O presidente do conselho de designers de moda da América (CFDA), Steven Kolb, anunciou na segunda-feira a sua “licença voluntária do trabalho” após imobilizar ativistas durante um desfile no domingo. Os integrantes da associação dedicada à defesa dos animais PETA invadiram a passerelle durante a apresentação da marca COS (do grupo H&M), na Semana da Moda de Nova Iorque. Com cartazes e gritos, manifestaram-se contra o uso de lã pelas marcas, pelo que foram contidos por Kolb. Em vídeos publicados nas redes sociais, o executivo aparece a agarrar um rapaz e a levar uma rapariga ao chão enquanto tapa a sua boca.
Em textos publicados nos stories do seu perfil no Instagram, Kolb reconheceu ter agido de forma “inadequada”: “Não há qualquer justificação para imobilizar fisicamente outra pessoa. A equipa de segurança deveria ter lidado com a situação, e eu deveria ter recuado”, afirmou. Na primeira fila do evento de exibição da coleção primavera/verão 2027 da COS, estavam celebridades como Sharon Stone, Lupita Nyong’o e Michelle Williams. A marca publicou as fotografias do desfile nas suas redes sociais sem exibir ou mencionar a intervenção dos ativistas.
“A violência que Kolb demonstrou reflete a violência inerente à indústria da lã, mas os ativistas voltaram para casa, enquanto as ovelhas acabam nos matadouros”, escreveu a PETA nas suas redes sociais, onde exibiu as imagens de Kolb com os ativistas. No passado mês de agosto, a filial da associação na Ásia publicou uma denúncia em que afirma que trabalhadores de exploração de lã na África do Sul agridem os animais. “[Estavam a] dar pontapés, a bater e a arrastar ovelhas aterrorizadas, deixando-as a sangrar numa exploração pecuária de lã na África do Sul. A quinta vende lã através da mesma rede certificada sul-africana que abastece o grupo H&M”, diz a publicação da PETA.

A intervenção no desfile não foi a primeira ação: ainda em agosto, uma ovelha de peluche com marcas vermelhas que simulavam sangue foi enviada ao CEO da H&M, Daniel Ervér, para chamar a atenção para o tema. Os ativistas levaram também peluches como este e cartazes para a frente de várias lojas da marca pelo mundo. Sem uma resposta, decidiram levar a pauta para o evento em Nova Iorque.
Após o episódio, Kolb admitiu ter aceitado o convite da PETA para discutir as preocupações com o uso de fibras naturais. “O que aconteceu foi completamente atípico em mim, tanto a nível pessoal como na qualidade de líder (…). Sinceramente, não reconheço aquela pessoa. Como tal, estou a tirar uma licença voluntária do trabalho e a consultar um profissional para garantir que isto nunca mais volte a acontecer”, escreveu.
O CFDA confirmou a licença de Kolb do cargo numa publicação onde afirma estar a tratar o caso com “extrema gravidade”: “O CFDA, enquanto organização, está empenhado em trabalhar com vozes discordantes para encontrar pontos em comum e está a empenhar esforços para fazer avançar a indústria da moda americana, mantendo os valores dos seus membros, incluindo a interação respeitosa com diferentes pontos de vista”.
Não só a lã mas também as peles e outras fibras de origem animal sempre estiveram no radar da PETA, que convoca designers e cadeias da indústria da moda a repensar a sua produção. Em 1991, um grupo de ativistas da associação invadiu um desfile de Oscar de la Renta. “Preferimos ficar nus a usar peles”, estava escrito no cartaz que seguravam em frente aos próprios corpos despidos. A modelo Gisele Bündchen, hoje uma ativista da causa animal e ambiental, já esteve também sob os olhares da associação. Após assinar um contrato como embaixadora da marca de peles Blackglama, ativistas invadiram a passagem de Gisele pela passerelle do desfile da Victoria’s Secret em 2002. É longa a lista de intervenções da PETA contra ações das grandes marcas de moda: também já foram alvo Valentino, Versace, Jean Paul Gaultier, Julien Macdonald, Burberry, Michael Kors, Gucci, Hermès, Coach e Christian Lacroix.

