta-se o achado como descoberta própria. A entrevista de ontem da Presidente da ULS Amadora-Sintra oferece alguns momentos desse género.

Dirigir uma organização hospitalar desta dimensão, complexidade e pressão assistencial não é uma competência adquirida por osmose no momento da nomeação. Talvez se recomende algum período de aprendizagem e, sobretudo, ouvir quem trabalhou durante anos nas matérias às quais agora se chega. O anterior Conselho de Administração surge como cenário de insuficiências, mas várias das soluções agora apresentadas têm uma característica embaraçosa: já lá estavam. Reorganização da urgência, respostas alternativas, articulação assistencial, circuitos e capacidade instalada não nasceram no dia da tomada de posse. Mudou, sobretudo, a autoria anunciada. É legítimo aproveitar o trabalho anterior e é até sinal de inteligência. Mais difícil é fazê-lo insinuando que antes pouco aconteceu. Vejamos: o CRI foi submetido à tutela no inicio de Novembro de 2025. Porque continua por implementar? E o projeto de IA? No PRR, prosseguiu-se muito do que o anterior CA deixou em andamento. Mas porque se perderam vários milhões de euros de financiamento, designadamente para um novo edifício, no HFF, com 9 milhões de euros aprovados, destinado a mais 70 camas de agudos, um centro de hemodiálise e à centralização dos hospitais de dia? A entrega estava prevista para setembro de 2026, antes do inverno. Outra revelação: o anterior CA não dialogava com os profissionais. Curiosamente, em três meses implementou, com o apoio da tutela, uma solução para a Cirurgia Geral e para os seus utentes, identificou, selecionou e contratou um director para a Urgência e abriu o Hospital de Sintra.

O atual CA leva sete meses de atividade. Que soluções concretas apresentou para os desafios da ULS? Dialoga muito, mas ainda nem conseguiu convencer e contratar um director para a Urgência. Depois surge a frase perfeita para a manchete: há pessoas que “chegam ao aeroporto e vêm para aqui”. E surge o desafio do “turismo de saúde”. Dizer que 40% dos utentes da Obstetrícia são estrangeiros não demonstra que 40%, 4% ou sequer 0,4% tenham aterrado em Lisboa com um plano obstétrico na bagagem de mão. Nacionalidade não é residência; residência não é elegibilidade; e ser estrangeiro não é ser turista de saúde. O que foi feito do inovador projecto de complementaridade assistencial nesta especialidade, implementado pelo anterior CA em conjunto com a ULS Lisboa Ocidental, no quarto mês após a tomada de posse e que garantia acesso às utentes, 7 dias por semana, 24h por dia?

Num hospital que serve populações socialmente vulneráveis e extraordinariamente diversas, transformar doentes em passageiros recém-desembarcados é uma simplificação que merecia evidência antes de merecer aspas. Talvez o tempo ajude. Conhecer uma instituição costuma produzir um efeito curioso: reduz certezas, acrescenta contexto e ensina respeito pelo trabalho invisível de quem veio antes. Até lá, ficamos com uma nova administração, algumas ideias antigas apresentadas com entusiasmo renovado e uma inesperada rota assistencial: Aeroporto Humberto Delgado–Amadora–Sintra. Só faltou anunciá-la no painel das chegadas.